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Retalhos

abril 17, 2011 11:25 pm 2 comentários

Terça passada viajei para o Rio de Janeiro. Fui cobrir o lançamento de Velozes e furiosos 5 – Operação Rio — que é ruim, claro. Não deu pra conhecer a cidade, o que já fiz em parte, em janeiro de 2001, na minha única visita à cidade. Mesmo assim, tenho lembranças fracas: banners enormes de Limite vertical e O sexto dia — filmes que adorei quando vi pela primeira vez — e a estrutura do Rock in Rio sendo desmontada. Fora uma caminhada forçada — já que o motorista nos largou, eu e mais dois jornalistas, a oito quadras do hotel –, não deu pra ver muita coisa. Mas isso não interessa agora.

Fui e voltei lendo Retalhos no avião, essa graphic novel insuportavelmente bela de Craig Thompson.

É um romance de formação em quadrinhos. Thompson cresceu numa família cristã (fanática), escutando sermões amedrontadores e lendo passagens bíblicas que exigiam fé irrestrita. Ele se expressava por meio do desenho, era malhado pelos colegas da escola por causa do cabelo que cobria as orelhas e dividiu a mesma cama com o irmão por um tempão.

Num acampamento religioso, veio a libertação: ele conhece Raina, por quem se apaixona de imediato. E ele a ama do seu jeito, com ideais angelicais de pureza e outras tantas ingenuidades desconcertantes de um cara de 17 anos que passou a adolescência inteira acreditando que a vida na terra é passageira, pecaminosa, enfim, é “canseira e enfado” — o que vem depois é o gozo eterno, louvores infinitos ao bom Deus que salvou Craig do pecado.

Thompson não precisa atacar o cristianismo para evidenciar seu passado. Ele é levemente irônico em algumas passagens, e fixa a narrativa numa progressão acidentada, fragmentada mesmo, desenvolvendo o temperamento do Craig adolescente e jovem enquanto investiga a infância. Retalhos tem traços simbólicos, alguns fantasmagóricos, e delicados. Thompson traduz amor, decepção e opressão com sensibilidade arrepiante. É um tratado gráfico rasgado e delicado sobre o primeiro amor.

O que vou dizer agora é um absurdo. Achei Retalhos um pouco parecido com Diário da queda, livro de Michel Laub a que dediquei um post há poucas semanas: nos dois, o protagonista é massacrado pela persistência da memória, mas sabe seguir em frente. Na HQ, assuntos mal resolvidos da infância e recordações recentes de uma ditadura do pensamento, imposta pelo protestantismo e pelos pais. No romance, a história de sofrimento dos judeus tritura e distorce o comportamento do principal.

Como é bom deixar uma marca na superfície branca. Fazer um mapa dos meu passos… mesmo que seja temporário.

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Diário da queda

abril 2, 2011 12:21 am 1 comentário

Diário da queda. De Michel Laub. Pra mim, fácil, fácil mesmo, o melhor livro do ano. Peguei um exemplar novinho com uma amiga do jornal, despreparado para o que iria ler: uma ficção breve mas densa, que me fez viajar de volta para o ano de 2008, quando comecei a ler Kafka, quando li Carta ao pai e, a cada viagem de ônibus que fazia de volta pra casa, com o livro nas mãos, perto da minha quadra, via-me naquelas páginas todas.

Não sou judeu — sou de origens cristãs. Mas imagino que aquele fardo que tanto aflige o judeu — a sensação de que o mundo está contra ele, de que ele foi, é e sempre será indivíduo de um povo odiado; pelo menos ele é domesticado a se sentir assim, acredito — é, de certa maneira, semelhante ao que causa um cansaço permanente nos ombros do cristão: a rigor ele, também, é ensinado a pensar que todas as pessoas são ruins, e, ele, “justo”, “sal da terra”, “luz do mundo”, deve ser aquele quem deve ensiná-las o caminho da salvação, ensiná-las que o pecado conduz à morte — ou mesmo ensiná-las a crer que o pecado existe –, que o não reconhecimento do sacrifício de Cristo significa aderir ao Diabo, aos seus asseclas e ao fogo eterno.

O livro de Laub, episódico, dividido em pequenos verbetes, narra a trajetória de um garoto de existência esfacelada: vive à sombra da história do avô, sobrevivente de Auschwitz, um velho que passou o resto de seus dias escrevendo um diário incomum. E não há nenhuma menção ao campo de concentração nesses escritos, nem mesmo um nome sequer. O garoto cresceu sem entender muito bem como o sofrimento de seu povo poderia se relacionar à sua vida e ao relacionamento com o pai, um homem que leu os cadernos de seu pai estupefato, sem entender a falta de registro dos horrores da guerra. Ou melhor, por que esse sofrimento deveria ter conexão com a sua vida e o relacionamento com o pai.

O narrador, que perpassa a sua adolescência e os anos atuais — ele aos 40 anos, escritor beberrão, no terceiro casamento e com um pai envolvido pelo Mal de Alzheimer –, tece uma investigação memorial (e emocional) de si mesmo, do pai e do avô. Por fim, ele decide — ou não decide, cabe a você ler para conferir — se leva consigo os paradigmas do judaísmo, de Auschwitz e os traumas de seu povo, que ele aprendeu a sentir sem nem mesmo ter sido vítima do holocausto, adiante.

Diário da queda é doloroso. Mas as últimas páginas são edificantes — para judeus e cristãos e não judeus e não cristãos.