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Tudo se ilumina

março 14, 2012 12:59 pm Deixe um comentário

“A vida de Brod era uma lenta percepção de que o mundo não era para ela, e de que — fosse por que razão fosse — ela jamais seria feliz e sincera ao mesmo tempo. Ela sentia-se transbordar, sempre produzindo e guardando mais amor dentro de si. Mas não havia libertação. Mesa, bibelô de marfim em forma de elefante, arco-íris, cebola, penteado, molusco, Shabbos, violência, cutícula, melodrama, vala, mel, paninho ornamental… Nada daquilo a comovia. Ela abordava o mundo com sinceridade, buscando algo merecedor do enorme amor que sabia ter dentro de si, mas para cada coisa teria de dizer, Eu não te amo. Mourão de cerca cor de casca de árvore: eu não te amo. Poema longo demais: eu não te amo. Almoço na tigela: eu não te amo. Física, tua ideia, tuas leis: eu não te amo.  Nada dava a sensação de ser mais do que na realidade era. Tudo era apenas coisa, completamente atolada em sua coisice.

Se abríssemos ao acaso uma página no diário dela (que ela devia manter, e mantinha consigo o tempo todo, não por temer que fosse perdido, ou descoberto e lido, mas sim por registro e lembrança, e não ter onde registrá-lo), encontraríamos algumas descrições do seguinte sentimento: Eu não estou apaixonada.

E assim ela tinha de se satisfazer com a ideia do amor — amando o amor de coisas com cuja existência ela pouco se importava. O próprio amor se tornou objeto do amor dela. Ela se amava no amor, amava amar o amor, tal como o amor ama amar, e assim conseguia se reconciliar com um mundo que estava muito aquém do que ela poderia esperar. Não era o mundo que era a grande mentira salvadora, mas a vontade dela de torná-lo belo, de viver uma vida em segundo grau, num mundo aparentado em segundo grau com aquele no qual todos os outros pareciam existir.”

Tudo se ilumina, de Jonathan Safran Foer. Tradução: Paulo Reis e Sergio Moraes Rego. Rocco, 368 páginas.