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Para Roma, com amor

junho 29, 2012 1:36 pm 3 comentários

Ressuscito este blog com uns pitacos (desenganados, desencantados) sobre Para Roma, com amor, novo do Woody Allen, publicados hoje no Correio Braziliense.

É duro dizer isso de um filme de Woody Allen, um dos diretores norte-americanos mais originais e regulares dos últimos cinquenta anos. Mas Para Roma, com amor, seu trabalho mais recente, deve ser um de seus títulos mais preguiçosos, relaxados e condescendentes com o público. Para ele, uma comédia tranquila de se fazer — e, quem sabe para novos fãs, entretenimento irresistível. Allen, filmando na Europa mais uma vez, nem parece aquele ateu baixinho, reclamão e, por fim, romântico, que os cinéfilos e espectadores de cinema do mundo todo aprenderam a amar. Aqui, ele volta a atuar — o que não fazia desde Scoop — O grande furo (2006)— e divide a trama num quadrilátero de histórias. Acerta a mão em apenas uma delas e, no todo, reprisa a atmosfera farsesca que fez de Meia-noite em Paris (2011) seu maior sucesso de bilheteria (US$ 151 milhões arrecadados no planeta).

Nas vinhetas, que felizmente nunca se cruzam, Allen utiliza o absurdo para fins cômicos. Se em Paris, o personagem principal zanzava por calçadas cintilantes e de repente viajava no tempo, dando de cara com intelectuais do passado, em Roma, o artifício é ainda mais efusivo. Isto é: empolga como chamariz estético e falha na condição de elemento narrativo.

Em dois dos segmentos, Allen emoldura italianos. Claro, do seu jeito, como se estivesse enquadrando nova-iorquinos: cínico, mas carinhoso. Satiriza a cultura de celebridades ao infernizar a vida de Leopoldo (Roberto Benigni, de A vida é bela), um “famoso por ser famoso”. Ele é um cidadão comum que, sabe-se lá por quê, desperta interesse de supermodelos e dos paparazzi. Já na saída de casa, uma multidão de repórteres o aborda com perguntas ridículas (“o que comeu no café da manhã?”, “o que tem a dizer?”). Nada mais adequado para o diretor, tão avesso às cerimônias do Oscar.

Noutro momento, um jovem e ingênuo casal se hospeda em Roma para tratar de negócios. Milly (Alessandra Mastronardi) se perde e é atraída por Luca Salta (Antonio Albanese), estrela de cinema. Antonio (Alessandro Tiberi), sem querer, é forçado a considerar uma sexy prostituta (Penélope Cruz) sua mulher, por conta de um contato inesperado com empresários. Narrativas leves, de desencontros e enganos divertidos: um Allen excessivamente confortável. Ele, aliás, é quem protagoniza a historieta sobre um ex-produtor de música clássica e ópera, que fracassou várias vezes por ser tão “à frente do seu tempo”. Está com a esposa em Roma para conhecer o noivo da filha e encontra o pai do futuro genro, um agente funerário e cantor de ópera amador (Fabio Armiliato, prestigiado tenor), que só consegue soltar a voz no chuveiro.

O único conto que funciona, que lembra o melhor do cineasta, é o que reúne duas personas masculinas, do passado e do presente, estranhando e amando a Roma que escolheram para viver. John (Alec Baldwin), arquiteto de shopping centers, retorna à cidade. E, numa rua de Trastevere, topa com Jack (Jesse Eisenberg), estudante de arquitetura que mora na capital com a namorada, Sally (Greta Gerwig). Monica (Ellen Page), melhor amiga dela, chega para virar tudo do avesso. John, aqui e ali, invade a trama como um personagem imaginário, que alerta Jack sobre os truques sensuais da visitante. A carta de amor de Allen a Roma é escrita com talento, mas procura o elogio fácil. Talvez seja hora de voltar para Nova York. E não sair mais de lá.

Para Roma, com amor (To Rome with love, EUA/Itália/Espanha, 2012, 102 min). De Woody Allen. Com Jesse Eisenberg, Ellen Page e Woody Allen. Cotação: 2/5.

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Meia-noite em Paris

junho 19, 2011 11:22 pm Deixe um comentário


Fazia algum tempo que eu não saía do cinema com pensamentos tão otimistas. Acho que, de uns tempos pra cá — de uns seis anos pra cá — acabei me acostumando a ver na tela — ou na ficção em geral — sempre o lado mais cru, objetivo e frio das coisas — e é esse o tipo de representação das coisas de que mais gosto, direto, sóbrio, sem firulas sentimentais. Isso explica a minha fascinação pela ficção científica: aquela visão quase sempre distanciada, desapaixonada da humanidade. Aí me vem este Meia-noite em Paris (3.5/5), com uma delicadeza que me pegou de surpresa: deixei a pré-estreia com uma sonolência gostosa, como que pedindo um tempo a mim mesmo, uma paciência com as pessoas, pedindo, eu acho, e isso é difícil de aceitar, pedindo uma chance para as emoções. Enfim, parece que saí acreditando… no amor. Ok, ok, isso foi bem piegas. Mas parece que saí assim mesmo, esperançoso — não de uma maneira individual, mas universal.

Então, chegou a sexta-feira, e com ela uma onda de impressões negativas: “não é isso tudo”, relativizei. Aqui e ali — nas caminhadas de Gil (Owen Wilson) com Adriana (Marion Cotillard) –, fui transportado para aquela aura quase insuportável de ternura do meu favorito do Woody Allen, A rosa púrpura do Cairo. Este e O atalante, do Jean Vigo, estão entre os filmes românticos da minha vida — e também ocupam o topo de uma listinha de títulos que preciso evitar ver de novo, que é para manter o pessimismo (wertheriano) em alta conta e o platonismo (autodestrutivo) longe, bem longe.

Enfim, o mérito de Woody é o sensível (e pouco cínico) tratamento do personagem masculino: o diretor exibe essa obsessão de Gil com um passado que ele não viveu — os anos 1920, com referências trabalhadas com leveza, sem afetação –, e eu me reconheci há alguns anos, quando tinha certeza de que tinha nascido na década errada. Quando tinha 15, queria ter 30; hoje, tenho 22, e queria ter 40. Ele já fez esse tipo de filme antes — Tudo pode dar certo tem um final até mais otimista que Meia-noite –, com um terceiro ato livre de cinismo, de autoparódia (ou autosabotagem, ou humor negro), e melado de singeleza. Nas últimas cenas, Woody Allen quis ser o Richard Linklater de Antes do pôr-do-sol. Soou deslocado.

Posso ver Meia-noite repetidas vezes, sem temer abalos ou sacolejadas. No máximo, um pequeno desconforto depois dos créditos finais. E só.