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Falei com Ferrara

abril 26, 2012 11:35 am Deixe um comentário

Tive medo do Abel Ferrara. Cheguei ao debate no CCBB às 20h30. O papo com os cinéfilos tinha começado às 19h. Ouvi de um produtor da mostra, um carioca, algo do tipo “ele pode tanto querer falar com você quanto não querer coisa nenhuma”.

Foi um domingo estranho, esse que se passou — e, sim, sei que hoje é quinta-feira e domingo terminou faz tempo. Saí da Bienal do Livro atropelando meus próprios pés — depois de uma palestra realmente emocionante da Laura Albert (o JT LeRoy) — e andei dezenas de metros — da Esplanada até a Rodoviária — para tomar um táxi. O debate acabou. Ferrara foi prontamente abordado por dois ou três fãs. Caetano era a estrela da noite. Ia ter show do homem dali a algumas horas, ali mesmo na Esplanada. E eu só queria falar com o Ferrara por 10 minutos.

Ele, meio de saco cheio com o ar-condicionado — o pequeno público saiu, o frio artificial tomou a sala de assalto –, abraçou um dos sujeitos e foi caminhando para fora. Ferrara autografou alguns DVDs, posou para algumas fotos com um sorriso meio amarelo de cansaço (e fome e sede). E eu pensei que poderia ter levado meu DVD de O rei de Nova York para ganhar uma assinatura do homem, eu que conheci o cinema de Ferrara do jeito mais acadêmico possível, enquanto escrevia meu trabalho de fim de curso, lia Cinema of outsiders, do Emanuel Levy, e caçava torrents públicos e privados.

Ferrara, tomando água e café quase ao mesmo tempo, de pé, me disse “ok, venha jantar com a gente”. Perguntou se eu ia anotar ou gravar. Disse que ia gravar. A síntese do jornalismo é cruel. Aqui, 35% ou 40% da conversa, no Correio Braziliense de dois dias atrás.

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Um filme para Nick

novembro 10, 2011 11:18 pm Deixe um comentário

(Nunca sei se é Um filme para Nick ou O filme de Nick. Mas vamos ao que interessa, o filme, de ou para Nick)

Wim Wenders interrompe as filmagens de seu próximo título, Hammett (1982), e, com aquele jeito generoso, viaja à Nova York para ver Nicholas Ray. Um Nicholas Ray que urra as ondulações de uma sirene policial ou de um carro dos bombeiros, enquanto está deitado na cama: um exercício de desabafo, imagino, contra a preguiça de ter que levantar dali em seguida. Ele está cansado, tosse a ponto de arrebentar os pulmões — mas fuma um cigarro atrás do outro. O olhar fixo num ponto qualquer inspira um certo desconforto em Wenders: Ray vai morrer em breve. Mas Ray não tem medo nenhum. Ele esnoba a morte. Adora a mentira. Adora a envergadura emocional de uma verdade dita após um catálogo de mentiras.

É impossível separar o espontâneo do ensaiado em Um filme para Nick (1980; 4/5). É um documentário sobre os últimos momentos de Ray. E é também uma ficção inscrita nesse mesmo documentário: as imagens não as de um registro real; os planos são bem posicionados, alguém tem que dizer “start” e esse mesmo alguém tem que dizer “cut”. São tratadas, dirigidas por Wenders. A estadia de Wenders no apartamento de Ray é ao mesmo tempo roteirizada e vivida. Aqui, o absurdo da experiência de viver e morrer é capturada em película e é também inventada de novo nesta mesmo película — e, Nick sempre soube, Wim naquela época talvez não, o cinema dá conta das duas instâncias, a que se diz real e a que se diz mentira.

Enquanto Ray, que mal consegue levar um cigarro à boca, sofre com a montagem do seu filme comunitário-experimental We can’t go home again (1973), Wenders, imerso em reflexões espirituais, quer discutir a morte. O alemão não cultua o norte-americano. Ele o confronta, às vezes com reservas; acredita estar prejudicando ainda mais a saúde do velho homem com a sua presença ali.

Ray não liga. Ray termina a vida com a solenidade dos créditos finais de um filme que copia a vida. The end. Luzes acesas. Morrer, como o fim de um filme (bom ou ruim), é apenas mais um desses rituais necessários, absurdos, sim, e inadiáveis.

Quem foi Jesse James?/Sangue sobre a neve

novembro 9, 2011 11:44 am Deixe um comentário

Minha cabeça explode de dor pelas noites mal dormidas desde o Planeta Terra Festival. A mudança brusca de clima — de um calor imenso para um frio imenso — também não ajuda nem um pouco. Mesmo assim, vamos lá: mais dois títulos de Nick Ray vistos (em DVD, já que a Infraero atrapalha a viagem das películas) na retrospectiva dedicada a ele, que termina domingo.

Incrível como Quem foi Jesse James? (1957; 3.5/5) é um western pouco comentado. E ele tem todos os elementos das melhores coisas do gênero: um ódio incontido — Jesse não hesita em atirar nas costas de um dos seus rivais –, um punhado de perseguições a cavalo, tiroteios do começo ao fim e um decente background histórico, pós-Guerra Civil. Se os irmãos Frank e Jesse James tivessem sido interpretados por, digamos, um James Dean ainda vivo e um Laurence Olivier de sotaque britânico suavizado, o filme de Ray certamente seria lembrado. Just saying.

Esse Sangue sobre a neve (1960; 3/5) — o título em português anuncia um noir-glacial — é uma aventura cômica ambientada nos amedrontados anos da Guerra Fria. Mas claro, os esquimós nada têm a ver com a briga entre comunistas e capitalistas: eles (Anthony Quinn é um deles) continuam caçando focas e ursos polares e procurando mulheres, que são raras na região. Visto hoje, não me parece tão contundente — o confronto com os homens civilizados, que querem ensinar modos cristãos e decentes aos selvagens, demora a aparecer. Ray, mesmo filmando quase tudo em estúdio, não esconde primitivismos desagradáveis (o que explica a presença em Cannes, competindo pela Palma de Ouro) — animais sendo despedaçados, a mulher (na visão dos brutos, inútil e necessária) tratada como mero objeto de prazer.

Horizonte de glórias/No silêncio da noite

novembro 3, 2011 12:44 am Deixe um comentário

Encerrei o meu dia de (plantão) de finados com a retrospectiva O cinema é Nicholas Ray, lá no CCBB. Eis o que vi por lá — o momento é de fome, muita fome, sono, muito sono, a poucas horas de uma quinta-feira que vai condensar dois dias de trabalho:

Na sessão, um sujeito começou o filme, Horizonte de glórias (1951; 2.5/5), todo falante — à minha esquerda, para o meu desespero; depois de um quarto de projeção, num 16mm trepidante, (ele) estava caindo pelas tabelas de tanto sono. Atrás, também à minha esquerda, uma senhora papeava com a colega o tempo inteiro — ah, meu ouvido esquerdo… Terminou o filme ainda tagarelando, acho que de frustração. Realmente, esse aqui, um título de guerra pouco inspirado e interessante, nem parece um produto de Ray.

É, na verdade, um filme de John Wayne: com aquele ar de arrogância e grandeza, ainda mais na carne de um personagem igualmente mandão, o major Daniel Kirby, ele toma o filme para si. Temos que ver inúmeras batalhas aéreas, alguns pilotos sendo alvejados gravemente e diálogos técnicos (decoradinhos) para chegar ao que realmente interessa: um relato sobre as agruras de quem precisa comandar um corpo de fuzileiros nervosos, famintos, que enfrentam o medo da morte e a imensa vontade de voltar para casa todo dia.

Incrível como, em poucos minutos de tela de No silêncio da noite (1950; 4.5/5) — apresentado em DVD, já que a película ficou presa na alfândega –, Dixon Steele (Humphrey Bogart), um roteirista abrasivo, com feições de quem está louco para esganar pescocinhos alheios, já simulava, numa telinha da minha cabeça, meus personagens solitários favoritos do cinema: Travis Bickle, Harry Caul — o motorista-dublê de Drive, finalmente. Dix não emplaca um script decente — de sucesso — desde a Segunda Guerra. Quando surge uma oportunidade, de adaptar o que seria “um épico”, ele se faz de esnobe; pede que uma balconista vá até sua casa e leia o material de origem — ou resuma em descrições simples –, um livro ruim, para ele.

Após terminar a interpretação, a jovem é estrangulada e largada na estrada. Ele é o suspeito número um, e age como culpado; ceifou muita gente em seus textos, e fala disso com certo orgulho, os olhos esbugalhados, as mãos travadas no ar. Como seu agente diz à vizinha, Laurel Gray (Gloria Grahame, musa), que se apaixona por ele na sequência do crime, ele é como dinamite: de vez em quando, explode sem aviso. Laurel, mesmo amedrontada e desconfiada, parece saber com quem está se metendo: um sujeito de pensamentos inescrutáveis, que se esconde atrás de frases cínicas e tiradas divertidas. O mais amargurado dos homens.