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2011 em: discos

dezembro 30, 2011 11:39 am Deixe um comentário

Eu deveria fechar o bico e não reclamar de nadinha, nadinha mesmo de 2011. Comecei o ano empregado — e terminei o ano empregado, o que é raro no querido, porém sofrido segmento jornalístico. Minha vó esteve doente à beça no segundo semestre. Mas encerra a temporada com saúde. No meio do ano, saí de casa: doeu, mas nem tanto.

E aqui estou na casa da minha mãe alimentando uma gostosa preguiça diante da combinação recesso + férias de janeiro, depois de ter acordado às 7h30, lutando contra essa própria preguiça — e contra pensamentos ruins, que esse ano foi “superestimado”, que “não teve nada lá” etc. Então, para mudar completamente de assunto, mas entrando no assunto de fato, vamos aos discos.

Hors concours

The Beach Boys – The smile sessions (Capitol)

 

20 The Caretaker – An empty bliss beyond this world (History Always Favours the Winners)

19 Wild Beasts – Smother (Domino)

18 The Pains of Being Pure at Heart – Belong (Slumberland Records)

17 Girls – Father, son, holy ghost (True Panther Sounds)

16 Youth Lagoon – The year of hibernation (Fat Possum)

15 Cults – Cults (In the Name Of/Columbia)

14 Real Estate – Days (Domino)

13 Jay-Z & Kanye West – Watch the throne (Roc-A-Fella/Roc Nation/Def Jam)

12 Plato Divorak – Plato Divorak & Os Exciters (Independente)

11 St. Vincent – Strange mercy (4AD)

10 Laura Marling – A creature I don’t know (Virgin)

Num ano de tantas garotas sofridas, indies (Annie Clark, Meg Baird, Eleanor Friedberger e outras mais) e do mainstream (Adele, talvez Florence), Laurinha ecoa, na linha do St. Vincent, uma docilidade meio ferida, meio hostil: se Annie é herdeira da PJ Harvey de Rid of me, Laura segue a linhagem folk de Joni Mitchell (Blue) e Joan Baez (e suas versões de All my trials e Girl of  constant sorrow). Ela tem 21 anos — mas antecipa a amargura dos 30 (eu antecipei aos 22) em seu obstinado e maduro terceiro disco.

 

9 Drake – Take care (Universal Republic)

Aquele rapper inseguro do debute de estúdio (Thank me later), que se escondia atrás de bons samples, desapareceu por completo. Aqui, o canadense está confiante o bastante para falar sobre uma porção de assuntos particulares — amores perdidos, rusgas familiares, paixões virulentas, flagelos da fama –, e deixar a voz circular entre o argumento de um rapper hostil (um tipo Lil Wayne, seu amigo) e o lamento de um incurável soulman (Marvin, ou Stevie, um dos mentores criativos do Take care).

 

8 Julianna Barwick – The magic place (Asthmatic Kitty Records)

O folk eletrônico pastoral de Julianna está espraiado nas nove canções de música ambiente mais oníricas do ano. Vocais entrelaçados, sintetizadores atravessados de breves inserções de baixo e piano, e uma ambientação que, em seus loops espantosamente hipnóticos, ora lembra o quarteto Mountain Man do belo Made the harbor, um dos álbuns mais calminhos do ano passado, ora traz à tona uma espécie de cruzamento entre Sigur Rós e um coral gospel a cappella. Serviu para abrandar meus dias agitados.

 

7 The Antlers – Burst apart (Frenchkiss Records)

Na primeira audição, lembro que fiquei decepcionado: queria algo tão angustiante e mórbido quanto o Hospice. Eis que o trio do Brooklyn entrega um disco que tem lá a sua inquebrável melancolia (No widowsHounds), mas que exibe um pouco de leveza: o Hospice é o Ok computer deles; o Burst apart, o In rainbows. A sonoridade, de fato, lembra o Radiohead dos tempos recentes, mas, por outro lado, guarda um dream pop (raramente) autêntico, em que instrumentos, sintetizadores e vocais não brigam pela atenção do ouvinte.

 

6 Radiohead – The king of limbs (XL Recordings)

Momento “sim, trabalho com cota de Radiohead”. E, como todos os anteriores, este aqui me acompanha o tempo inteiro — foi ao som dele que escrevi uma amalucada e, sim, mui precipitada declaração de amor, lá em março. Veja bem: escrevi e enviei. Pois bem, ao que interessa: King of limbs não deveria ser tão breve (queria muito que The daily mail e Staircase, as melhores coisas da banda no ano, tivessem ficado prontas a tempo), nem deveria soar tão óbvio — uma continuação do In rainbows, com suas reminiscências do Hail to the thief. Ainda assim — e como é reducionista dizer isso –, adorei.

 

5 James Blake – James Blake (Universal Republic)

O inglês estreante de um dos melhores álbuns e do melhor EP (Enough thunder) de 2011 parece estar sempre solitário: “my brother and my sister don’t speak to me, but I don’t blame them”, ele canta em I never learnt to share. Mas só parece. Sua estreia brilhante — clima de dubstep minimalista com indie eletrônico, vocais de blue-eyed soul — tem covers de Feist (Limit to your love) e do próprio pai (The Wilhelm Scream) — sorry, Blake, mas Where to turn, a original do teu velho, é superior. E, bem, notei isso só para reforçar que, mesmo quando está acompanhado, JB é um cara sozinho: só consigo vê-lo entre quatro paredes, de olhos cerrados, com microfone e sintetizador.

 

4 The Weeknd – House of balloons (Independente)

Ele não é o primeiro da minha lista, mas foi o sujeito mais importante da música independente em 2011. A insone trilogia de mixtapes, completada por Thursday e Echoes of silence, apresenta um r&b de versos movidos a cocaína, garotas que vêm e vão, rodadas de drinques e noites intermináveis. Não dá para dizer com certeza se Abel Tesfaye, o cantor do Weeknd — produtores completam o time –, faz autobiografia ou uma ficção livremente inspirada na realidade. Tudo soa verdadeiro — e, ao mesmo tempo, perturbador demais para ser verdade.

 

3 Fleet Foxes – Helplessness blues (Sub Pop)

Os barbudinhos amadureceram. O adorável primeiro disco, lotado de hits, parecia uma homenagem de novatos às bases da música folk — CSNY, em especial, talvez The Band. No segundo trabalho, sai a ansiedade, e entra a sabedoria de músicos experientes: Helplessness é um disco paciente, que permite uma certa experimentação narrativa — com duas belas suítes — e um cuidado maior com as letras das canções. “After all is said and done I feel the same / All that I hoped would change within me stayed”, diz a breve Someone you’d admire. Difícil dizer se prefiro a ingenuidade do homônimo ou a velhice precoce deste. Melhor não eleger nenhum.

 

2 Destroyer – Kaputt (Merge)

Depois do King of limbs — é óbvio –, Kaputt foi o meu disco mais ouvido do ano. Os timbres oitentistas de Dan Bejar — texturas eletrônicas que parecem imersas numa nuvem de luzes neon, perfumes fortes e sufocantes colunas de fumaça, metais lindamente antiquados, backing vocals também antiquados — derramam uma melancolia que quase dá para pegar com as mãos. É impressionante o resultado sonoro de uma mistura tão improvável: voz folk, poesia quase sem sentido — afinal, “I”, no caso ele, “write poetry for myself” — e acordes tão luxuosos. Fino.

 

1 Bon Iver – Bon Iver, Bon Iver (Jagjaguwar)

Curioso. Só agorinha mesmo percebi que o primeiro da lista, o unânime Bon Iver ao quadrado, também é um disco perdido dos anos 1980 que por acaso foi lançado em 2011. Aquele Justin Vernon meio selvagemente tristonho do For Emma, forever ago continua presente, mas o que se nota (se escuta) aqui é uma enorme abertura sonora — estranho o folk dele ser tão sombrio, e o art-pop ser tão terno — e uma narrativa sentimental mais enigmática — às vezes, me parece irônica, o que só torna a audição ainda mais interessante. Estou meio cansado dessa lista e, para falar a verdade, passo a palavra pra ele. “Hair, old, long along /Your neck onto your shoulder blades / Always keep that message taped / Cross your breasts you won’t erase / I was only for your very space” (Calgary).

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Helplessness blues

abril 10, 2011 12:25 am Deixe um comentário

É, James Blake… Pensei que a estreia do inglês conseguiria sustentar a liderança na minha listinha de melhores do ano. Mas daí vem o Fleet Foxes com esse lindo — poderia pegar o Caldas Aulete ali no quarto para obter outros adjetivos, mas só penso em lindo — Helplessness blues. Melhor que o debut. Estou escutando sem parar.

De ontem para hoje, dormi vendo Fringe — mesmo adorando a terceira temporada, sem ironia alguma –, acordei às 5h, sobressaltado, fui para o quarto e coloquei o fone de ouvido. É costume cair no sono lá pela terceira, quarta faixa. Mas, com o Helplessness, fui até o fim. Só então adormeci.

Não tem hits — Your protector, Blue ridge mountains, Tiger mountain peasant song, essas e outras delícias do Fleet foxes, felizmente, ficaram em 2008. Neste, as referências parecem menos intrusivas — apesar de eu ter notado muita coisa do primeiro do Crosby, Stills & Nash e do David Crosby, If I could only remember my name, um dos meus favoritos de todos os tempos.

Comprei de um amigo do jornal a estreia dos Foxes (por R$ 10; ele comprou dois exemplares por esse valor na Fnac, acredite). No encarte que envolve o CD, junto com um mini pôster bem legal, a banda lista suas influências — e, olha, é uma lista bem grande, com CSN, Dylan, Joni Mitchell, até Joanna Newsom e mais duas dezenas de nomes importantes do folk, do folk rock e de música erudita. No site do selo, Sub Pop, Robin, vocalista, confessa, num texto pessoal, em primeira pessoa, as influências para o Helplessness. Vale a pena conferir — até porque estou um pouco desatento, vendo Brasil x Argentina pelo sub-17 e sem muita vontade de escrever bobagens elogiosas aqui.

Pois bem, o novo não tem nada de grudento — e eu adoro o grude do primero, hein –, é menos ambicioso, menos alegre, mais meditativo, mais particular. Enfim, é daqueles que dá vontade amanhecer o dia escutando. Fiz isso hoje. E as primeiras horas do sábado nunca pareceram tão longas e quietas.