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2014 em: filmes

dezembro 29, 2014 11:53 am Deixe um comentário

Tive um ano dos mais preguiçosos em termos de cinefilia. Cabulei a Mostra SP — por falta de benjamins — e, ao longo da temporada, ignorei torrents de lançamentos importantes por filmes de catálogo.

Pois bem. Abaixo, segue uma lista simplória com apenas DOZE TRABALHOS vistos pela primeira vez (e cotados a partir de 4/5), entre filmes que estrearam ou não no país em 2014. Stills (meus ou de terceiros) acompanham (e justificam) as escolhas.

Belezuras como Dumb and dumber to, PompeiiNon-stop, Amar, beber e cantar e Jauja são ausências sentidas e carecem de revisão. Sem falar em postulantes de peso para o balanço, como John Wick e The tale of the Princess Kaguya, sequer contemplados na (desorganizada) ~agenda~.

12 Garota exemplar (Gone girl, EUA). De David Fincher

gone girl 12

gone girl 1

(via Apnatimepass)

 

11 Tudo por um furo (Anchorman 2: The legend continues). De Adam McKay

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anchorman 2

 

10 Bem-vindo a Nova York (Welcome to New York, EUA). De Abel Ferrara

welcome to new

welcome to ny

 

9 Mockingbird (EUA). De Bryan Bertino

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mocking

 

8 Bird people (França). De Pascale Ferran

bird people

bird people (2)

 

7 O lobo de Wall Street (The wolf of Wall Street, EUA). De Martin Scorsese

THE WOLF OF WALL STREET

(via Collider)

 

6 Expresso do amanhã (Snowpiercer, Coreia do Sul/República Tcheca/EUA/França).
De Bong Joon-ho

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(via Film Captures)

 

5 Nossa Sunhi (U ri Sunhi, Coreia do Sul). De Hong Sang-soo

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sunhi 2

 

4 La jalousie (O ciúme, França). De Philippe Garrel

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3 Jersey Boys: Em busca da música (Jersey Boys, EUA). De Clint Eastwood

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2 Adeus à linguagem (Adieu au langage, Suíça/França). De Jean-Luc Godard

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1 Era uma vez em Nova York (The immigrant, EUA). De James Gray

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Mostra São Paulo – Dia 3/5

outubro 28, 2013 10:46 am 2 comentários

Abaixo, em sentenças curtas e grossas, falo do que vi no domingo antes de ficar chateado à beça com o cancelamento de Um toque de pecado — e de ensaiar (mentalmente) um PROTESTO SEM VIOLÊNCIA na cabine de projeção da sala 1 do Reserva Cultural. Bora lá:

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Cortinas fechadas (Pardé, Irã, 2013). De Jafar Panahi e Kambuzia Partovi. 3.5/5.

This is not a film 2: closed curtain. O motivo: Panahi apresenta, aqui, mais um relato angustiante sobre a impossibilidade de fazer cinema. Quando o próprio diretor invade sem cerimônia o filme que está passando há uns bons 40, 50 minutos — trama: casa de um escritor confinado com seu cão é invadida por dois fugitivos, uma suicida e seu irmão — , e começa a fechar cortinas e passar em revista a mobília, simplesmente ignorando os personagens que ali estão — escritor e intrusa –, parece se estabelecer entre cineasta e obra uma espécie de rompimento forçado — afinal, existe algo mais incômodo para um diretor do que ser forçado a interromper, abortar — matar — seu próprio filme?

Panahi está proibido de filmar. Portanto, em casa, a câmera o acompanha num dia comum, de vida ordinária e doméstica, enquanto, nos outros cômodos, os personagens do filme cancelado agem como almas condenadas ao esquecimento, vagando invisíveis pela casa. Ao cineasta preso, restam vestígios: ele encontra um iPhone no modo REC apontado para o mar, destino final da invasora, que, antes de deixar o celular na varanda, pediu a Panahi (via câmera, obviamente) que a seguisse, como um ato final de liberdade — ele até consente, caminha até o mar, mas, arrependido, interfere na cena dando um rewind — mais uma interrupção.

Em outro momento igualmente triste, com o mesmo iPhone na mão, o diretor vê o vídeo que seu personagem-escritor fez durante uma cena do filme, na qual tenta descrever a invasão. No registro, aparece a equipe de filmagem — operador de câmera, iluminador e ele, Panahi, conduzindo o microfone. O único filme possível no isolamento, no maior dos impasses criativos — o de não poder trabalhar –, é este: feito com aparato, autor e seus fantasmas.

The deep (Djúpið, Islândia, 2012). De Baltasar Kormákur. 3/5.

Survival movie baseado em fatos (de 1984) mui competente, cuja principal cena (à la Gravidade) evidencia a desigual luta entre natureza invencível e humanidade frágil num país de gelo e fogo como a Islândia. O único sobrevivente de um barco pesqueiro nada nas águas congelantes do Atlântico Norte enquanto a câmera se afasta do sujeito, escancarando na tela um mar infinito, desbotado e revolto. O filme perde muito de sua força — física mesmo, pois esse Ólafur Darri Ólafsson tem atuação digna dum URSO — na meia hora final, quando Kormákur dedica um tempo excessivo ao pós-milagre, aos sentimentos de culpa desse homem — “o que há de heroísmo nisso de salvar a própria pele?”, ele parece se questionar — e até aos seus dias de cobaia de pesquisa em Londres.

Sobreviver — dádiva e maldição.

(Da série “culpo o astigmatismo ou a cópia digital?”: quero acreditar que houve algum problema na calibragem de cor nessa sessão (no Reserva Cultural), pois os brancos me pareceram especialmente brilhosos e estourados.)

3x3D (França/Portugal, 2013). De Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard. 2/5.

Em termos simples, pedras para os dois primeiros e uma tentativa de entender o último:

Just in time, de Greenaway: Arca Russa meets Wikipédia — em 3D. Só faltou Comic Sans nas escolhas tipográficas.

Cinesapiens, de Edgar Pêra: tratado filosófico-sentimental sobre cinefilia com a profundidade de um episódio (ruim) de O Mundo de Beakman.

The three disasters, de Jean-Luc Godard: compilação de fotos de cineastas, filmes bons e ruins, de arte e blockbusters, e cenas de bastidores acompanhada de uma narração que coloca em pauta questionamentos graves sobre a crise (ou mesmo o fracasso) do cinema, como o empobrecimento das metáforas em prol de histórias e o poder alienante da palavra — aquela que sempre aparece para apontar o que não existe, o que não está lá.

Dark blood (EUA/Inglaterra/Holanda, 2012). De George Sluizer. 2/5.

Concluído vinte anos depois da morte de River Phoenix, Dark blood só pode ser encarado como um filme incompleto — e, por isso, bastante problemático. O próprio diretor avisa, no prólogo, que o produto final é muito mais uma tentativa de preencher lacunas do que propriamente uma obra finalizada. Leituras de roteiro e cenas improvisadas, sem o resto do elenco, tentam dar cobertura aos trechos inexistentes.

Enxertos à parte, acho que não seria um bom filme mesmo se tivesse sido lançado na época em que foi rodado. River Phoenix faz um solitário excêntrico e místico, que acredita no fim do mundo — o deserto em que vive foi cenário de testes –, enlouquece de tesão por uma atriz de Hollywood e ameaça seu marido, também ator, frustrado por não poder seguir viagem após o motor de seu carro falhar.

Com todo respeito a River, mas o filme todo — aliás, todo não, partes dele — me pareceu assim uma pornochanchada apocalíptica falada em inglês. Ou um western sexploitation. Para usar uma expressão tão vazia quanto essas definições, digo que “a rigor seria isso”.

Filme socialismo

maio 8, 2011 1:00 am 4 comentários

Do meio pro fim, fiquei desesperado: queria ter uma caneta para poder anotar algumas coisas — na mão mesmo, nem precisaria de papel. Esperei chegar até à rodoviária. Comprei uma caneta Bic — paguei 1 real; paguei um precinho absurdo. Rabisquei tudo que deu para lembrar no panfleto do CCBB: frases pela metade, uma pequena sinopse de cada um dos três atos e as impressões que ficaram quando a sessão terminou — bem antes disso, umas 15 pessoas deixaram Godard falando sozinho.

Acho que ele pensou: “Se vou fazer um filme político nos dias de hoje, então preciso comunicar o que penso com uma linguagem de hoje”. Só que Godard não quer ser entendido tão facilmente: filme falado em um bocado de línguas — francês, principalmente, mas também alemão, um pouco de inglês e italiano e mais um monte –, mas com legendas esparsas, que cobrem acho que nem 1/3 do que é dito. Não dá para entender mesmo. Então sobram duas, três ou quatro palavras, sempre sem pontuação, às vezes ligadas por um verbo precário.

No primeiro ato — um O homem com a câmera nos tempos do hyperlink –, imagens pixeladas, flagrantes recortados de um documentário amador ou de um vídeo caseiro, sem tratamento — parecem vídeos do YouTube, de baixa qualidade, registros de câmera digital ou celular. Áudio ruidoso, que às vezes não acompanha os planos. Frames vacilantes. Um cruzeiro viaja pelo Mediterrâneo e você escuta da boca das pessoas coisas improváveis de quem está tão entregue aos prazeres arriscados do jogo, ao conforto de um hotel com vista para o mar infinito, às refeições fartas, àquela atmosfera de um shopping center abundantemente iluminado e colorido, à (falsa) sensação de segurança de ter nascido, de morar no supostamente desenvolvido continente europeu (cuja identidade, cada conjunto de palavras avisa, foi construída por africanos e árabes): e elas dizem “não existe Deus”, “para Nações Unidas importa o crime”, “pobre Europa humilhada pela liberdade”, “AIDS instrumento para exterminar negros”, “Islã oriente ocidente”.

Todos são capitalistas, mas parecem inclinados a dizer o que todo mundo já sabe, que a Europa é um continente falido: “Hollywood coisa estranha inventada por judeus”. A América venceu. Vem a segunda parte. Making of de um filme amador, tipos afetados — a jovem que lê Balzac no posto de gasolina, acompanhada de uma lhama. Hipsters? Um garotinho maestro, que pinta como Renoir. Na terceira, a montagem da primeira seção retorna — agora numa profusão de referências; “tragédia e democracia casaram na Grécia”. Revoluções e guerras são sempre iguais, cíclicas, só mudam de data e endereço. Os mitos gregos e egípcios são velharias. A religião é desumana.

Filme socialismo (4/5) é um Godard precisamente moderno, mas com o olhar de um Eisenstein. Um filme soviético na era do YouTube.

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