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Mostra São Paulo – Dia 4/5

outubro 29, 2013 10:15 am Deixe um comentário

Tive uma segunda-feira de filmes sofridos, úmidos e esfomeados. Em comum, famílias estilhaçadas por crises econômicas de seus países. Cães errantes (Taiwan), o drama de planos de 8-a-12-min de Tsai Ming-liang, o fraco Caméra d’Or desse ano em Cannes, Ilo Ilo (Cingapura), e o raivoso documentário Tempos de Lobo (Grécia).

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Cães errantes (Jiao you, França/Taiwan, 2013). De Tsai Ming-liang. 3/5.

Chove quase todo dia e as únicas pessoas que vemos nas ruas e calçadas de Taipei são estátuas humanas segurando anúncios de venda de imóveis caros. Um deles é um pai que cuida de dois filhos, não tem onde morar e abriga sua família como pode — em prédios abandonados, mofados, mas minimamente seguros. De dia, enquanto o pai levanta a placa por horas a frio, sob chuva e frio, seus dois filhos, um garoto e uma garota, andam por supermercados em busca de amostras de comida.

Ming-liang observa cada ato cotidiano dessa família, do semáforo fechado em mais um dia de trabalho a uma desesperada (e rara) refeição, em sua inteireza. Do começo ao fim, em planos estáticos e enervantes — o pai de família despedaçando uma coxa de frango, esse mesmo pai tentando mover um barco pesado à beira de um rio, cantando (e chorando) na chuva e seduzindo, mordendo e pranteando sobre o repolho que sua filha tem como principal brinquedo.

Argumentada a imobilidade social — a família não está determinada a buscar redenção ou superação; apenas vive como pode –, Ming-liang então transforma, na segunda metade de filme, esses escombros num drama doméstico, provocado pela chegada de uma mulher que traz consigo lembranças dolorosas. As ruas, pântanos e vielas dão lugar a interiores de paredes escuras e descascadas e as tais cenas longas de contenção/explosão dramática tornam-se agora intermináveis enquadramentos silenciosos. Existem dois filmes distintos sobre a precariedade da vida contemporânea nos 138 minutos de Cães errantes — um cru e outro barroco. Fico com o primeiro.

 

Ilo Ilo (Cingapura, 2013). De Anthony Chen. 2.5/5.

Mais uma prova de que o Caméra d’Or, o prêmio de Cannes para filmes de estreia, adquiriu, nos últimos anos, a relevância de um Oscar (mal dado). Isto é: pouca ou nenhuma. Ambientado no final dos anos 1990, época de recessão econômica em Cingapura, Ilo Ilo justifica, aliás, a sua pré-indicação à estatueta de produção estrangeira em cada cena doce e tragicômica sobre as crises de uma família de classe média (pai atrapalhado, mãe grávida e trabalhadora, filho hiperativo) em contato com uma doméstica (a ótima Angela Bayani, que também atua em Norte, o Fim da História) vinda da província filipina que empresta título ao filme.

Com uma câmera que delimita as posições de cada personagem em cena — membros da família separados, a estrangeira como elo –, Chen conduz um dramedy paternalista, pouco interessado nas questões de xenofobia e exclusão sugeridas no início, mas, claro, muitíssimo preocupado em banhar a relação de pequeno patrão (o tal garoto-problema) e empregada de sentimentalismo.

 

Tempos de lobo (Sto lyko, Grécia/França/Inglaterra, 2013). De Aran Hughes e Christina Koutsospyrou. 2/5.

Imagens de pouca definição registram vidas deformadas pela crise econômica num vilarejo grego habitado por donas de casa e pastores do campo. São homens reclamões e beberrões e mulheres resistentes. Todos se protegem do frio com cigarros e lamentos constantes sobre os políticos corruptos e os banqueiros devoradores de dinheiro. Entendo o ressentimento, mas há um fatalismo mórbido e cômico que — pelo menos para mim — soou como autodepreciação ensaiada — por vezes digna de um mockumentary — e propositalmente corrosiva.

Mostra São Paulo – Dia 3/5

outubro 28, 2013 10:46 am 2 comentários

Abaixo, em sentenças curtas e grossas, falo do que vi no domingo antes de ficar chateado à beça com o cancelamento de Um toque de pecado — e de ensaiar (mentalmente) um PROTESTO SEM VIOLÊNCIA na cabine de projeção da sala 1 do Reserva Cultural. Bora lá:

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Cortinas fechadas (Pardé, Irã, 2013). De Jafar Panahi e Kambuzia Partovi. 3.5/5.

This is not a film 2: closed curtain. O motivo: Panahi apresenta, aqui, mais um relato angustiante sobre a impossibilidade de fazer cinema. Quando o próprio diretor invade sem cerimônia o filme que está passando há uns bons 40, 50 minutos — trama: casa de um escritor confinado com seu cão é invadida por dois fugitivos, uma suicida e seu irmão — , e começa a fechar cortinas e passar em revista a mobília, simplesmente ignorando os personagens que ali estão — escritor e intrusa –, parece se estabelecer entre cineasta e obra uma espécie de rompimento forçado — afinal, existe algo mais incômodo para um diretor do que ser forçado a interromper, abortar — matar — seu próprio filme?

Panahi está proibido de filmar. Portanto, em casa, a câmera o acompanha num dia comum, de vida ordinária e doméstica, enquanto, nos outros cômodos, os personagens do filme cancelado agem como almas condenadas ao esquecimento, vagando invisíveis pela casa. Ao cineasta preso, restam vestígios: ele encontra um iPhone no modo REC apontado para o mar, destino final da invasora, que, antes de deixar o celular na varanda, pediu a Panahi (via câmera, obviamente) que a seguisse, como um ato final de liberdade — ele até consente, caminha até o mar, mas, arrependido, interfere na cena dando um rewind — mais uma interrupção.

Em outro momento igualmente triste, com o mesmo iPhone na mão, o diretor vê o vídeo que seu personagem-escritor fez durante uma cena do filme, na qual tenta descrever a invasão. No registro, aparece a equipe de filmagem — operador de câmera, iluminador e ele, Panahi, conduzindo o microfone. O único filme possível no isolamento, no maior dos impasses criativos — o de não poder trabalhar –, é este: feito com aparato, autor e seus fantasmas.

The deep (Djúpið, Islândia, 2012). De Baltasar Kormákur. 3/5.

Survival movie baseado em fatos (de 1984) mui competente, cuja principal cena (à la Gravidade) evidencia a desigual luta entre natureza invencível e humanidade frágil num país de gelo e fogo como a Islândia. O único sobrevivente de um barco pesqueiro nada nas águas congelantes do Atlântico Norte enquanto a câmera se afasta do sujeito, escancarando na tela um mar infinito, desbotado e revolto. O filme perde muito de sua força — física mesmo, pois esse Ólafur Darri Ólafsson tem atuação digna dum URSO — na meia hora final, quando Kormákur dedica um tempo excessivo ao pós-milagre, aos sentimentos de culpa desse homem — “o que há de heroísmo nisso de salvar a própria pele?”, ele parece se questionar — e até aos seus dias de cobaia de pesquisa em Londres.

Sobreviver — dádiva e maldição.

(Da série “culpo o astigmatismo ou a cópia digital?”: quero acreditar que houve algum problema na calibragem de cor nessa sessão (no Reserva Cultural), pois os brancos me pareceram especialmente brilhosos e estourados.)

3x3D (França/Portugal, 2013). De Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard. 2/5.

Em termos simples, pedras para os dois primeiros e uma tentativa de entender o último:

Just in time, de Greenaway: Arca Russa meets Wikipédia — em 3D. Só faltou Comic Sans nas escolhas tipográficas.

Cinesapiens, de Edgar Pêra: tratado filosófico-sentimental sobre cinefilia com a profundidade de um episódio (ruim) de O Mundo de Beakman.

The three disasters, de Jean-Luc Godard: compilação de fotos de cineastas, filmes bons e ruins, de arte e blockbusters, e cenas de bastidores acompanhada de uma narração que coloca em pauta questionamentos graves sobre a crise (ou mesmo o fracasso) do cinema, como o empobrecimento das metáforas em prol de histórias e o poder alienante da palavra — aquela que sempre aparece para apontar o que não existe, o que não está lá.

Dark blood (EUA/Inglaterra/Holanda, 2012). De George Sluizer. 2/5.

Concluído vinte anos depois da morte de River Phoenix, Dark blood só pode ser encarado como um filme incompleto — e, por isso, bastante problemático. O próprio diretor avisa, no prólogo, que o produto final é muito mais uma tentativa de preencher lacunas do que propriamente uma obra finalizada. Leituras de roteiro e cenas improvisadas, sem o resto do elenco, tentam dar cobertura aos trechos inexistentes.

Enxertos à parte, acho que não seria um bom filme mesmo se tivesse sido lançado na época em que foi rodado. River Phoenix faz um solitário excêntrico e místico, que acredita no fim do mundo — o deserto em que vive foi cenário de testes –, enlouquece de tesão por uma atriz de Hollywood e ameaça seu marido, também ator, frustrado por não poder seguir viagem após o motor de seu carro falhar.

Com todo respeito a River, mas o filme todo — aliás, todo não, partes dele — me pareceu assim uma pornochanchada apocalíptica falada em inglês. Ou um western sexploitation. Para usar uma expressão tão vazia quanto essas definições, digo que “a rigor seria isso”.

Mostra São Paulo – Dia 2/5

outubro 27, 2013 11:37 am Deixe um comentário

Pois bem, ontem tirei folga da Mostra por algumas horas e fui ao Pacaembu ver meu time somente empatar com o São Caetano — mas garantir, com um futebol GALANTE, o retorno à tal elite do futebol brasileiro. Fechei o dia, portanto, com duas sessões: o bom O homem das multidões, filme-retrato-em-3×4 de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, e o insosso Vida que se desfaz, para o qual pouparei caracteres. Ao que interessa:

o homem das multidões

O homem das multidões (Brasil, 2013). De Cao Guimarães e Marcelo Gomes. 3/5.

Pretendido para ser solitário até no aspecto de tela — em 3×4, como num retrato careta, cara-de-crachá, de uma pessoa cuja biografia é: funcionário –, este drama urbano de Cao e Marcelo consegue visualizar a solidão sem penalizar o personagem ou torná-lo deprimido a ponto de o público suplicar por um happy ending. Numa narrativa tão apegada a rotinas e repetições — exercício matinal, expediente, noite na companhia de rádio, limpeza da casa, monólogos sem sentido — e ao automatismo da vida num grande centro urbano, o anonimato soa mais cômico do que melancólico.

Para dois personagens tão encerrados em seus mundos — Juvenal, homem de meia idade que conduz trens e, em casa, usa uma camisa na qual se lê Carnaval dos Metroviários; Margô, chefe de estação viciada em experiências (lunares, sexuais e emocionais) mediadas pela internet –, a solidão é um estado de coisas permanente. A única possibilidade de trânsito é, aliás: o encontro entre os dois a cada horário de almoço, a cada resposta monossilábica de Juvenal às perguntas ou afirmações de Margô, a cada visita estranha de Margô ao apartamento singularmente mobiliado e decorado de Juvenal, seu futuro padrinho de casamento com um sujeito que ela conheceu via bate-papo.

O isolamento aqui, é filmado com uma classe à la Kiarostami — dezenas de planos refletidos em portas transparentes, janelas, vitrines e até na superfície metálica que reveste os vagões do metrô. No quadro, cabe apenas uma pessoa (ou um cômodo, um rosto, um perfil, um corpo), e até a montagem explicita o que é estar só o tempo inteiro quando Juvenal, fazendo o que tem de fazer, isto é, apertando a cada dez segundos o homem-morto, dispositivo de segurança anti-sono dos condutores, é visto de costas num plano e, segundos após o trem atravessar a escuridão de um túnel, emoldurado de frente, no plano-contraplano mais solitário do filme.

Não há jeito de dizer se se escolhe ou não se escolhe ser assim — solitário. Se é ou não é — simplesmente.

Mostra São Paulo – Dia 1/5

outubro 26, 2013 1:33 pm 1 comentário

Acho que escolhi o momento certo — e o filme certo — para conhecer o cinema de Lav Diaz. Isso mesmo, pelo curta (!) de 250 minutos Norte, o Fim da História. Filmão — em todos os sentidos. Mas a terceira Mostra São Paulo da minha vida começou mesmo num clima à la Festival de Brasília — calma, explico no pé desse post –, com o chileno O verão dos peixes voadores. À noite, entrei num programa de curtas que valeu pelo último de Miguel Gomes, Redemption, e vi adolescentes sofrerem à beça em La jaula de oro. Bora lá — que, hoje, Palmeiras vai jogar, eu vou:

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Norte, o Fim da História (Norte, hangganan ng kasaysayan, Filipinas, 2013). De Lav Diaz. 4/5.

Ruminar o tempo é para poucos. E Lav Diaz sabe o que faz quando destina 250 minutos de duração a uma história que, de fato, precisava de 250 minutos para ser contada. Por isso, acho bem possível definir Norte como um filme enxuto. Quando vai preso o pobre homem falsamente acusado de assassinar a mulher a quem todos devem algum dinheiro e sua filha, Diaz deixa a câmera repousar à frente da esposa, seus dois filhos e uma ajudante. Dezenas de segundos depois, lágrimas banham o rosto da mulher. Quando não vai preso o homem intelectual (e verdadeiro assassino da ricaça) que largou a faculdade de direito e hoje acredita em soluções radicais para solucionar a pobreza e a violência — matar todos os criminosos daria jeito, segundo ele –, a câmera não o deixa dormir. Ele acorda sobressaltado de madrugada — um retângulo de luz projetado pela janela ilumina seus olhos perturbados.

Não se trata apenas de observar vidas em desajuste (e, por consequência, um país em desajuste) por meio de planos longos — uma atribulada porque livre e atormentada pela culpa, a outra massacrada pela injustiça e ainda assim benévola aos seus pares no cárcere. O Crime e Castigo de Lav Diaz, tal como o sufocante romance russo, é um filme para ser também um pouco vivido. As crises deflagradas por Diaz dão conta tanto de uma elite pensante de moralidade discutível — que comete atos impulsivos de violência e sai impune — quanto de um proletariado achatado pela imobilidade social. Em 250 minutos, constata-se: o presente, violento e incontrolável, é a antítese silenciosa da história.

 

Programa Loznitsa (Carta, Pismo, Rússia, 2013), Miguel Gomes (Redemption, Itália/Alemanha/França/Portugal, 2013) e Jeanne Dosse (Do outro lado da cozinha, Brasil, 2013).

Da trinca de curtas, falo apenas do que gostei. Redemption (3.5/5) evidencia, mais uma vez, a esperteza do português Miguel Gomes ao tratar a narração em off como um recurso irônico e afetuoso de memória cinematográfica. Ele coleta e compila imagens em Super 8, 16mm e em preto e branco para representar quatro histórias. Cada uma delas é narrada em uma língua — português, italiano, francês e alemão. Por fim, ele arremata os contos com cartelas explicativas, dando outros significados aos monólogos — é quando surgem os nomes de Berlusconi, Sarkozy, Merkel, e, acho eu, de um político português tão afamado quanto esses três. Interpretações à parte, o curta de Gomes serve como um exercício inquietante de colagem visual — afinal, o que é dito deve parecer tão importante quanto o que é mostrado? –, ressignificado a cada instante pelo poder (invisível) da fala.

 

La jaula de oro (México, 2013). De Diego Quemada-Díez. 3/5.

Quatro adolescentes enfrentam perigos, trocam ofensas aqui e ali e sofrem um bocado numa demorada viagem rumo aos EUA. Nem road movie existencial. Nem Conta comigo.

Um dos garotos é, na verdade, uma garota que, lá no começo, diante de um espelho, cortou o cabelo e cobriu os seios para viajar com mais segurança. Noutro extremo minoritário, está um índio mexicano que não sabe espanhol — e se vê mais próximo da garota-menino que dos outros dois. O trajeto via México, a bordo de trens e sobre trilhos, desvela um singelo e melancólico filme sobre descoberta sexual e identidade, fatores humanos sempre permeados por uma itinerância agressiva e imprevisível. Há road movies, uns acreditam, que melhoram o homem. Mas a estrada, só a estrada, nua e crua, essa que leva para uma terra prometida ilusória, pode simplesmente demolir o homem.

 

O verão dos peixes voadores (El verano de los peces voladores, Chile/França, 2013). De Marcela Said. 2/5.

Terminei o Festival de Brasília com um filme (Exilados do vulcão) fotografado por Inti Briones. Comecei a Mostra São Paulo com um filme fotografado por Inti Briones.

Em busca de uma catarse que nunca chega, o filme de Quemada-Díez explicita diferenças de classe por meio de uma adolescente riquinha durante as férias de verão, que, nesta ordem, 1) tem seu coração partido por um garoto que fica com uma de suas amigas, 2) conhece a realidade precária e esquecida dos Mapuche, povo indígena que disputa terreno com seu pai, 3) claro, fica caidinha por um jovem e cantante Mapuche. O verão, aqui, é amazonicamente úmido, composto de verdes impactantes, e tão nebuloso quanto a atmosfera alva e onírica de Exilados. Mais um caso, portanto, de filme bonito, bem-sucedido enquanto tradução visual de estados de espírito, porém farto de arestas — acredite, seus 88 minutos demoram mais a passar que os 250 de Norte, o Fim da História.

Mostra São Paulo – Dia 3/3

novembro 1, 2012 7:40 pm 1 comentário

Meu terceiro, derradeiro e mais frutífero dia (quarta-feira) de Mostra começou com a pirotecnia hipster de Xavier Dolan em Laurence anyways — acredite, o melhor filme dele — e terminou com o mal estar leste europeu em Além das montanhas, do Palma de Ouro Cristian Mungiu. Entre os dois, vi um mexicano meio desconhecido — e bem fraquinho –, Não quero dormir sozinha, me encantei com o Kiarostami afetuoso e inclassificável de Like someone in love, meu preferido do festival, e admirei os pequenos feitos de O gebo e a sombra, do imortal Manoel de Oliveira. Às últimas:

Um alguém apaixonado (Like someone in love, Japão/França, 2012, 109 min). De Abbas Kiarostami. 4/5

Estou tentado a dizer que é quase tão bom e destemido quanto Cópia fiel. Exagero à parte, é um Kiarostami novamente brincando com identidades confusas, num título belamente organizado por meio de pontos de vista refletidos, espelhados e sobrepostos — a sequência inicial, feita de dois planos fixos, a viagem de carro pelas ruas iluminadas de Tóquio, os interiores revelados sem manipulações na montagem.

A trama, ou o fiapo de trama, segue as andanças de uma jovem acompanhante japonesa, que despreza a vinda da avó para Tóquio — possivelmente desconfiada a respeito do que a neta anda fazendo para sobreviver –, está noiva mas não quer casar, faz faculdade mas não parece gostar de ler. Agora, ela está em contato com um novo cliente, um velhinho intelectual, ex-professor universitário e tradutor que mora a uma hora do centro.

O tempo de Like someone in love é puramente real. Os planos têm de durar o quanto tiverem de durar. O diretor, além de adiar os cortes sempre que possível, filma esperas, minutos vazios, segundos fugazes. Há um apuro visual espantoso, mas o poder está nos (1) diálogos, (2) na voz de Ella Fitzgerald saindo da vitrola do velho que se assume como avô dela, (3) nos murmúrios de aprovação ou reprovação, (4) no velhinho cantando Que sera, sera para a acompanhante/pretensa neta/amiga.

Não acontece nada. E acontece tudo. A vida é assim. Aqui, o cinema é assim. “O que tiver de ser, será”, diz o sujeito. É um anticlímax encerrado com um final abrupto e brusco e violento de propósito — com um clímax, ora, porque a vida é desse jeito, 99% de anticlímax, de coisas ordinárias, de papos que esquecemos, de pessoas que conhecemos, e 1% de clímax, de imprevisibilidade, de surpresa, de graça — de amor, de paixão. Whatever will be, will be.

Além das montanhas (Dupa dealuri, Romênia/França/Bélgica, 2012, 150 min). De Cristian Mungiu. 3.5/5

Mungiu endereça uma crítica frontal ao cristianismo, aos ortodoxos, ao confinamento judaico-cristão. As armas? Lesbianismo refreado pela Bíblia, distúrbio psicológico tratado — amordaçado, amarrado, acorrentado, melhor dizendo — como possessão demoníaca e uma coletânea de perversidades ocorridas num convento fincado nas montanhas, onde uma jovem freira recebe a visita da amiga que a acompanhou, a protegeu e a amou durante os tempos de orfanato.

Num surto — Mungiu atento aos olhares, aos movimentos duros, à santidade dos ambientes –, a forasteira invade a comunhão, grita e esperneia, xinga e blasfema. Ela quer levar a amiga para a Alemanha, de onde saiu. Ela quer ficar com a amiga o tempo todo — no café, no jantar, na hora de dormir, na hora da reza, na hora da confissão. Ela é obcecada por atenção. E Mungiu, obcecado em filmar suas convulsões e a comoção gerada pelas convulsões — tivesse 30 minutos a menos, Além das montanhas seria um filme melhor.

Apesar da delonga, o diretor conclui seu terror-de-convento — é o haunted house da Europa Oriental — num veículo da polícia, na realidade da justiça e da lei alcançando o topo da montanha — a ortodoxia até então intocada, escondida. (Spoiler a caminho). Os policiais apontam culpados — o padre, a madre, as enfermeiras que amordaçaram, amarraram e acorrentaram a moça de braços abertos, como o corpo de Cristo. O carro chega à cidade. Crianças atravessam a faixa de pedestre. Um mini-travelling sai do fundo, do xilindró móvel, leva o interesse da cena para o papo trivial do policial que dirige e do carona, registra o cotidiano, o dia comum. O cristianismo superado pela lógica da rotina.

O gebo e a sombra (Gebo et l’ombre, Portugal/França, 2012, 95 min). De Manoel de Oliveira. 3/5

“Ou se é honesto ou se enriquece” e “rotina é felicidade” são algumas das máximas ouvidas ao longo da projeção do novo do velho Manoel. É um filme teatralizado no sentido mais generoso da expressão: reduzido a pouquíssimos planos, o cineasta português enquadra a tristeza tediosa de pai, esposa e nora, que lamentam o sumiço do filho e marido. É potência dramática extraída do mínimo, é precariedade como recurso para emoldurar a angústia, a avareza e a injustiça.

A vida para, estaca enquanto se está preso ao combinado de dois cômodos, à composição de cena com frutas à mesa, atas preenchidas de números e móveis que se confundem com o negrume das paredes. As trevas estão — ou  sempre estiveram, como aponta a ambientação atemporal e passadista — na sala de estar.

Laurence anyways (Canadá/França, 2012, 159 min). De Xavier Dolan. 2.5/5

Dolan sai de cena — na verdade, ele faz um cameo quase imperceptível numa festa, não digno de nota — e, com um personagem em metamorfose, roda seu filme mais consistente. Ou: seu filme menos afetado, apesar do toró de roupas em cãmera lenta, da borboleta saindo da boca de Laurence — o simbolismo óbvio para a “saída do casulo” –, o homem que, ano a ano (de 1987 ao raiar do novo milênio), se reafirma como mulher, e do aguaceiro que ensopa a sala de estar da sua amante, esposa e melhor amiga, Fred.

É uma queer love story achegada à dimensão dos melodramas históricos, desajeitada do meio para o fim e marcada por gracejos fantasistas e um vaivém cíclico de términos e voltas, de idas e vindas, de choros e risos. De positivo, fica: o panorama das mudanças comportamentais em torno dos transexuais, concentrado nas mudanças na vida de Laurence — antes: marginalizado pelas escolhas, depois: legimitado pela arte. O final derrama-lágrimas é o momento máximo do cinema hipster em 2012.

Não quero dormir sozinha (No quiero dormir sola, México, 2012, 85 min). De Natalia Beristain. 2/5

É um longa de estreia irregular, mas com algo de promissor em suas representações — e viradas dramáticas — de rusgas familiares. Uma jovem vive na casa do pai — ator famoso, sem tempo, estressado, ausente — e cuida da avó doente — que foi uma atriz famosa, hoje bebe demais e tem Alzheimer. Ela é incapaz de dormir sozinha — o que, por sinal, tira o sono da neta.

Nada demais nisso, mas há uma torção incomum no roteiro, pouco coerente — talvez manipuladora: os últimos 15 minutos dão a impressão de que a neta, resignada com o isolamento da vó — e, por consequência, com o seu próprio isolamento –, se torna naturalmente um espelho (e um receptáculo) das crises que ela tanto observou nos últimos tempos. Tão frágil quanto a solução final de Perder a razão, que comentei aqui ontem.

Mostra São Paulo – Dia 2/3

outubro 31, 2012 8:04 am Deixe um comentário

Fui do céu ao inferno. Do clima de agitação popular de No, o entusiasmado drama político do chileno Pablo Larraín, ao inferno gélido de Antiviral, estreia do filho de David Cronenberg, o já bem perturbado (e, sim, promissor) Brandon. Antes disso tudo, comecei o dia com Perder a razão, dramalhão com boas atuações, mas de desenvolvimento crivado de escolhas discutíveis de roteiro e execução. No mais, vi o nacional Uma história de amor e fúria, rara animação brasileira em longa-metragem — ou melhor, rara e boa. Às defesas e ataques:

No (Chile/França/EUA, 2012, 118 min). De Pablo Larraín. 3.5/5

A grande vitória de Larraín, aqui, não é somente reconstruir um fato histórico com empolgação e energia — afinal, estamos falando do referendo que derrubou Pinochet, em 1988. O grande feito do chileno é restituir ao cinema latino-americano uma vontade de revisão política, de discussão da memória coletiva — e, vá lá, até de heroísmo do passado esquerdista. O longa é direcionado para o personagem de Gael García Bernal, um publicitário que comanda a campanha da esquerda no plebiscito que dirá SIM ou NÃO à permanência do caudilho no poder. Durante produção e execução dos jobs — 15 minutos diários de programa televisivo durante 27 dias –, ele tem de enfrentar empecilhos tanto políticos quanto morais e corporativos — basta dizer que seu chefe é um conservador disfarçado de centrista.

A trama é empolgante, movimentada e, o melhor, deliciosa de acompanhar — atributos que sobram em outros filmes que observam a política via estruturas midiátias, como o clássico Todos os homens do presidente (1976). Ou seja: um crowd-pleaser no sentido menos diabólico da expressão. Visualmente, o cineasta recorre a uma fotografia de época, borrada e sem muita nitidez, como era típico dos videoteipes e da tevê nos anos 1980. Larraín consegue, além de uma incrível granulação de imagem, tornar o próprio filme uma espécie de peça publicitária sobre um certo orgulho nacionalista — ou, se preferir, um orgulho agarrado à liberdade da expressão e à conquista da democracia pelo povo, sem violência. No é um brado, é um urro — e, mais do que isso, é o sentimento de um povo.

Uma história de amor e fúria (Brasil, 2012, 75 min). De Luiz Bolognesi. 3/5

É a aula de história com a qual sempre sonhamos: um desenho violento, sedutor e pulp, com um protagonista de mais de 600 anos de idade e várias encarnações ao longo dos séculos. No Brasil Colônia, o metade homem/metade pássaro mítico lutou contra os portugueses. No Império, apoiou a causa antiescravagista. Nos tempos da ditadura militar, pegou em armas e virou preso político. E agora, em 2096, num cenário absurdo mas plausível, em que a água é o principal commodity de traficantes e empresários e um pastor responde pela presidência do Brasil, nosso herói continua engrossando revoluções em busca de um mundo melhor — enquanto, em mais uma vida, se apaixona pela nova versão de Janaína, seu grande amor há séculos.

Bolognesi não tem medo de ser didático e pedagógico — ele é e ponto final, o que abre caminho para uma narrativa de anseios épicos, às vezes rasteira e apressada, mas sempre empolgante. O trabalho de animação investe em tons clichês para os períodos históricos — a ditadura em sépia, o Rio sci-fi à Minority Report/Blade Runner –, num design que parece o das produções da Disney de duas décadas atrás. Mas o que importa são as ousadias de revisionismo histórico e as particularidades familiares de uma fantasia ambientada em solo nacional — eu prefiro mil vezes rever Uma história de amor e fúria a ter de dar mais uma chance a Abraham Lincoln: Caçador de vampiros, por exemplo. O filme é uma raridade simplesmente por ser o que é — uma animação brasileira adulta em longa-metragem. Que venham mais, pois.

Antiviral (Canadá/EUA, 2012, 108 min). De Brandon Cronenberg. 2.5/5

Ouvi muita gente dizendo que “este é um retorno ao velho Cronenberg”. Não é para tanto. O debute do “novo” Cronenberg, de fato, traz de volta a sanguinolência de títulos como Shivers (1975) e Scanners (1981) — e, com ela, alegorias sociais. Eis o problema: Brandon tem alguma personalidade, mas acaba, por fim, inscrevendo seu cinema na linha clean e asséptica — eu diria até vampiresca — dos filmes recentes do pai. Com uma rigidez formal que lembra Cosmópolis, Cronenberg Filho monta um sci-fi sobre a mania e a obsessão das pessoas com as celebridades.

Syd March, vivido por um Caleb Landry Jones que só falta se desintegrar na tela, trabalha numa empresa que fornece aos clientes, acredite, doenças que seus artistas favoritos já tiveram. É possível, por exemplo, adquirir a herpes que a modelo Hannah Geist contraiu há alguns anos. Ou qualquer outra enfermidade que seu bolso puder bancar. Um dispositivo de modificação genética do vírus faz com que ele afete somente a saúde do fã que o comprou. Nas ruas, açougues comercializam bifes orgânicos produzidos a partir das células de gente famosa.

Se antes a perseguição às celebridades consistia em revistas de fofoca, pedidos de autógrafo e esperas em saguões de aeroporto, hoje a ciência permite que você conecte o seu corpo ao de quem você admira. March vende gripes, vírus e outras patologias no ambiente de escritório e fora dele –os piratas agradecem –, mas mantém um console em casa — uma tela, acoplada a fios e outras engrenagens, compõe, literalmente, um rosto (deformado e manchado) para o vírus. Ele se injetou com a gripe que, supostamente, matou Hannah.

E agora, este jovem ruivo de traços raivosos — ele realmente parece ter contraído raiva e não uma simples gripe — se tornou o alvo de uma corporação rival, que intenta fabricar uma nova geração de produtos para os viciados em pragas. O diretor podia ter cortado algumas arestas: prolixo e alongado sem necessidade, o filme demora a chegar a uma solução satisfatória. Até lá, seringas, febres e võmitos de sangue colorem os brancos e os vácuos de Antiviral. Mas é um terror meramente sanitário, de aclimatação hospitalar. O Cronenberg insalubre, contaminado e contagiante ainda está adormecido.

Perder a razão (À perdre la raison, Bélgica/Luxemburgo/França/Suíça, 2012, 111 min). De Joachim Lafosse. 2.5/5

Já no prólogo, este aqui parece se denunciar como um drama familiar preso a um esquema pré-determinado, em que as situações têm de ser forçadas para, no fim, o último plano justificar (e explicar) o primeiro. Murielle (Émilie Dequenne, alma da obra-prima Rosetta), aparece no início aos prantos, perguntando ao marido, “eles serão enterrados no Marrocos?”. O homem, Mounir (Tahar Rahim), sai do quarto de hospital e, em seguida, dá um abraço apertado num velho que parece ser seu pai. Só parece, mas age como se fosse. André (Niels Arestrup) tirou Mounir da pobreza do Marrocos e o levou para a França. Lá, formado em medicina, o jovem se apaixona por Murielle. Casa-se com ela. O casal tem quatro filhos.

E André, médico da família + padrinho + pai adotivo, mora com a família. Aliás, a família mora com ele, na casa deste velho solitário, mas solícito. É nos planos domésticos, emoldurados por móveis e cantos de parede e porta desfocados, que Lafosse dramatiza as perturbações de um lar que tinha tudo para ser perfeito e feliz, mas não é. O primeiro plano já mostrava algo de alarmante, de trágico. Então, o restante do filme — uns 108 minutos — é montado como um longo massacre de Murielle, a jovem mãe cujo único desejo é pertencer: (1) ao clã da família de Mounir, que vive no Marrocos, e (2) ao microcírculo egoísta de amizade e confiança inquebrável entre o marido e André.

Lafosse, perto do fim, tem de acelerar o esgotamento nervoso da protagonista para fechar o arco que começou lá atrás, no prólogo. E, quando finalmente consegue encerrá-lo, o faz com um distanciamento incoerente — (spoiler a caminho) saindo do sufocamento, enquadrando a casa como um mero objeto imobiliário, e reiterando (num telefonema, num off dos mais bestas), o que já se sabe desde que a mãe, do andar de cima, com o caçula no quarto, chama as filhas uma por uma. Explicação para o hype? Este é um O sétimo continente (1989) para as multidões, tocante, suave e ligeiramente grave.

Mostra São Paulo – Dia 1/3

outubro 30, 2012 8:02 am Deixe um comentário

O tempo urge. Terei apenas 72 horas de Mostra São Paulo este ano — o que significa, em números (miúdos), algo entre 10 e 12 filmes, até quarta. Inaugurei minha segunda participação no festival (ontem, segunda) com o descompensado quase-doc Canção para o meu pai, do israelense Amos Gitai, fui em diante com A cara que mereces, filme de estreia do incensado Miguel Gomes (Aquele querido mês de agosto, Tabu) e encerrei o dia em clima de romance russo — deprimente, pesado, catatônico –, na sessão de Na neblina, de Sergei Loznitsa, um dos focos desta edição — ele em pessoa e todos os seus documentários + Minha felcidade estiveram dando uma voltinha por São Paulo. Ao que interessa:

Na neblina (V tumane, Alemanha/Holanda/Bielorússia/Rússia/Letônia, 2012, 127 min). De Sergei Loznitsa. 3.5/5

A Segunda Guerra vista através das histórias de três russos — um soldado, o superior deste mesmo soldado e um pobre homem acusado de traição, poupado da hora final por sorte (por azar, eu quis dizer). Loznitsa é tímido com a câmera — ela fica, para, continua devagar –, mas estica as cenas em planos longos, calmos, demorados, um personagem esperando a fala do outro, a respiração filmada sem cortes ou contraplanos. É um cinema que busca a completude dramática — literalmente, reunindo todos os elementos num quadro só, protelado até o limite –, mas não de estilismo — o propósito de Steve McQueen (Shame), quando resolve prolongar o momento da interrupção de um plano para obter resultados plásticos de uma sequência.

O tal sujeito injustiçado tentou sabotar trilhos por onde passariam vagões nazistas. A punição: ficar vivo, enquanto seus comparsas tiveram pena capital na forca. Um acordo à força, feito com os nazistas. Ele preferia ter morrido a isso. Sua mulher preferia que ele tivesse morrido a isso. Quando um oficial russo e seu ajudante deixam a guerra por alguns dias e vão atrás de Sushenya (Vladimir Svirskiy), o sobrevivente, de tão angustiado, não hesita em ir com os dois. Na mata escura — e sempre fotografada em tons esverdeados –, Burov (Vladislav Abashin) aponta o rifle para a cabeça do prisioneiro. O estalo de um galho denuncia companhia, tiros zunem, o atirador é alvejado, Sushenya não foge, em vez disso carrega seu algoz moribundo nas costas, enquanto o cabo acompanha os dois com uma arma engatilhada.

Os três estão na solidão de uma floresta fria, calada, nebulosa. Pode-se morrer em paz ali — um privilégio que quem está entrincheirado nas linhas de batalha certamente não terá. Loznitsa aproveita a introspecção geral para trazer à luz o passado dos três. É culpa dostoievskiana que não acaba mais — sobretudo para o dito traidor. O peso de carregar o seu assassino nas costas é maior que o fardo da honra ferida, da autoimagem de falso herói, da angústia de estar vivo enquanto seus amigos já se foram? Pouco interessa. Aos três, agora, só importa morrer dignamente. Na neblina exibe várias potências — entre elas, profundidade e aclimatação, digamos, de ares literários –, mas fica um degrau abaixo do último grande filme russo sobre a humanidade e seus demônios — Fausto.

A cara que mereces (Portugal, 2004, 108 min). De Miguel Gomes. 3/5

As (duas) histórias, conectadas por apenas uma moedinha dourada, são contadas num mundo real e adulto, mas recendem a fábulas infantis — a da Branca de Neve e os Sete Anões, para ser mais direto. Na primeira, Gomes filma como que um musical tragicômico no dia de aniversário de (30 anos) de Francisco, um caubói lisbonense melancólico e pessimista. É hilário: uma pantomina interpretada por gente crescida, em que as infantilidades surgem como páródia das crises da fase adulta.

A estrutura seriada, infelizmente, prossegue e termina num segundo conto alongado: versão “crescida” dos Sete Anões. Há um certo esbanjamento de esquisitices — afinal, são contos de fadas –, uma ironia incontrolável nas firulas visuais — efeitos sonoros cartunescos, a narração em off que dialoga com os personagens, os recortes de livros infantis –, e a cenografia é toda construída em cima de realismo e mágica. Não chega a ser um Wes Anderson, mas fica próximo disso (dum conceito rígido e não negociável de estilo): já em seu filme de estreia, Gomes marca terreno com uma direção de personalidade, que não parece perseguir outra coisa senão a originalidade. Falho, mas aventureiro e arriscado.

Canção para o meu pai (Lullaby to my father, França/Suíça, 2012, 82 min). De Amos Gitai. 2/5

Munio, o pai de Amos Gitai, foi arquiteto, estudou na Bauhaus, e sabemos da sua importância para Israel porque seu filho lhe dedica um documentário destemido, que pinça depoimentos, abre espaço para leitura de cartas, permite poesia e ainda arranja tempo de tela para interpretações ficcionais (mui bem filmadas) do passado, centradas sempre na mãe do diretor. Parece um impressionante esforço de recuperação de memória e legado familiar, mas este é o caso em que o conceito não se percebe muito claramente — na verdade, o conceito é melhor descrito como falta de focalização do que Gitai estava disposto a filmar.

A homenagem teria dado um belo longa ficcional. Veja algumas das cenas, já prontas, já compiladas em Canção: Gitai filma o seu próprio parto no primeiro plano; cria imagens lindas saídas de um road movie puramente pictórico, com flocos de neve e luzes de tráfego, ou com estacas de madeira e trilhos duma estrada de ferro; monta um plano sequência digno de épico numa estação do metrô. E os outros momentos? Falas cifradas, recriações teatrais de alguns desses mesmos testemunhos, fantasmagóricas passagens da câmera por locações desoladas, e meditações que fariam mais sentido num livro biográfico de Gitai — ou num livro de lembranças e impressões do pai. Lucia Murat faria melhor.