Arquivo

Posts Tagged ‘simple twist of fate’

Quando vi e ouvi Bob Dylan

abril 18, 2012 1:46 am 2 comentários

(Brasília, terça-feira 17 de abril, ginásio Nilson Nelson)

Pois então, Don’t think twice, it’s all right começou e eu nem percebi. A hard rain’s a-gonna fall, só fui identificar no refrão. É verdade o que dizem: os novos arranjos que o Dylan orquestra no palco — por necessidade, por hoje ser mais um blueseiro esmerado do que um trovador revolucionário — deixam o sing along bem mais difícil — bater palmas no ritmo que ele imprime também não é assim tão simples. Pouco importa. Mesmo. Sério.

Não paguei R$ 250 esperando ver, com as mãos trêmulas, suadas — ou petrificadas, frias, tanto faz –, o Dylan de 1965 ou 75 ou 85 ou 95 — isso, daquele Unplugged dispensável de 1995, isso mesmo, até esse. Nem cheguei cedo — uma hora antes — e fiquei na grade — com duas amigas e um amigo e uma estranha à minha esquerda que, imitando meus pedidos (ingênuos) urrados com as mãos levantadas, queria escutar Make you feel my love, e eu penso agora que devia ter perguntado o nome dela mas, caramba, mas que coisa, mas que cara mais comfortably numb eu sou; vida que segue –, a dez metros dos instrumentos, aguardando um Dylan verborrágico, falando um “boa noite” falso para o público ou executando um setlist absurdamente inesperado — se bem que o bis, com Rainy day women ♯ 12 & 35, foi meio que um escândalo.

Fui para vê-lo. Só queria vê-lo. O resto — a arte que estremece e enternece, o músico que ainda arranha solos cativantes, que sorri com o canto da boca, que inclina os joelhos e ataca as cordas da guitarra como um roqueiro que nunca quis ser chamado de salvador do folk ou voz de geração nenhuma, que abocanha a gaita com gana, que coça a cabeça e faz charminho com os dedos –; o resto é detalhe. O resto são: discos, filmes, docs, bootlegs tão bons quanto/melhores que os discos, singles tipo Positively 4th street (minha favorita). Pouco importa. Mesmo. Sério.

Fui para ouvi-lo dizer felt an emptiness inside to which he just could not relate e o mantra tangled up in blue uma dúzia de vezes.

Só pra isso. E saí da grade — a desconhecida evaporou, correu, saiu sem dar boa noite que nem o Zimmerman — uns 50 e poucos anos mais velho, querendo chegar em casa e ficar na minha cama por toda a eternidade com o notebook (um HP com a tela de LED baqueada, que estraguei neste dia lindo) no colo, escrevendo e escrevendo mais um pouco e novamente, sem parar, apagando tudo depois e escrevendo lembrança em cima de lembrança, imagem sobre imagem sobre o dia em que vi e ouvi Dylan.