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O Hobbit: uma jornada inesperada

dezembro 14, 2012 12:04 pm 2 comentários

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Publiquei, no Correio Braziliense de hoje, uma crítica decepcionada — e, talvez, decepcionante — dum filme que muito me desapontou.

(As redundâncias são em homenagem ao filme, ok?)

(Ah, e vi o negócio em 2D, sem frames duplicados)

Vai:

Houve um tempo em que Peter Jackson fazia filmes artesanais com seus amigos da Nova Zelândia. Eram experimentos despretensiosos, amalucados e nojentos de invasão alienígena (Náusea total, 1987), de paródia adulta dos Muppets (Meet the feebles, 1989) e de mortos-vivos sendo dilacerados por um cortador de grama (Fome animal, 1992). Hoje, ele é um cineasta de gigantismos. Responde pela adaptação da trilogia O Senhor dos anéis, pela refilmagem de King Kong (2005) e, agora, pela retomada do universo do escritor J. R. R. Tolkien em O Hobbit: uma jornada inesperada.

O desembarque de uma nova trilogia fantástica, baseada na obra de um virtuose da imaginação literária, gera ansiedade desmesurada nos fãs — e um mínimo de curiosidade em quem não sabe do que se trata. A guerra por um anel superpoderoso, disputado por hostes diabólicas que ameaçavam destruir hobbits, elfos, anões, humanos e magos, foi filmada e consagrada na trilogia que legitimou o nome de Peter Jackson em Hollywood, colocando-o ao lado de outros magnatas da indústria, como Steven Spielberg e James Cameron. Mas tudo começa aqui, em Uma jornada inesperada, quando Bilbo (Martin Freeman), um hobbit delicado, manso e apegado a livros e louças deixadas por seus antepassados, embarca numa viagem nada pacata.

Já na comparação entre livros, O Hobbit é mais infantil e engraçado que O Senhor dos anéis. E quem responde pela comicidade do original — e, por extensão, do filme — é um grupo de anões. Com a ajuda do mago Gandalf (Ian McKellen) e liderança do pequeno valente Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage), eles pretendem viajar em direção ao refúgio do dragão Smaug, que dorme sob toneladas de tesouros, roubados dos anões há anos. E não apenas isso: o monstro também se fixou no antigo reino dos guerreiros, Erebor. Mas, para vencer as fortificações do mal, chefiadas por orcs e uma porção de outras criaturas horrendas, Gandalf convoca a ajuda de alguém ágil, sorrateiro, enfim, um sujeito com pinta de ladrão, de preferência menos barrigudo e mais leve do que os vingadores. É onde Bilbo entra.

E é onde Peter Jackson erra. Nas poucas ressalvas feitas a O Senhor dos anéis, o diretor era acusado por críticos (e não iniciados) de desfiar uma história arrastada — e de longa duração, engordada nas versões estendidas. O início da nova trilogia não é nada objetivo: em suas duas horas e 49 minutos, abocanha um terço de um livro de cerca de 300 páginas, o que piora as tais delongas.

Jackson inicia os trabalhos num tom semelhante ao de A sociedade do anel (2001), observando com carinho e deslumbre a vila dos hobbits, o chamamento de Gandalf e a fome insaciável dos anões por comida e aventura. Mas cai em distrações de filmes assemelhados a jogos de RPG, divididos em fases, histórias contadas à luz de fogueiras e batalhas épicas. E, numa artimanha de franquias caras, é prolixo (lembrando As duas torres, 2002) ao tentar ligar o prelúdio tardio aos sucessos anteriores.

Uma jornada inesperada começa a interessar tarde demais, do meio para o fim, a partir do aguardado primeiro encontro de Bilbo, tio de Frodo (Elijah Wood), com Gollum (Andy Serkis), o bipolar e desdentado guardião do anel. Os percalços narrativos mais trazem à tona o esquizofrênico Um olhar do paraíso (2009), um filme de tom confuso e sofrível, do que a tríade que inspirou uma febre midiática planetária. Dela, ficam vislumbres, incrementados por um design digital atualizado em uma década. A jornada era mui esperada — e principiou morna. (Não vale culpar a tímida presença de Smaug.)

O Hobbit: uma jornada inesperada (The Hobbit: an unexpected journey, EUA/Nova Zelândia, 2012, 169 min). De Peter Jackson. Com Martin Freeman, Ian McKellen e Richard Armitage. 2.5/5.

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Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2

julho 15, 2011 1:59 am Deixe um comentário

Quando estava filmando o assombroso Sangue negro, Paul Thomas Anderson disse que via O tesouro de Sierra Madre todas as noites — é o que o IMDb informa na página do filme. Bem, e é fácil perceber como o primeiro tem muito do segundo: relacionamentos unilaterais, sujeitos entregues à ganância e um egoísmo à vera, um espírito competitivo que dá náuseas. Ainda assim, dá para reparar bem: PTA não refez John Huston, ele criou seu próprio exercício de, vá lá, análise do espírito rancoroso e amoral de homens (desumanos) que se veem às portas da bonança financeira.

Acho que David Yates assistiu a — e assistiu animadinho, voltando aos trechos que poderia tentar repetir — O senhor dos anéis: O retorno do rei antes e depois de cada dia de filmagem de Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2 (3.5/5). Que bom, então, fiquei pensando logo que deixei a pré-estreia há umas duas horas: que bom que a referência de Yates é Peter Jackson. O último episódio de HP é o mais curto — isso é ótimo –, o mais dark, mas não o melhor. Azkaban continua sendo um título destacado: Cuarón não dirigiu o terceiro movimento de uma franquia adaptada de livros de fantasia, mas um filme de terror teen que pode ser assistido sozinho, sem a sombra de predecessores e sucessores.

Relíquias 2 conclui a série com um clímax à Peter Jackson: gigantes mandando meia-dúzia de soldados para o abismo a cada marretada, os bruxinhos em trocas faiscantes de feitiços e os coadjuvantes, mais uma vez, salvando a pele de Harry. Yates fez um filme de 120 e poucos minutos e não teve tempo de se alongar. Aliás, demorou a levar a coisa toda para a batalha final em Hogwarts, que, afinal, era o que interessava a trouxas e não-trouxas — os primeiros 45 minutos lembram muito os interlúdios chatíssimos de alguns jogos “cinematográficos” de ação/aventura/fps, em que você é obrigado a ver os filminhos todos, sob pena de não entender nada depois que a fase seguinte começa.

Entendi a opção de dividir o último livro em dois filmes, para que ele não tivesse que rodar um desfecho de três horas e meia com um casalzinho que não se resolve (Hermione e Ron), um Harry Potter que ainda não sabe muito bem se é bom ou mau, e um Voldemort já estilhaçado pela destruição de algumas horcruxes, já meio caquético mesmo.

A série me parece um pouco quadrada demais — Yates é correto, mas não tem estilo –, fiel demais aos livros — e eu não li nenhum — e, mesmo assim, muito regular — seria mais regular ainda se não tivessem colocado Chris Columbus para dirigir a Câmara secreta.

Foram quase dez anos divertidos, Harry, bem divertidos.