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Submarino

maio 22, 2011 11:33 pm Deixe um comentário

“Manhã de quinta-feira. Em geral, deixo mamãe me acordar, mas hoje ajustei o despertador para as sete horas. Mesmo embaixo do meu edredom grosso, consigo ouvi-lo berrando do outro lado do quarto. Escondi-o entro do meu engradado de plástico para joysticks defeituosos, para ter que me levantar da cama, atravessar o quarto, arrancá-lo lá de dentro pelo fio e só então apressar o botão da soneca. Foi uma manobra tática feita pelo meu eu anterior. Ele sabe ser muito cruel.”

Submarino (3.5/5), de Joe Dunthorne, como muita gente já escreveu por aí, é mesmo herdeiro de O apanhador no campo de centeio. Só que as ousadias do cínico, temperamental e também sarcástico personagem principal, Oliver Tate, são um pouco diferentes das de Holden Caulfield, de J. D. Salinger. Afinal, Tate vive no fim dos anos 1990, troca e-mails em vez de cartas e tem acesso à pornografia não por revistas compradas em bancas de jornal, mas páginas da internet. É outra época. Mas a busca de identidade ainda persiste.

Tate mora na região costeira do País de Gales. E só quer saber de duas coisas: evitar a separação dos pais e perder a virgindade antes de completar 16 anos. Dunthorne, e dá raiva disso, escreve bem, com um descaramento incrível. Tate é Craig Thompson, da HQ Retalhos, ao avesso: cresceu com pais ateus, não tem medo de ir para o inferno, pratica bullying com os colegas — especialmente uma gordinha que ele acha até atraente — e tem um jeito sábio (adequado, correto etc) de tratar as mulheres — parece medroso e confiante na mesma medida, mas com um desinteresse invejável.

Submarino virou filme, distribuído nos Estados Unidos pela The Weinstein Company — hmm, isso não é bom… Por ora, fiquemos com o livro.

Retalhos

abril 17, 2011 11:25 pm 2 comentários

Terça passada viajei para o Rio de Janeiro. Fui cobrir o lançamento de Velozes e furiosos 5 – Operação Rio — que é ruim, claro. Não deu pra conhecer a cidade, o que já fiz em parte, em janeiro de 2001, na minha única visita à cidade. Mesmo assim, tenho lembranças fracas: banners enormes de Limite vertical e O sexto dia — filmes que adorei quando vi pela primeira vez — e a estrutura do Rock in Rio sendo desmontada. Fora uma caminhada forçada — já que o motorista nos largou, eu e mais dois jornalistas, a oito quadras do hotel –, não deu pra ver muita coisa. Mas isso não interessa agora.

Fui e voltei lendo Retalhos no avião, essa graphic novel insuportavelmente bela de Craig Thompson.

É um romance de formação em quadrinhos. Thompson cresceu numa família cristã (fanática), escutando sermões amedrontadores e lendo passagens bíblicas que exigiam fé irrestrita. Ele se expressava por meio do desenho, era malhado pelos colegas da escola por causa do cabelo que cobria as orelhas e dividiu a mesma cama com o irmão por um tempão.

Num acampamento religioso, veio a libertação: ele conhece Raina, por quem se apaixona de imediato. E ele a ama do seu jeito, com ideais angelicais de pureza e outras tantas ingenuidades desconcertantes de um cara de 17 anos que passou a adolescência inteira acreditando que a vida na terra é passageira, pecaminosa, enfim, é “canseira e enfado” — o que vem depois é o gozo eterno, louvores infinitos ao bom Deus que salvou Craig do pecado.

Thompson não precisa atacar o cristianismo para evidenciar seu passado. Ele é levemente irônico em algumas passagens, e fixa a narrativa numa progressão acidentada, fragmentada mesmo, desenvolvendo o temperamento do Craig adolescente e jovem enquanto investiga a infância. Retalhos tem traços simbólicos, alguns fantasmagóricos, e delicados. Thompson traduz amor, decepção e opressão com sensibilidade arrepiante. É um tratado gráfico rasgado e delicado sobre o primeiro amor.

O que vou dizer agora é um absurdo. Achei Retalhos um pouco parecido com Diário da queda, livro de Michel Laub a que dediquei um post há poucas semanas: nos dois, o protagonista é massacrado pela persistência da memória, mas sabe seguir em frente. Na HQ, assuntos mal resolvidos da infância e recordações recentes de uma ditadura do pensamento, imposta pelo protestantismo e pelos pais. No romance, a história de sofrimento dos judeus tritura e distorce o comportamento do principal.

Como é bom deixar uma marca na superfície branca. Fazer um mapa dos meu passos… mesmo que seja temporário.