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2013 em: livros

dezembro 26, 2013 11:22 pm Deixe um comentário

Uma lista de livros breve para um ano em que li bem menos do que gostaria.

Em comum, os quatro lançamentos e a reedição da autobiografia de Ingmar Bergman trazem em suas páginas narrativas sobre heranças memoriais — e suas consequências para a vida presente dos personagens e/ou narradores.

Por isso, deixo com eles, os autores, a palavra:

5 Lalanterna-magicanterna mágica. De Ingmar Bergman. Cosac Naify, 320 páginas

“Em algumas ocasiões, ser diretor de cinema traz uma felicidade especial. Uma expressão que não foi ensaiada nasce naquele momento, e a câmera a registra. Justamente isso aconteceu hoje. Sem preparo nem ensaio, Alexander se torna muito pálido, uma dor pura se desenha em seu rosto. A câmera registra o instante. A dor, difícil de apreender, esteve ali por alguns segundos e nunca mais vai voltar; ela não estava lá antes, mas na fita ficou gravado o momento. Então, acredito que os dias e os meses de disciplina e previsibilidade valeram a pena. Talvez eu viva para esses instantes. Como um caçador de pérolas.”

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do que a gente fala quando fala de anne frank4 Do que a gente fala quando fala de Anne Frank. De Nathan Englander. Companhia das Letras, 208 páginas

“51. A mulher que amo, a bósnia, não é judia. Para minha família, todos anos em que estou com ela, é como se ela não existisse. Cada vez melhor, a minha família, para esse tipo de coisa. Tão hábil, essa minha família. Não é só o passado que pode ser modificado e esquecido perdido para o mundo. É em tempo real agora. É o que está acontecendo agora. Também o presente pode ser desfeito.

52. E eu ainda gosto dela. Eu te amo, Bean (E mesmo agora, não consigo dizer isso direito. Deixem-me tentar outra vez: Eu te amo, Bean. Pronto.) E coloco isso no meio de um conto em meio a nossas vidas modernas com YouTube, iTunes, conectadas. Posso muito bem dizer isso a ela aqui. Ninguém está olhando; ninguém está escutando. Não há nenhum lugar melhor para se esconder em plena vista.”

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esquilos de pavlov3 Esquilos de Pavlov. De Laura Erber. Alfaguara, 176 páginas

“Tentei continuar a explicar as coisas naquele estilo que eu mesmo detestava na fala de outros artistas, dizendo que o que eu fazia eram deslocamentos, rearranjos, trocas de lugar, mas nunca roubo, eu não era um Rom, eu redistribuía, eu remanejava, sem tirar nem pôr, criando novas vizinhanças e novas distâncias, por exemplo entre

os livros que começam com uma pergunta

os livros que terminam onde começam

os livros que terminam sem terminar

os livros que são maus mas poderiam não ser, ou seja, não deveriam ter sido escritos pelos autores que os escreveram

os livros deprimentes de autores felizes

os livros alegres de autores deprimidos

os livros que foram renegados por seus autores

os livros que causaram arrependimento nos seus autores

os livros em que o herói troca de nome toda vez que abre a geladeira”

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maçã2 A maçã envenenada. De Michel Laub. Companhia das Letras, 120 páginas

“59. É preciso alguma coragem para se machucar de propósito. Algumas pessoas passam a vida toda sem conseguir aplicar uma injeção a si mesmas. Não é qualquer um que tira um espinho usando a ponta de um canivete. É mais fácil pensar em tomar um frasco inteiro de remédios e dormir para sempre sem sentir nada do que bater uma porta no dedo indicador. Em abstrato é possível decidir qualquer coisa, a bala que rasga a carne, a corda que aperta o pescoço, o estômago queimando por causa do veneno, os ossos esmagados quando se pula da janela. O problema é quando se está numa cama depois de um acidente com um carro de bombeiros e durante boa parte do dia se pensa como seria decidir ir até o fim. Que método seria mais rápido, mais seguro. Quantos dias depois de receber a notícia sobre a cadeira de rodas. Faria diferença esperar mais uma semana, durante a qual eu faria exatamente o quê? Comer algo que tivesse vontade? Escrever um bilhete como Kurt Cobain?”

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jesus1 A infância de Jesus. De J.M. Coetzee. Companhia das Letras, 304 páginas.

“‘Eu acho que as estrelas são números. Acho que aquela é o Número 11’ — ele espeta um dedo no céu — ‘e aquela o Número 50 e aquela o número 33 333.’

‘Ah, você quer saber se podemos dar um número para cada estrela? Isso seria, com certeza, um jeito de identificar as estrelas, mas um jeito muito chato, pouco inspirado. Acho melhor elas terem nomes próprios como Ursa, Vésper, Gêmeos.’

‘Não, bobo, eu disse que cada estrela é um número.’

Ele sacode a cabeça. ‘Cada estrela não é um número. Estrelas são como números sob alguns aspectos, mas sob a maioria dos aspectos são bem diferentes deles. Por exemplo, as estrelas estão espalhadas por todo o céu caoticamente, enquanto os números são como uma frota de navios navegando em ordem, cada um sabendo o seu lugar.’

‘Elas podem morrer. Os números podem morrer. O que acontecem com eles quando morrem?’

‘Números não morrem. Estrelas não morrem. Estrelas são imortais.’

‘Os números podem morrer. Podem cair do céu.’

‘Isso não é verdade. Estrelas não caem do céu. As que parecem cair, as estrelas cadentes, não são estrelas de verdade. Quanto aos números, se um número caísse para fora da série, então haveria uma rachadura, uma quebra, e não é assim que os números funcionam. Não existe nunca uma rachadura entre números. Nunca um número fica faltando.'”

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Retalhos

abril 17, 2011 11:25 pm 2 comentários

Terça passada viajei para o Rio de Janeiro. Fui cobrir o lançamento de Velozes e furiosos 5 – Operação Rio — que é ruim, claro. Não deu pra conhecer a cidade, o que já fiz em parte, em janeiro de 2001, na minha única visita à cidade. Mesmo assim, tenho lembranças fracas: banners enormes de Limite vertical e O sexto dia — filmes que adorei quando vi pela primeira vez — e a estrutura do Rock in Rio sendo desmontada. Fora uma caminhada forçada — já que o motorista nos largou, eu e mais dois jornalistas, a oito quadras do hotel –, não deu pra ver muita coisa. Mas isso não interessa agora.

Fui e voltei lendo Retalhos no avião, essa graphic novel insuportavelmente bela de Craig Thompson.

É um romance de formação em quadrinhos. Thompson cresceu numa família cristã (fanática), escutando sermões amedrontadores e lendo passagens bíblicas que exigiam fé irrestrita. Ele se expressava por meio do desenho, era malhado pelos colegas da escola por causa do cabelo que cobria as orelhas e dividiu a mesma cama com o irmão por um tempão.

Num acampamento religioso, veio a libertação: ele conhece Raina, por quem se apaixona de imediato. E ele a ama do seu jeito, com ideais angelicais de pureza e outras tantas ingenuidades desconcertantes de um cara de 17 anos que passou a adolescência inteira acreditando que a vida na terra é passageira, pecaminosa, enfim, é “canseira e enfado” — o que vem depois é o gozo eterno, louvores infinitos ao bom Deus que salvou Craig do pecado.

Thompson não precisa atacar o cristianismo para evidenciar seu passado. Ele é levemente irônico em algumas passagens, e fixa a narrativa numa progressão acidentada, fragmentada mesmo, desenvolvendo o temperamento do Craig adolescente e jovem enquanto investiga a infância. Retalhos tem traços simbólicos, alguns fantasmagóricos, e delicados. Thompson traduz amor, decepção e opressão com sensibilidade arrepiante. É um tratado gráfico rasgado e delicado sobre o primeiro amor.

O que vou dizer agora é um absurdo. Achei Retalhos um pouco parecido com Diário da queda, livro de Michel Laub a que dediquei um post há poucas semanas: nos dois, o protagonista é massacrado pela persistência da memória, mas sabe seguir em frente. Na HQ, assuntos mal resolvidos da infância e recordações recentes de uma ditadura do pensamento, imposta pelo protestantismo e pelos pais. No romance, a história de sofrimento dos judeus tritura e distorce o comportamento do principal.

Como é bom deixar uma marca na superfície branca. Fazer um mapa dos meu passos… mesmo que seja temporário.

Diário da queda

abril 2, 2011 12:21 am 1 comentário

Diário da queda. De Michel Laub. Pra mim, fácil, fácil mesmo, o melhor livro do ano. Peguei um exemplar novinho com uma amiga do jornal, despreparado para o que iria ler: uma ficção breve mas densa, que me fez viajar de volta para o ano de 2008, quando comecei a ler Kafka, quando li Carta ao pai e, a cada viagem de ônibus que fazia de volta pra casa, com o livro nas mãos, perto da minha quadra, via-me naquelas páginas todas.

Não sou judeu — sou de origens cristãs. Mas imagino que aquele fardo que tanto aflige o judeu — a sensação de que o mundo está contra ele, de que ele foi, é e sempre será indivíduo de um povo odiado; pelo menos ele é domesticado a se sentir assim, acredito — é, de certa maneira, semelhante ao que causa um cansaço permanente nos ombros do cristão: a rigor ele, também, é ensinado a pensar que todas as pessoas são ruins, e, ele, “justo”, “sal da terra”, “luz do mundo”, deve ser aquele quem deve ensiná-las o caminho da salvação, ensiná-las que o pecado conduz à morte — ou mesmo ensiná-las a crer que o pecado existe –, que o não reconhecimento do sacrifício de Cristo significa aderir ao Diabo, aos seus asseclas e ao fogo eterno.

O livro de Laub, episódico, dividido em pequenos verbetes, narra a trajetória de um garoto de existência esfacelada: vive à sombra da história do avô, sobrevivente de Auschwitz, um velho que passou o resto de seus dias escrevendo um diário incomum. E não há nenhuma menção ao campo de concentração nesses escritos, nem mesmo um nome sequer. O garoto cresceu sem entender muito bem como o sofrimento de seu povo poderia se relacionar à sua vida e ao relacionamento com o pai, um homem que leu os cadernos de seu pai estupefato, sem entender a falta de registro dos horrores da guerra. Ou melhor, por que esse sofrimento deveria ter conexão com a sua vida e o relacionamento com o pai.

O narrador, que perpassa a sua adolescência e os anos atuais — ele aos 40 anos, escritor beberrão, no terceiro casamento e com um pai envolvido pelo Mal de Alzheimer –, tece uma investigação memorial (e emocional) de si mesmo, do pai e do avô. Por fim, ele decide — ou não decide, cabe a você ler para conferir — se leva consigo os paradigmas do judaísmo, de Auschwitz e os traumas de seu povo, que ele aprendeu a sentir sem nem mesmo ter sido vítima do holocausto, adiante.

Diário da queda é doloroso. Mas as últimas páginas são edificantes — para judeus e cristãos e não judeus e não cristãos.