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Drive (de novo)

março 2, 2012 12:27 pm Deixe um comentário

Sim, de novo. Drive já apareceu no blog outras vezes (aqui e aqui), mas aproveito a estreia no Brasil para divulgar um pequeno jabá, replicando minha crítica (a primeira 5/5 oficial, jornalisticamente oficial) que saiu hoje no Correio Braziliense.

Segue:

O personagem de Drive aparece em cena quase o tempo todo. E, ainda assim, quando o filme termina, não dá para dizer com certeza quem ele é. Primeiro: Ryan Gosling, do recente Tudo pelo poder, interpreta um protagonista sem nome. Ele somente dirige. Segundo: quando não está na oficina de Shannon (Bryan Cranston), reparando veículos alheios, empresta suas mãos tranquilas e firmes ao trabalho de dublê de títulos de Hollywood. Terceiro: às vezes, ronda pelas ruas quentes de Los Angeles com bandidos nervosos no banco de trás. Portanto, mecânico, motorista de fitas baratas de ação e piloto de fuga. Não parece, mas Drive é, sim, um grande filme.

O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, da trilogia Pusher e de outros pesadelos masculinos, como Bronson (2008) e Medo x (2003), adapta um livro homônimo, escrito por James Sallis, com um refinamento que falta à maioria dos filmes de ação — por aproximação, fica o exemplo da franquia Velozes e furiosos. A trama de Drive é simples de entender. Mas o acabamento, que deu a Refn o prêmio de direção no último Festival de Cannes, é um escândalo de luxo e sedução no uso da linguagem do cinema. Hollywood, coisa absurda, preferiu louvar apenas a edição de som, indicada ao Oscar.

O herói é de falas sucintas e olhares demorados. Ele conhece uma vizinha igualmente tímida, Irene (Carey Mulligan), mãe do pequeno Benicio (Kaden Leos). Standard (Oscar Isaac), pai do garoto, está na prisão. Após ser liberado do cárcere, é lembrado de que deve um bom dinheiro aos sujeitos que o protegeram durante o cumprimento da pena. O protagonista é um condutor e tanto, e Shannon, que manqueja devido a uns probleminhas arranjados com Nino (Ron Perlman), mafioso disfarçado de dono de restaurante, convence o endinheirado Bernie (Albert Brooks, indicado ao Globo de Ouro) a investir (US$ 300 mil) numa possível carreira de piloto profissional do sujeito vivido por Gosling.

Pois bem, em meio ao cotidiano lotado de atividades, o motorista, mesmo interessado em Irene, se oferece para ajudar Standard a conseguir a grana de que precisa para se livrar dos criminosos. A trama sobre um solitário misterioso evolui para um suspense intempestivo, de temperamento noir — a moça loira, o herói metido em perigos desconhecidos. Refn empacota dois roteiros em um só, numa projeção de luzes esparsas e sombras coloridas de vermelho e rosa. Tudo parece saído de um filme de “macho” confuso e exagerado dos anos 1980, algo como uma atualização de Taxi driver (1976) dirigida por Michael Mann (Fogo contra fogo). E é isso mesmo que o torna tão enigmático e atraente.

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2011 em: filmes

janeiro 1, 2012 4:49 pm 3 comentários

Nunca vi tantos filmes na vida como em 2011: 357, média de 29,75 por mês, 0,978 por dia. Uau. A lista seria outra se eu não tivesse ido — pela primeira vez — à Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Um encanto para qualquer cinéfilo.

Por isso, muita coisa que vi por lá entrou no meu top 10 de filmes mais interessantes de 2011. Vamos aos selecionados — e, bem, esta é uma lista bastante volátil, já que foi impossível ver todos os títulos importantes do derradeiro ano; amanhã mesmo o ranking pode mudar.

10 Ganhar ou ganhar — A vida é um jogo (Win win, EUA). De Thomas McCarthy. Com Paul Giamatti, Amy Ryan e Alex Shaffer. Drama/comédia, 106min.

Sagaz, este drama esportivo. Foi o último filme visto em 2011, e tomou o lugar que poderia ser de Habemus papam, Margin call ou Martha Marcy May Marlene. Não tem nada de brilhante — é um título-Sundance que você sabe como vai acabar desde o primeiro plano –, mas é um indie de personagens sinceros, falhos, afetuosos. Tom McCarthy desafia o espectador a se importar com todos eles — especialmente o Paul Giamatti como um advogado que vive no limite entre um homem compassivo e apenas um homem que posa de solidário para conseguir um dinheirinho extra.

 

9 A pele que habito (La piel que habito, Espanha). De Pedro Almodóvar. Com Antonio Banderas, Elena Anaya e Jan Cornet. Thriller, 117min.

Lembro que entrei na sessão achando que veria uma reprise de Vanilla sky. Baita engano. Saí da sala escura com a impressão de que acabara de assistir a um dos meus favoritos do queridinho-do-público-de-cinema-de-arte. É chocante e vibrante como qualquer outra coisa que ele tenha feito. Mas é cru, cruel, corpóreo, patológico: um body horror à Almodóvar — kitsch à beça –, sem arroubos em vermelho ou concessões fáceis ao melodrama. Até quando parece ser sóbrio — um filme-exame em vez de um filme-romance –, o diretor é malcriado, provocador, sensual.

 

8 Isto não é um filme (In film nist, Irã). De Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb. Com Jafar Panahi. Documentário, 75min.

Em prisão domiciliar, Panahi não tem muito o que fazer a não ser falar sobre o filme que o governo iraniano não o deixa fazer. E, literalmente, ele conta e narra cenas do roteiro que, provavelmente, não ganhará as telas tão cedo — a dramatização de um dos trechos lembra a improvisação de Dogville, com marcações no chão e coisas do tipo. Num processo documental bastante amador — com uma câmera à sua frente o tempo inteiro –, ele e seu parceiro Mirtahmasb descrevem as angústias de ser cineasta numa terra tão hostil à liberdade de expressão, em que o único filme possível é, na verdade, um não-filme.

 

7 Era uma vez na Anatólia (Bir Zamanlar Anadolu’da, Turquia/Bósnia e Herzegovina). De Nuri Bilge Ceylan. Com Muhammet Uzuner, Yilmaz Erdogan e Taner Birsel. Drama, 150min.

O misterioso cinema de Ceylan — planos pictóricos, diálogos econômicos — serve perfeitamente à trama de investigação que ele elabora. Com a paciência de um Wim Wenders, mas uma frieza quase solene, ele acompanha a busca de um grupo de detetives por um corpo enterrado nas bucólicas estepes da Anatólia. E, acredite, a simples rotina de viajar com um suspeito por estradinhas solitárias, parando quase de quilômetro em quilômetro a cada sinal do acusado, toma praticamente 1/3 de todo o filme. Assim que o corpo é encontrado, Ceylan espalha-se em breves subtramas e observações sobre costumes interioranos até a chegada do suspeito à cidade, os habitantes em fúria, a reveladora autópsia e o luto contido da família do morto. São 150 minutos de filme e, para a alegria de quem consegue vê-lo até o fim, nada nele parece dispensável ou excessivo.

 

6 Missão madrinha de casamento (Bridesmaids, EUA). De Paul Feig. Com Kristen Wiig, Maya Rudolph e Rose Byrne. Comédia, 125min.

Vou resumir em classificações preguiçosas. Melhor comédia do ano. Melhor elenco feminino do ano — Melissa McCarthy merece menção honrosa como melhor coadjuvante. Melhor roteiro de comédia do ano — da também protagonista Kristen Wiig, uma apaixonante-loser-com-mais-de-30. Melhor título com a marca de Judd Apatow. Por fim, muito mais que uma versão feminina de Se beber, não case!. Após tantas comédias adultas e buddy movies obcecados pelo universo masculino — a influência e o sucesso de Apatow a partir de O virgem de 40 anos também inspiraram uma porção de canalhices da dupla Dugan/Sandler –, finalmente Hollywood abriu caminho para as garotas (crescidinhas).

 

5 The day he arrives (Book chon bang hyang, Coreia do Sul). De Hong Sang-soo. Com Yu Jun-sang, Kim Sang-joong e Seon-Mi Song. Drama, 79min.

Sabia quase nada do Sang-soo quando comprei ingresso para este aqui, lá na Mostra SP. E, para o meu espanto, me apareceu na tela um romance em preto e branco cheio de juventude e frescor, com claras referências às comédias autoirônicas de Woody Allen e aos personagens sentimentalmente confusos de Éric Rohmer. É nesse equilíbrio dramático que o coreano narra a estadia de um professor e cineasta numa vila ao norte de Seul. A premissa é um tanto trivial. Mas Sang-soo captura cada encontro, diálogo, esbarrão e até uma simples rodada de drinques com uma naturalidade que lhe permite ser bem-humorado sem descuidar de alguma seriedade — afinal, o professor sofre com suas paixões pela profissão e pelas mulheres que conhece em suas andanças. Um charme.

 

4 Super 8 (EUA). De J.J. Abrams. Com Elle Fanning, Amanda Michalka e Kyle Chandler. Ficção científica, 112min.

No filme mais Sessão da tarde dos últimos anos — não via algo assim tão deliciosamente nostálgico desde Adventureland e sua melancolia à John Hughes –, Abrams faz um divertido tributo àquele cinemão-família de Hollywood que vigorou da metade dos anos 1970 até o fim dos anos 1980, e que, digam o que quiserem, pariu clássicos absolutos da infância de muita gente. Super 8 pode ser visto como um crossover do suspense paranoico de Contatos imediatos de terceiro grau, do carinho de E.T., das amizades de Os Goonies e Conta comigo, com citações de Carpenter, Zemeckis e os já conhecidos truques (autorais?) de Abrams — as câmeras em diagonal, a fotografia azulada, os flares atravessando a tela pra lá e pra cá.

 

3 Fora de satã (Hors satan, França). De Bruno Dumont. Com David Dewaele, Alexandra Lemâtre e Christophe Bon. Terror, 110min.

Um sujeito com a barba por fazer perambula por cidadezinhas da França. Numa delas, é recebido por uma jovem de visual meio Lisbeth Salander. Dela, recebe comida, abrigo — ela sente atração por ele, mas o forasteiro parece completamente desinteressado. Ela sofre com um padrastro violento. Pois o estranho, que de vez em quando se ajoelha e faz preces, mata o sujeito. E, se ela precisar acertar as contas com mais gente, ele está ali para dar conta do recado. Dumont e seu terror rústico, feito de planos longos e parados, examina o mal sem qualquer cerimônia. Os diálogos são secos, quase estúpidos de tão banais. As atuações, planas — este estrangeiro é bem tímido para um diabo encarnado. O resultado final, perturbador por semanas.

 

2 O garoto da bicicleta (Le gamin au vélo, Bélgica/França/Itália). De Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Thomas Doret, Cécile De France e Jérémie Renier. Drama, 87min.

Os irmãos Dardenne corriam sérios riscos aqui: de fazer um drama infantil ingênuo, bobinho — poderia ser involuntariamente cômico –, ou de repetir os equívocos de O silêncio de Lorna, em que eles atacam um problema de ordem social — a imigração — sem muita segurança. Nem um, nem outro. O garoto da bicicleta é um cinema maduro — a câmera até parece estar mais longe da ação que de costume –, com breves acréscimos de trilha sonora — posso estar enganado, mas é novidade no cinema deles — e uma narrativa “física” — com os já conhecidos arranhões e fugas desesperadas — intensificada por cores fortes. Um belo retorno às aflições particulares e universais de pessoas comuns — no caso, a de um garoto com um pai que o despreza. Só não é melhor que Rosetta, a primeira Palma de Ouro da dupla.

 

1 Drive (EUA). De Nicolas Winding Refn. Com Ryan Gosling, Carey Mulligan e Bryan Cranston. Thriller, 100min.

Só para efeito de informação — falar do “eleito” é sempre muito trabalhoso. Ainda não almocei. Então, a seguir copio um trecho do post publicado há dois meses. Para resumir em poucas palavras — já que a situação, como Drive, pede mais estilo que substância: é um título de ação neo-noir ultrafashion, emplastrado de referências oitentistas — da trilha sonora de um pop aveludado à fotografia dark neon, colorida de tons de vermelho. De longe, a melhor coisa do gênero (de ação) desde Heat (1995, hein), de Michael Mann, que aqui no Brasil chamam de Fogo contra fogo. Mui elegante.

Drive

outubro 17, 2011 10:15 pm 1 comentário

O Ryan Gosling de Drive (4.5/5) — o primeiro cult da década de 2010, eu acho — não tem nome. Ele é o Driver, o motorista, um dublê de Hollywood e um mecânico esforçado — e só. Usa luvas de couro, tênis e calças apertados e uma jaqueta branca, “tatuada” com um escorpião nas costas. Se alguém lhe faz uma pergunta, ele devolve a resposta cinco, quase dez segundos depois, e com uma cadência desapressada. O herói de Nicolas Winding Refn é o “homem solitário de Deus” pós-moderno (o original é o Travis Bickle de Taxi driver): violento, mas com uma centelha de humanidade; caladão, mas de frases precisas.

Para resumir em poucas palavras — já que a situação pede mais estilo que substância: é um título de ação neo-noir ultrafashion (a GQ fez até um guia sobre o assunto), emplastrado de referências oitentistas — da trilha sonora de um pop aveludado (e, estranho, tem samples da trilha de A rede social; desconfio que a minha cópia seja fake, e outros fãs também perceberam isso) à fotografia dark neon, colorida de tons de vermelho. De longe, a melhor coisa do gênero desde Heat (1995, hein), de Michael Mann, que aqui no Brasil chamam de Fogo contra fogo. Fino.