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Não

março 23, 2011 11:42 pm Deixe um comentário

You’re a rare find / A troubled cure / For a troubled mind

Time has told me, de Nick Drake

Estava prestes a escrever um post choroso, doloroso aqui. Desanimei. Aí vai um resumo:

Na sexta passada, acordei às 6h. Era minha folga. Abri o e-mail. Redigi uma declaração de amor — estabanada, sincera, direta. Enviei às 10h39; as mãos frias, trepidantes; os ouvidos, imersos na terceira audição consecutiva do The king of limbs. Dia da colação de grau — um evento obviamente preparado para o deleite da família, e só. Sexta à noite: a conversa via bate-papo, a negativa imprevisivelmente carinhosa, a resposta delicada mas dilacerante. Pareceu edificante. Sábado e domingo: choro. Segunda, vergonha. Terça, felicidade irrestrita — algo afetada. Quarta, comecei emburrado, ri à tarde e pranteei à noite.

Quinta, sexta. Ainda não sei muito bem o que sentir. Como sentir. O não.

The king of limbs

fevereiro 27, 2011 6:13 pm 1 comentário

Acho engraçado quando dizem que o In rainbows é o disco mais humano do Radiohead. Pra mim, todos — mesmo o aparentemente inescrutável Amnesiac — são, sim, humanos, demasiado humanos. Este The king of limbs, como todo mundo já disse ou escreveu (ou tuitou) por aí, não é uma obra-prima, não traz nada de novo em comparação àquilo que a banda já fez.

Mas ainda é Radiohead: apreensivo, urgente e recompensador. E, por ser Radiohead, recusa-se ser rasteiro, a ser escutado apenas uma vez — a não ser que você tenha birra com Thom Yorke. Desde o lançamento antecipado, 24 horas antes do previsto, devo ter ouvido mais de 25 vezes. Como todos os outros sete — Pablo honey incluído –, é exigente e persistente. E talvez familiar demais — consigo conectar as oito faixas a pelo menos outras oito de trabalhos anteriores.

Codex, por exemplo, a minha preferida: “Slide your hand, jump off the end /The water’s clear and innocent”. Ou ainda: “Just dragonflies, flying to our side / No one gets hurt, you’ve done nothing wrong”‘. Versos que parecem extraídos de Pyramid song (“I jumped in the river and what did I see? / Black-eyed angels swimming with me”). Lotus flower é a Idioteque do TKOL: uma balada nauseante, com texturas carregadas e lamentos intermináveis.

Cada álbum estabelece rupturas com o anterior: The bends enterra a ingenuidade roqueira do Pablo honey; Ok computer esquece a melancolia apaixonada de Fake plastic trees e High and dry com injeções pesadas de pessimismo e texturas perturbadoras. Kid a envolve Ok computer numa teia eletrônica menos ruidosa e mais contemplativa, com tratados sobre a solidão (How to disappear completely e Motion picture soundtrack). Amnesiac confronta Ok computer e Kid a numa jornada instrumental quase insuportável — devo ter ouvido na íntegra não mais do que quatro vezes. Hail to the thief é mais palatável que o predecessor: anuncia a leveza do In rainbows, mas demarca seu próprio território em canções que ora emulam o Kid a, ora reinterpretam o The bends.

The king of limbs não tem enigma nenhum, não pede para ser investigado, não esconde segredos, não deseja a obscuridade. Parece uma compilação — breve, infelizmente — de tudo o que o Radiohead já fez. É pouco — e é muito.