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A prova dos nove

fevereiro 22, 2013 6:57 pm 1 comentário

Todos falam mal do Oscar. Mas todos adoram ver o Oscar, essa festa longa, chata, injusta, irrelevante, brega e bela, que surpreende e espanta aqui e ali, e, na maior parte do tempo, apenas confirma previsões, repete protocolos e discursos e diverte tanto quanto um filme ruim mas grudento.

Ah, dane-se, admito que vibrei com os três prêmios de O ultimato Bourne, achei o Oscar a melhor coisa da história do cinema quando consagrou Onde os fracos não têm vez, quase vomitei com a vitória de Crash, tive tonturas ao notar que, de fato, A rede social havia perdido para O discurso do rei, abri um sorriso sem graça quando Scorsese venceu por Os infiltrados — pois devia ter vencido anos atrás por coisas melhores –, quis morrer quando a estatueta da Fernanda Montenegro foi parar nas mãos da Gwyneth Paltrow, e digo que tratei Avatar x Guerra ao terror como um Palmeiras x Corinthians — deu Palmeiras!

Antes da breve apreciação dos nove indicados deste ano a melhor filme, segue o aviso: este blog apoia A hora mais escura, Kathryn Bigelow e equipe.

Agora, à prova:

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A hora mais escura, de Kathryn Bigelow. 4/5

Bigelow usa e abusa dum tratamento cru, parcimonioso — eu não chamaria de jornalístico nem como justificativa nem como recurso estilístico — para compor uma espécie de filme-réquiem (sim, pois Osama já morreu, mas não no cinema) para o terrorismo — ou ainda, para as imagens do terrorismo, e aqui eu penso em Jogo de espiões, 24 horas, Homeland e até em Guerra ao terror. Se aqui tudo termina numa noite silenciosa, de estampidos secos, gritos de horror e ordens mudas de soldados — a ação militar que mata Osama é um anticlímax enevoado, sombrio –, é porque a diretora não quer informar — há uma recusa constante dos arroubos de thriller –, e sim elaborar sensações.

A hora mais escura é uma catarse coletiva, construída num debate de dez anos entre vontade x burocracia, desconhecimento x observação — “we don’t know what we don’t know”, diz um agente –, em que a tecnologia de espionagem via telas e drones, por mais útil que pareça, ainda precisa do aval de alguém (Maya, “the motherfucker who found this place”) que diga: sim, eu tenho 100% de certeza de que Bin Laden está lá (“lá” sendo um casarão fantasma no Paquistão). Quando Maya, sentada sozinha no avião que a levará para casa, (finalmente) deixa uma lágrima cair, eu consigo imaginar um desligamento simbólico da multidão de satélites e monitores gigantescos que habitaram praticamente todos os thrillers e suspenses de espionagem pós-11/9, aparatos esses que, de maneira direta ou indireta, e conjugados ao olho humano, também queriam um vislumbre do homem mais procurado.

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As aventuras de Pi, de Ang Lee. 3.5/5

Resisto à tentação de considerar Pi uma sessão de autoajuda ou uma cartilha escolar sobre religiões ou um simplório survival movie, porque, apesar de todo o tal conteúdo metafísico, pra mim este é um filme tão somente de superfície. Aqui, Lee, que sabe evocar emoção e fascínio com firulas de cenário — e que sabe também narrar uma história longa sem prolixidade, apesar das deficiências do primeiro ato –, alcança resultados espetaculares na interação do náufrago existencial/contador de causos com as animações ao seu redor. A profundidade que importa aqui é a do 3D — tão bom quanto o de Avatar, num filme tão de superfície quanto Avatar –, e não a do texto.

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Lincoln, de Steven Spielberg. 3.5/5

É lindo como o diretor rejeita seus cacoetes de manipulação da narrativa — ou rejeita até os momentos finais, quando o personagem de Tommy Lee Jones se agiganta na tela como um típico herói spielberguiano — para concentrar seus esforços técnicos e épicos num documento sóbrio e cuidadoso sobre a democracia, em que tudo — a câmera de movimentos tímidos, a trilha mui comportada do hitmaker John Williams — parece se aperceber da grandeza do personagem histórico emoldurado. A palavra nunca foi tão bem tratada num produto (sim, didático e divertido) com assinatura do cineasta. Um filme sobre e de discurso.

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Argo, de Ben Affleck. 3.5/5

O ator-diretor, que ainda não dirigiu um filme ruim (nem um grande filme), larga por um momento suas preocupações clint-eastwoodianas sobre a moral masculina — centrais para os machos de Medo da verdade e Atração perigosa — e faz um produto de entretenimento inofensivo — sem patriotadas –, descomprometido na condição de homenagem à indústria e pretensioso enquanto reflexão política. É o filme que George Clooney gostaria de ter dirigido — mas só produziu. No mais: Alan Arkin, um coadjuvante comum, entrega uma performance estimada além da conta — as usual –, e John Goodman, meu coadjuvante preferido da história do cinema, brilha com o pouco que lhe é dado — as usual.

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Django livre, de Quentin Tarantino. 3/5

Um Tarantino autômato, repisando e reprisando — pela primeira vez na vida. Seu filme blaxploitation (nem é bem isso, mas vida que segue) continua sendo Jackie Brown, seu faroeste, Kill Bill: volume 2 e seu filme de vingança, Bastardos inglórios — pois é, acho superior a Kill Bill: vol. 1. Christoph Waltz é outro que se repete — não vejo diferença nenhuma entre King Schultz e Hans Landa –, mas o resto do elenco — exceção feita a Jamie Foxx — convence. Amo o cameo da Zoë Bell, amo mais ainda o do Franco Nero e odeio o do Tarantino — é a pior das suas sempre medonhas atuações. Sou mais o Django fanfarrão de 1966.

THE SILVER LININGS PLAYBOOK

O lado bom da vida, de David O. Russell. 3/5

O livro de Matthew Quick, leve como uma pluma, mas bem equilibrado — há tantas patologias quanto emoções –, fornece relevo e adubo para as conhecidas obsessões de Russell com famílias descompensadas e jovens-adultos-perturbados-que-não-param-de-falar. Não acho o filme ruim, mas me incomodam as escolhas de direção — a câmera trepidante, obviamente sugerindo pontos de vista instáveis vindos de mentes instáveis, gera o mesmo desconforto que em O vencedor, porém soa dispensável num filme que extrai do romance apenas a love story. Russell já correu mais riscos antes (Spanking the monkey) e já filmou diálogos mais enérgicos e engraçados (Procurando encrenca, meu favorito dele).

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Indomável sonhadora, de Benh Zeitlin. 2.5/5

É cativante, a menininha exibe uma ingenuidade honesta e real, mas sou incapaz de ver grande realização aqui. O flerte com a fantasia tem propósito mais naturalista que metafórico, digno de Terrence Malick — só que sem a carga cristã –, mas a poesia visual parece comprometida por uma narrativa débil, difusa, bastante problemática na segunda metade de projeção. Como todo e qualquer título indie sobre os “desvalidos da América” — de Rio congelado a A outra terra –, a fotografia dispensa polimento e as contendas de família (mãe se foi, pai bebe, sonhos e pesadelos são meus melhores amigos) assomam como males sociais e geracionias insolúveis.

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Amor, de Michael Haneke. 2/5

O epítome do filme-de-festival ou do cinema-de-sala-de-arte. Qualquer título anterior do alemão — e aqui eu incluo ATÉ o Funny games U.S. — é mais aproveitável ou decente que esse tal “amor segundo Haneke” ou “filme mais humano do Haneke”. É um drama tão falso (enfim, tão anti-Haneke), que ele se vê no direito de não ser ele mesmo durante 90 minutos, rodar uma cena ridícula (a palavra é hollywoodiana) de pesadelo no meio do caminho, e, a instantes do fim, voltar atrás e enxertar um desfecho que é do seu feitio. Olha, sinto saudades do Haneke pré-A fita branca, do homem que examinava friamente casais nervosos e criava fantasias provocantes sobre a relação espectador x vídeo (ou espectador x tevê).

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Os miseráveis, de Tom Hooper. 2/5

Não vou mentir. Existe um momento comovente neste musical filmado por Hooper — um golpista do naipe de John Madden: Anne Hathaway cantando I dreamed a dream, é claro. O resto: Sacha Baron Cohen vale cada segundo — mesmo abrindo a boca pra cantar –, Helena é a mesma louca chata e alarmada de sempre, Hugh Jackman bem que tenta — mas só modula –, o casalzinho Redmayne/Seyfried é sofrível, e eu nem preciso dizer nada sobre a inexpressividade de Russell Crowe. Os montadores das sequências musicais merecem algum crédito pelas soluções dinâmicas em um ou dois números — compilar as várias vozes do elenco diminuiu o desinteresse, eu achei. E é só.

Cavalo de guerra

janeiro 7, 2012 11:37 am Deixe um comentário

Quando saíram as primeiras imagens de Cavalo de guerra (3/5, 65/100), confesso que me diverti bastante cá com meus pensamentos maldosos. Para o meu azar, demorei alguns dias para atinar que o material era do novo filme do Spielberg, o entertainer responsável por alguns dos (vários) filmes — pelas bobagens? sim, pelas bobagens — mais importantes da minha vida.

E eis que nesta listinha, para alguns risível de tão clichê, para mim essencial, desfilam coisas como E.T., Jurassic park, Tubarão, Os caçadores da arca perdida, A.I. e, mais tardiamente, meu favorito de todos, Contatos imediatos de terceiro grau. Voltemos ao lançamento.

Cavalo de guerra, como todos os filmes do homem, é um baita de um exagero: 146min de uma saga ambientada na WWI, em que um cavalo bonito e indomável passa de herói de uma família inglesa — treinado por um jovem de olhares e gestos deslumbrados, ele ara a terra e salva a pele dele e dos seus pais — a sobrevivente de um conflito mundial.

Nesta grande novela formatada para o público Touchstone/Disney — o que significa dizer que não há sequer um pingo de sangue –, o cavalo conhece um bocado de gente: após morar na fazendinha do pobre garoto, ele é vendido a um oficial britânico assim que a guerra começa. Depois, muda de front e é cuidado por dois gentis irmãos alemães — que falam inglês.

Uma garotinha francesa — que fala inglês — e seu avô também são honrados com a presença do animal. Nosso herói, de novo, é capturado pelo front inimigo. Foge, trota entre tiroteios de trincheiras americanas e alemãs — (alerta spoiler) por causa dele, um soldado americano vira amigo de um alemão. Até aqui, mesmo sem ter visto o filme, você já sabe qual deve ser a última parada do protagonista.

Spielberg é mestre em narrar pequenas histórias de abandono e, também, melodramas (históricos) para emocionar milhões, bilhões. Sabe, como poucos, humanizar (dramatizar) personagens não humanos. Aliens, dinossauros, um tubarão que pouco vemos na tela, um robô que mais parece gente. E, agora, um cavalo perdido que é mais importante que os batalhões de soldados, que as rivalidades entre nações e mais uma porçao de fatos importantes que, quer saber, pouco importam para Spielberg e seus espectadores.

Esses sessentões/setentões da Nova Hollywood andam nostálgicos — levam a Velha Hollywood, e não a Nova Hollywood, para dentro dos seus filmes. Scorsese rodou O aviador com a pompa de um filme dos anos 1930. Ilha do medo, como um noir dos anos 40. Não vi Hugo, mas é claramente um tributo (em 3D) às origens do cinema. Spielberg filmou a última aventura de Indy Jones como se estivesse nos anos 1980 — não à toa, meteu o bedelho em Super 8 e Gigantes de aço, duas aventuras com cara e coração da década perdida.

Cavalo de guerra, e muita gente já disse isso por aí, lembra a época em que Hollywood estava descobrindo a cor e as possibilidades do scope: a historinha que ele quer contar pode ser (e é) ingênua demais — aqui, ele força a barra mesmo –, mas os planos têm a seriedade e o compromisso de um John Ford. Spielberg enquadra seus personagens em locação, mas usa fotografia e iluminação de estúdio. Tudo (belamente) antiquado.

Talvez eu tenha sido enganado por meia dúzia de cenas estonteantes, pela inocência quase irritante dos personagens — é incrível como, em todo filme do Spielberg, as atuações me parecem sempre caricaturas dóceis, propositalmente mansas e infantis –, pelo retorno do Spielberg choroso de A.I. Na verdade, eu sempre fui enganado por ele — e muito bem enganado.