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Biff – Dias 1 e 2

julho 14, 2012 2:07 am 3 comentários

Começou quinta-feira o primeiro Brasília International Film Festival, o Biff. Ok, tá longe de ser um Tiff (não tem première, as projeções ocorrem em formato de mostra), mas eu subitamente me animei e, até o dia 22 (quando termina o negócio), posto aqui um diário relapso, cansativo e esforçado com resenhas curtinhas dos títulos que verei durante o programa de filmes, quase todos inéditos no Brasil — sei que vi Oslo, 31 de agosto na Mostra SP 2011, e sei que ainda não gosto dele.

São 50 e poucos (12 em competição), vindos de 30 e poucos países. Hoje, começo com uns pitacos sobre o filme de abertura, o arrumadinho Na estrada, e alguns elogios a Francine e Without (em competição), dois indies americanos austeros e assustadores.

Ausência (Without), de Mark Jackson. 3.5/5

Não me entenda mal. Mas este filme de estreia é uma espécie de Atividade paranormal para o público de arte. Eu explico. Uma mulher de 19 anos toma uma barca para uma ilha distante, onde passa alguns dias cuidando de um velhinho inválido. A rotina é tediosa, cheia de detalhes de arrumação e enfermaria chatíssimos, que o casal que a contratou deixou descritos num planfleto chamado ironicamente de A Bíblia. Joslyn Jensen, personagem e atriz — e futura musa do cinema indie, eu espero –, não tem internet nem sinal decente de celular. No tempo livre, fixa os olhos em fotos da namorada no iPhone e ouve música até cabecear e então dormir. Todas as manhãs, antes de malhar e preparar a primeira refeição de Frank, nota, ao ser acordada pelo despertardor, que o celular vibra em cima do peitoril da janela do quarto. E ela sempre deixa o aparelho à mão, na escrivaninha. Existe algo de sinistro nessa casa, também.

Mark Jackson (diretor, roteirista, montador), num primeiro filme consistente, de desenvolvimento sutil, pouco a pouco, imprime tensão ao que parece enfadonho, besta — o plano que observa Joslyn na cozinha, de costas para a câmera, diante de uma janela enegrecida pela noite, amedronta pelo simples silêncio natural do cômodo; a trilha também é sorrateira, calada. Interrompo a enumeração de spoilers agora mesmo. Pois Without merece ser assistido com despreparo. Na superfície, é um horror haunted house ajeitado. No fundo, uma abordagem inesperada do luto, num filme teen que ousa ser despudorado.

Francine, de Brian M. Cassidy e Melanie Shatzky. 3/5

Uma Melissa Leo contida, cativa de incapacidades emocionais é uma Melissa Leo assombrosamente rígida, seca, crua. Neste Francine, que passou no Forum do Berlinale e atraiu boas resenhas, a atriz de Rio congelado e O vencedor interpreta uma mulher de ar pesado, derrotado, que acaba de sair da prisão. Esta cena (a da saída do cárcere) nos é mostrada, depois que Melissa, o corpo todo à mostra, toma banho, veste trajes cor de laranja e recebe a notícia de que sim, Francine, vai dar tudo certo lá fora, não se preocupe, a vida em liberdade é muito melhor. Não é, não. Francine parece ter desaprendido a conversar/lidar com pessoas, mas consegue alguns empregos na pequena cidade em que vive — num pet shop, num estábulo, numa clínica veterinária.

Ela não é má. Ela transa com um desconhecido, dá um beijo numa mulher cristã. As coisas acontecem fora de controle. Ela só consegue se comunicar com segurança abraçando, embalando, acariciando gatos, ratos, cães. Cassidy e Shatzky, novatos em longas de ficção, dão à protagonista tons pálidos, em enquadramentos que não a deixam em paz. Francine é a encarnação da desarticulação social, num microcosmo que só faz sentido na sua estranheza das coisas, na sua inadaptação aos ritos, às cerimônias, aos tratos, às cortesias, às rupturas. Bruto, rústico — e muito humano em seu sofrimento.

Na estrada (On the road), de Walter Salles. 2.5/5

Toda vez que deparo com filmes sobre hippies — ou, no caso, pré-hippies –, coço a cabeça, abro a boca em bocejos de aborrecimento até constatar, de novo, que Easy rider, ou Sem destino, ainda é o filme definitivo, o filme que encerra o assunto pra sempre — we blew it, é isso, fim de papo. Por isso, On the road soa tão datado e bem comportado nas mãos de Salles — um diretor de road movies pouco empolgantes, apesar da minha defesa resistente de Central do Brasil e Abril despedaçado, os únicos dele que poderia ver de novo sem me enfastiar. A adaptação do livro de Kerouac é um jorro de planos interrompidos — com cortes dentro do plano –, de uma banda sonora de doer os ouvidos, mas não de jornadas arrebatadoras, febris, liberadoras. Uns palavrões aqui e ali, nudez observada com reservas, sexo resumido em closes. Cinema rico e de recato.