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House of tolerance

fevereiro 6, 2012 3:14 pm Deixe um comentário

Este é um texto que já deveria ter sido escrito e postado — demorei não por preguiça, mas por cuidado mesmo. Afinal, trata-se do primeiro disco de uma banda (a Cambriana) que eu venho acompanhando há vários meses, desde que o amigo Wanderson Meireles começou a me enviar samples de algumas faixas daquele seria o House of tolerance, o bom debut (3.5/5) do conjunto goiano. O Wanderson é o único aqui da terrinha, Brasília; Luis Calil, líder do grupo e principal compositor, e companhia são de Goiânia.

Mas a formação da Cambriana, coloquemos desta maneira, não tem nada de arcaica. O indie rock que eles apresentam — cantado em inglês e, sim, com bons versos — talvez tenha algo de ingênuo — não é difícil rastrear as influências –, mas exibe um frescor que eu, ouvinte precário que sou de rock alternativo brasileiro, não vejo com tanta frequência nas bandas que pintaram no cenário nacional nos últimos tempos.

Ao menos pode-se dizer, com certeza, que Los Hermanos e The Strokes, as óbvias inspirações de muita gente, não são as referências da Cambriana. House of tolerance — nada a ver com o horror porn do Bonello, acho eu — é uma estreia à In rainbows. Calma. Não é uma comparação. Digo isso apenas para elogiar as texturas sonoras de uma banda iniciante que, em vários momentos, lembra a leveza rítmica e melódica do grande LP-quer-pagar-quanto-? do Radiohead — e, por consequência, os desdobramentos do Ir no breve The king of limbs. Dá para notar também que há muito de Grizzly Bear (e talvez de Department of Eagles) e um pouco do ótimo Twin Shadow e seu Forget (produzido pelo Grizzly Chris Taylor, o CANT), que eu achei um dos melhores de 2010.

Vamos então ao álbum de facto.

A abertura, Vegas, lembra muito o George Lewis Jr. e suas levadas catatônicas, banhadas em chiaroscuro (“A wonderful morning light / Is inviting me / To come again”), do Forget. A seguinte, Astray, segue na mesma toada, quase uma continuação da inicial: percussão mais célere, e os vocais (Calil canta, Wanderson e Israel Santiago fazem o backing), sutilmente, começam a despontar.

Acho que as canções do miolo perdem um pouco de força — apesar dos versos misteriosos de Safe rock (“And everything you say will turn me on / There’s nothing like falling for a ghost in summer clothes”) e do climão meio Arcade Fire de Face to face. Mas o fôlego é retomado no inspirado quarteto de canções que encerra a audição.

O que vem a seguir é um par de hits em potencial, Big fish e The sad facts. Se a estrutura musical sinaliza um certo carinho pelo In rainbows, as letras (especialmente Sad facts) elevam esse apreço à categoria de devoção: exibem paixões viscerais e ranhuras de amores passados em metáforas pesadas, carregadas de imagens um tanto perturbadoras (“As I am on the first step / Of looking up the sad facts / You’ve been leaving bodies everywhere you go” ou ainda “Should’ve heard your sighs, the cracking of the earth”).

Swell, minha favorita e penúltima, é estranhamente antiquada: faixa menos indie do cancioneiro, soa como um revival dos grudentos e revigorantes primeiros acordes do britpop dos anos 1990, em especial aquele Oasis do Definitely maybe. Logo em seguida, já que falei tanto da presença abençoadora do In rainbows aqui, vem a Videotape do House of tolerance. Num ambicioso crescendo de post-rock, Calil, Wanderson e cia terminam Invicto da mesma maneira como a começaram: reproduzem a mesma linha de acordes que engendra toda a música, mas com timbres macios de um velho violão.

Promissor, muito promissor.

2011 em: discos

dezembro 30, 2011 11:39 am Deixe um comentário

Eu deveria fechar o bico e não reclamar de nadinha, nadinha mesmo de 2011. Comecei o ano empregado — e terminei o ano empregado, o que é raro no querido, porém sofrido segmento jornalístico. Minha vó esteve doente à beça no segundo semestre. Mas encerra a temporada com saúde. No meio do ano, saí de casa: doeu, mas nem tanto.

E aqui estou na casa da minha mãe alimentando uma gostosa preguiça diante da combinação recesso + férias de janeiro, depois de ter acordado às 7h30, lutando contra essa própria preguiça — e contra pensamentos ruins, que esse ano foi “superestimado”, que “não teve nada lá” etc. Então, para mudar completamente de assunto, mas entrando no assunto de fato, vamos aos discos.

Hors concours

The Beach Boys – The smile sessions (Capitol)

 

20 The Caretaker – An empty bliss beyond this world (History Always Favours the Winners)

19 Wild Beasts – Smother (Domino)

18 The Pains of Being Pure at Heart – Belong (Slumberland Records)

17 Girls – Father, son, holy ghost (True Panther Sounds)

16 Youth Lagoon – The year of hibernation (Fat Possum)

15 Cults – Cults (In the Name Of/Columbia)

14 Real Estate – Days (Domino)

13 Jay-Z & Kanye West – Watch the throne (Roc-A-Fella/Roc Nation/Def Jam)

12 Plato Divorak – Plato Divorak & Os Exciters (Independente)

11 St. Vincent – Strange mercy (4AD)

10 Laura Marling – A creature I don’t know (Virgin)

Num ano de tantas garotas sofridas, indies (Annie Clark, Meg Baird, Eleanor Friedberger e outras mais) e do mainstream (Adele, talvez Florence), Laurinha ecoa, na linha do St. Vincent, uma docilidade meio ferida, meio hostil: se Annie é herdeira da PJ Harvey de Rid of me, Laura segue a linhagem folk de Joni Mitchell (Blue) e Joan Baez (e suas versões de All my trials e Girl of  constant sorrow). Ela tem 21 anos — mas antecipa a amargura dos 30 (eu antecipei aos 22) em seu obstinado e maduro terceiro disco.

 

9 Drake – Take care (Universal Republic)

Aquele rapper inseguro do debute de estúdio (Thank me later), que se escondia atrás de bons samples, desapareceu por completo. Aqui, o canadense está confiante o bastante para falar sobre uma porção de assuntos particulares — amores perdidos, rusgas familiares, paixões virulentas, flagelos da fama –, e deixar a voz circular entre o argumento de um rapper hostil (um tipo Lil Wayne, seu amigo) e o lamento de um incurável soulman (Marvin, ou Stevie, um dos mentores criativos do Take care).

 

8 Julianna Barwick – The magic place (Asthmatic Kitty Records)

O folk eletrônico pastoral de Julianna está espraiado nas nove canções de música ambiente mais oníricas do ano. Vocais entrelaçados, sintetizadores atravessados de breves inserções de baixo e piano, e uma ambientação que, em seus loops espantosamente hipnóticos, ora lembra o quarteto Mountain Man do belo Made the harbor, um dos álbuns mais calminhos do ano passado, ora traz à tona uma espécie de cruzamento entre Sigur Rós e um coral gospel a cappella. Serviu para abrandar meus dias agitados.

 

7 The Antlers – Burst apart (Frenchkiss Records)

Na primeira audição, lembro que fiquei decepcionado: queria algo tão angustiante e mórbido quanto o Hospice. Eis que o trio do Brooklyn entrega um disco que tem lá a sua inquebrável melancolia (No widowsHounds), mas que exibe um pouco de leveza: o Hospice é o Ok computer deles; o Burst apart, o In rainbows. A sonoridade, de fato, lembra o Radiohead dos tempos recentes, mas, por outro lado, guarda um dream pop (raramente) autêntico, em que instrumentos, sintetizadores e vocais não brigam pela atenção do ouvinte.

 

6 Radiohead – The king of limbs (XL Recordings)

Momento “sim, trabalho com cota de Radiohead”. E, como todos os anteriores, este aqui me acompanha o tempo inteiro — foi ao som dele que escrevi uma amalucada e, sim, mui precipitada declaração de amor, lá em março. Veja bem: escrevi e enviei. Pois bem, ao que interessa: King of limbs não deveria ser tão breve (queria muito que The daily mail e Staircase, as melhores coisas da banda no ano, tivessem ficado prontas a tempo), nem deveria soar tão óbvio — uma continuação do In rainbows, com suas reminiscências do Hail to the thief. Ainda assim — e como é reducionista dizer isso –, adorei.

 

5 James Blake – James Blake (Universal Republic)

O inglês estreante de um dos melhores álbuns e do melhor EP (Enough thunder) de 2011 parece estar sempre solitário: “my brother and my sister don’t speak to me, but I don’t blame them”, ele canta em I never learnt to share. Mas só parece. Sua estreia brilhante — clima de dubstep minimalista com indie eletrônico, vocais de blue-eyed soul — tem covers de Feist (Limit to your love) e do próprio pai (The Wilhelm Scream) — sorry, Blake, mas Where to turn, a original do teu velho, é superior. E, bem, notei isso só para reforçar que, mesmo quando está acompanhado, JB é um cara sozinho: só consigo vê-lo entre quatro paredes, de olhos cerrados, com microfone e sintetizador.

 

4 The Weeknd – House of balloons (Independente)

Ele não é o primeiro da minha lista, mas foi o sujeito mais importante da música independente em 2011. A insone trilogia de mixtapes, completada por Thursday e Echoes of silence, apresenta um r&b de versos movidos a cocaína, garotas que vêm e vão, rodadas de drinques e noites intermináveis. Não dá para dizer com certeza se Abel Tesfaye, o cantor do Weeknd — produtores completam o time –, faz autobiografia ou uma ficção livremente inspirada na realidade. Tudo soa verdadeiro — e, ao mesmo tempo, perturbador demais para ser verdade.

 

3 Fleet Foxes – Helplessness blues (Sub Pop)

Os barbudinhos amadureceram. O adorável primeiro disco, lotado de hits, parecia uma homenagem de novatos às bases da música folk — CSNY, em especial, talvez The Band. No segundo trabalho, sai a ansiedade, e entra a sabedoria de músicos experientes: Helplessness é um disco paciente, que permite uma certa experimentação narrativa — com duas belas suítes — e um cuidado maior com as letras das canções. “After all is said and done I feel the same / All that I hoped would change within me stayed”, diz a breve Someone you’d admire. Difícil dizer se prefiro a ingenuidade do homônimo ou a velhice precoce deste. Melhor não eleger nenhum.

 

2 Destroyer – Kaputt (Merge)

Depois do King of limbs — é óbvio –, Kaputt foi o meu disco mais ouvido do ano. Os timbres oitentistas de Dan Bejar — texturas eletrônicas que parecem imersas numa nuvem de luzes neon, perfumes fortes e sufocantes colunas de fumaça, metais lindamente antiquados, backing vocals também antiquados — derramam uma melancolia que quase dá para pegar com as mãos. É impressionante o resultado sonoro de uma mistura tão improvável: voz folk, poesia quase sem sentido — afinal, “I”, no caso ele, “write poetry for myself” — e acordes tão luxuosos. Fino.

 

1 Bon Iver – Bon Iver, Bon Iver (Jagjaguwar)

Curioso. Só agorinha mesmo percebi que o primeiro da lista, o unânime Bon Iver ao quadrado, também é um disco perdido dos anos 1980 que por acaso foi lançado em 2011. Aquele Justin Vernon meio selvagemente tristonho do For Emma, forever ago continua presente, mas o que se nota (se escuta) aqui é uma enorme abertura sonora — estranho o folk dele ser tão sombrio, e o art-pop ser tão terno — e uma narrativa sentimental mais enigmática — às vezes, me parece irônica, o que só torna a audição ainda mais interessante. Estou meio cansado dessa lista e, para falar a verdade, passo a palavra pra ele. “Hair, old, long along /Your neck onto your shoulder blades / Always keep that message taped / Cross your breasts you won’t erase / I was only for your very space” (Calgary).

Burst apart

maio 10, 2011 12:48 am Deixe um comentário

Quando fiquei sabendo do novo do The Antlers, imediatamente torci o nariz. Pra mim, o Hospice, terceiro álbum deles, mas o primeiro grande de fato, é insuperável: uma contemplação triste, pesarosa ao extremo — quase mórbida, é verdade –, mas que esconde uma delicadeza um tanto otimista em cada canção, como um pequeno alívio no meio de tanto sofrimento. Emocionalmente, tão exigente quanto qualquer coisa do Radiohead a partir do Ok computer — e, aliás, as duas bandas têm várias semelhanças em sonoridade e temática.

Neste Burst apart (4/5)– um disco que, na primeira audição, parece pobre se comparado ao Hospice –, Peter Silberman, frontman, parece ter aberto as janelas e resolvido tomar um pouco de ar: dá para notar que, apesar de ainda bastante coerente com o registro anterior, o trabalho dos Antlers ousa explorar outra atmosfera, uma menos exigente e talvez mais confortante. Mais otimista mesmo.

A coleção de canções é um encontro entre Kid a e In rainbows — com pequenas derivações da quimera chamada Amnesiac –, do Radiohead, mas com um vozerio bem diferente do de Thom Yorke. Nos melhores momentos, No widows (Nude + Give up the ghost, eu diria), Every night my teeth are falling out  e Parentheses, a influência do quinteto de Oxford é gritante. Em outros, percebe-se intimidade com coisas típicas do indie pop atual — etéreas e dançantes –, como em French exit (sobra de Forget, do Twin Shadow?).

Hospice ainda é obrigatório por aqui. Mas Burst apart é boa opção para dias menos acabrunhados.

Não

março 23, 2011 11:42 pm Deixe um comentário

You’re a rare find / A troubled cure / For a troubled mind

Time has told me, de Nick Drake

Estava prestes a escrever um post choroso, doloroso aqui. Desanimei. Aí vai um resumo:

Na sexta passada, acordei às 6h. Era minha folga. Abri o e-mail. Redigi uma declaração de amor — estabanada, sincera, direta. Enviei às 10h39; as mãos frias, trepidantes; os ouvidos, imersos na terceira audição consecutiva do The king of limbs. Dia da colação de grau — um evento obviamente preparado para o deleite da família, e só. Sexta à noite: a conversa via bate-papo, a negativa imprevisivelmente carinhosa, a resposta delicada mas dilacerante. Pareceu edificante. Sábado e domingo: choro. Segunda, vergonha. Terça, felicidade irrestrita — algo afetada. Quarta, comecei emburrado, ri à tarde e pranteei à noite.

Quinta, sexta. Ainda não sei muito bem o que sentir. Como sentir. O não.

The king of limbs

fevereiro 27, 2011 6:13 pm 1 comentário

Acho engraçado quando dizem que o In rainbows é o disco mais humano do Radiohead. Pra mim, todos — mesmo o aparentemente inescrutável Amnesiac — são, sim, humanos, demasiado humanos. Este The king of limbs, como todo mundo já disse ou escreveu (ou tuitou) por aí, não é uma obra-prima, não traz nada de novo em comparação àquilo que a banda já fez.

Mas ainda é Radiohead: apreensivo, urgente e recompensador. E, por ser Radiohead, recusa-se ser rasteiro, a ser escutado apenas uma vez — a não ser que você tenha birra com Thom Yorke. Desde o lançamento antecipado, 24 horas antes do previsto, devo ter ouvido mais de 25 vezes. Como todos os outros sete — Pablo honey incluído –, é exigente e persistente. E talvez familiar demais — consigo conectar as oito faixas a pelo menos outras oito de trabalhos anteriores.

Codex, por exemplo, a minha preferida: “Slide your hand, jump off the end /The water’s clear and innocent”. Ou ainda: “Just dragonflies, flying to our side / No one gets hurt, you’ve done nothing wrong”‘. Versos que parecem extraídos de Pyramid song (“I jumped in the river and what did I see? / Black-eyed angels swimming with me”). Lotus flower é a Idioteque do TKOL: uma balada nauseante, com texturas carregadas e lamentos intermináveis.

Cada álbum estabelece rupturas com o anterior: The bends enterra a ingenuidade roqueira do Pablo honey; Ok computer esquece a melancolia apaixonada de Fake plastic trees e High and dry com injeções pesadas de pessimismo e texturas perturbadoras. Kid a envolve Ok computer numa teia eletrônica menos ruidosa e mais contemplativa, com tratados sobre a solidão (How to disappear completely e Motion picture soundtrack). Amnesiac confronta Ok computer e Kid a numa jornada instrumental quase insuportável — devo ter ouvido na íntegra não mais do que quatro vezes. Hail to the thief é mais palatável que o predecessor: anuncia a leveza do In rainbows, mas demarca seu próprio território em canções que ora emulam o Kid a, ora reinterpretam o The bends.

The king of limbs não tem enigma nenhum, não pede para ser investigado, não esconde segredos, não deseja a obscuridade. Parece uma compilação — breve, infelizmente — de tudo o que o Radiohead já fez. É pouco — e é muito.