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Mostra São Paulo – Dia 1/5

outubro 26, 2013 1:33 pm 1 comentário

Acho que escolhi o momento certo — e o filme certo — para conhecer o cinema de Lav Diaz. Isso mesmo, pelo curta (!) de 250 minutos Norte, o Fim da História. Filmão — em todos os sentidos. Mas a terceira Mostra São Paulo da minha vida começou mesmo num clima à la Festival de Brasília — calma, explico no pé desse post –, com o chileno O verão dos peixes voadores. À noite, entrei num programa de curtas que valeu pelo último de Miguel Gomes, Redemption, e vi adolescentes sofrerem à beça em La jaula de oro. Bora lá — que, hoje, Palmeiras vai jogar, eu vou:

norte

Norte, o Fim da História (Norte, hangganan ng kasaysayan, Filipinas, 2013). De Lav Diaz. 4/5.

Ruminar o tempo é para poucos. E Lav Diaz sabe o que faz quando destina 250 minutos de duração a uma história que, de fato, precisava de 250 minutos para ser contada. Por isso, acho bem possível definir Norte como um filme enxuto. Quando vai preso o pobre homem falsamente acusado de assassinar a mulher a quem todos devem algum dinheiro e sua filha, Diaz deixa a câmera repousar à frente da esposa, seus dois filhos e uma ajudante. Dezenas de segundos depois, lágrimas banham o rosto da mulher. Quando não vai preso o homem intelectual (e verdadeiro assassino da ricaça) que largou a faculdade de direito e hoje acredita em soluções radicais para solucionar a pobreza e a violência — matar todos os criminosos daria jeito, segundo ele –, a câmera não o deixa dormir. Ele acorda sobressaltado de madrugada — um retângulo de luz projetado pela janela ilumina seus olhos perturbados.

Não se trata apenas de observar vidas em desajuste (e, por consequência, um país em desajuste) por meio de planos longos — uma atribulada porque livre e atormentada pela culpa, a outra massacrada pela injustiça e ainda assim benévola aos seus pares no cárcere. O Crime e Castigo de Lav Diaz, tal como o sufocante romance russo, é um filme para ser também um pouco vivido. As crises deflagradas por Diaz dão conta tanto de uma elite pensante de moralidade discutível — que comete atos impulsivos de violência e sai impune — quanto de um proletariado achatado pela imobilidade social. Em 250 minutos, constata-se: o presente, violento e incontrolável, é a antítese silenciosa da história.

 

Programa Loznitsa (Carta, Pismo, Rússia, 2013), Miguel Gomes (Redemption, Itália/Alemanha/França/Portugal, 2013) e Jeanne Dosse (Do outro lado da cozinha, Brasil, 2013).

Da trinca de curtas, falo apenas do que gostei. Redemption (3.5/5) evidencia, mais uma vez, a esperteza do português Miguel Gomes ao tratar a narração em off como um recurso irônico e afetuoso de memória cinematográfica. Ele coleta e compila imagens em Super 8, 16mm e em preto e branco para representar quatro histórias. Cada uma delas é narrada em uma língua — português, italiano, francês e alemão. Por fim, ele arremata os contos com cartelas explicativas, dando outros significados aos monólogos — é quando surgem os nomes de Berlusconi, Sarkozy, Merkel, e, acho eu, de um político português tão afamado quanto esses três. Interpretações à parte, o curta de Gomes serve como um exercício inquietante de colagem visual — afinal, o que é dito deve parecer tão importante quanto o que é mostrado? –, ressignificado a cada instante pelo poder (invisível) da fala.

 

La jaula de oro (México, 2013). De Diego Quemada-Díez. 3/5.

Quatro adolescentes enfrentam perigos, trocam ofensas aqui e ali e sofrem um bocado numa demorada viagem rumo aos EUA. Nem road movie existencial. Nem Conta comigo.

Um dos garotos é, na verdade, uma garota que, lá no começo, diante de um espelho, cortou o cabelo e cobriu os seios para viajar com mais segurança. Noutro extremo minoritário, está um índio mexicano que não sabe espanhol — e se vê mais próximo da garota-menino que dos outros dois. O trajeto via México, a bordo de trens e sobre trilhos, desvela um singelo e melancólico filme sobre descoberta sexual e identidade, fatores humanos sempre permeados por uma itinerância agressiva e imprevisível. Há road movies, uns acreditam, que melhoram o homem. Mas a estrada, só a estrada, nua e crua, essa que leva para uma terra prometida ilusória, pode simplesmente demolir o homem.

 

O verão dos peixes voadores (El verano de los peces voladores, Chile/França, 2013). De Marcela Said. 2/5.

Terminei o Festival de Brasília com um filme (Exilados do vulcão) fotografado por Inti Briones. Comecei a Mostra São Paulo com um filme fotografado por Inti Briones.

Em busca de uma catarse que nunca chega, o filme de Quemada-Díez explicita diferenças de classe por meio de uma adolescente riquinha durante as férias de verão, que, nesta ordem, 1) tem seu coração partido por um garoto que fica com uma de suas amigas, 2) conhece a realidade precária e esquecida dos Mapuche, povo indígena que disputa terreno com seu pai, 3) claro, fica caidinha por um jovem e cantante Mapuche. O verão, aqui, é amazonicamente úmido, composto de verdes impactantes, e tão nebuloso quanto a atmosfera alva e onírica de Exilados. Mais um caso, portanto, de filme bonito, bem-sucedido enquanto tradução visual de estados de espírito, porém farto de arestas — acredite, seus 88 minutos demoram mais a passar que os 250 de Norte, o Fim da História.

Mostra São Paulo – Dia 1/3

outubro 30, 2012 8:02 am Deixe um comentário

O tempo urge. Terei apenas 72 horas de Mostra São Paulo este ano — o que significa, em números (miúdos), algo entre 10 e 12 filmes, até quarta. Inaugurei minha segunda participação no festival (ontem, segunda) com o descompensado quase-doc Canção para o meu pai, do israelense Amos Gitai, fui em diante com A cara que mereces, filme de estreia do incensado Miguel Gomes (Aquele querido mês de agosto, Tabu) e encerrei o dia em clima de romance russo — deprimente, pesado, catatônico –, na sessão de Na neblina, de Sergei Loznitsa, um dos focos desta edição — ele em pessoa e todos os seus documentários + Minha felcidade estiveram dando uma voltinha por São Paulo. Ao que interessa:

Na neblina (V tumane, Alemanha/Holanda/Bielorússia/Rússia/Letônia, 2012, 127 min). De Sergei Loznitsa. 3.5/5

A Segunda Guerra vista através das histórias de três russos — um soldado, o superior deste mesmo soldado e um pobre homem acusado de traição, poupado da hora final por sorte (por azar, eu quis dizer). Loznitsa é tímido com a câmera — ela fica, para, continua devagar –, mas estica as cenas em planos longos, calmos, demorados, um personagem esperando a fala do outro, a respiração filmada sem cortes ou contraplanos. É um cinema que busca a completude dramática — literalmente, reunindo todos os elementos num quadro só, protelado até o limite –, mas não de estilismo — o propósito de Steve McQueen (Shame), quando resolve prolongar o momento da interrupção de um plano para obter resultados plásticos de uma sequência.

O tal sujeito injustiçado tentou sabotar trilhos por onde passariam vagões nazistas. A punição: ficar vivo, enquanto seus comparsas tiveram pena capital na forca. Um acordo à força, feito com os nazistas. Ele preferia ter morrido a isso. Sua mulher preferia que ele tivesse morrido a isso. Quando um oficial russo e seu ajudante deixam a guerra por alguns dias e vão atrás de Sushenya (Vladimir Svirskiy), o sobrevivente, de tão angustiado, não hesita em ir com os dois. Na mata escura — e sempre fotografada em tons esverdeados –, Burov (Vladislav Abashin) aponta o rifle para a cabeça do prisioneiro. O estalo de um galho denuncia companhia, tiros zunem, o atirador é alvejado, Sushenya não foge, em vez disso carrega seu algoz moribundo nas costas, enquanto o cabo acompanha os dois com uma arma engatilhada.

Os três estão na solidão de uma floresta fria, calada, nebulosa. Pode-se morrer em paz ali — um privilégio que quem está entrincheirado nas linhas de batalha certamente não terá. Loznitsa aproveita a introspecção geral para trazer à luz o passado dos três. É culpa dostoievskiana que não acaba mais — sobretudo para o dito traidor. O peso de carregar o seu assassino nas costas é maior que o fardo da honra ferida, da autoimagem de falso herói, da angústia de estar vivo enquanto seus amigos já se foram? Pouco interessa. Aos três, agora, só importa morrer dignamente. Na neblina exibe várias potências — entre elas, profundidade e aclimatação, digamos, de ares literários –, mas fica um degrau abaixo do último grande filme russo sobre a humanidade e seus demônios — Fausto.

A cara que mereces (Portugal, 2004, 108 min). De Miguel Gomes. 3/5

As (duas) histórias, conectadas por apenas uma moedinha dourada, são contadas num mundo real e adulto, mas recendem a fábulas infantis — a da Branca de Neve e os Sete Anões, para ser mais direto. Na primeira, Gomes filma como que um musical tragicômico no dia de aniversário de (30 anos) de Francisco, um caubói lisbonense melancólico e pessimista. É hilário: uma pantomina interpretada por gente crescida, em que as infantilidades surgem como páródia das crises da fase adulta.

A estrutura seriada, infelizmente, prossegue e termina num segundo conto alongado: versão “crescida” dos Sete Anões. Há um certo esbanjamento de esquisitices — afinal, são contos de fadas –, uma ironia incontrolável nas firulas visuais — efeitos sonoros cartunescos, a narração em off que dialoga com os personagens, os recortes de livros infantis –, e a cenografia é toda construída em cima de realismo e mágica. Não chega a ser um Wes Anderson, mas fica próximo disso (dum conceito rígido e não negociável de estilo): já em seu filme de estreia, Gomes marca terreno com uma direção de personalidade, que não parece perseguir outra coisa senão a originalidade. Falho, mas aventureiro e arriscado.

Canção para o meu pai (Lullaby to my father, França/Suíça, 2012, 82 min). De Amos Gitai. 2/5

Munio, o pai de Amos Gitai, foi arquiteto, estudou na Bauhaus, e sabemos da sua importância para Israel porque seu filho lhe dedica um documentário destemido, que pinça depoimentos, abre espaço para leitura de cartas, permite poesia e ainda arranja tempo de tela para interpretações ficcionais (mui bem filmadas) do passado, centradas sempre na mãe do diretor. Parece um impressionante esforço de recuperação de memória e legado familiar, mas este é o caso em que o conceito não se percebe muito claramente — na verdade, o conceito é melhor descrito como falta de focalização do que Gitai estava disposto a filmar.

A homenagem teria dado um belo longa ficcional. Veja algumas das cenas, já prontas, já compiladas em Canção: Gitai filma o seu próprio parto no primeiro plano; cria imagens lindas saídas de um road movie puramente pictórico, com flocos de neve e luzes de tráfego, ou com estacas de madeira e trilhos duma estrada de ferro; monta um plano sequência digno de épico numa estação do metrô. E os outros momentos? Falas cifradas, recriações teatrais de alguns desses mesmos testemunhos, fantasmagóricas passagens da câmera por locações desoladas, e meditações que fariam mais sentido num livro biográfico de Gitai — ou num livro de lembranças e impressões do pai. Lucia Murat faria melhor.