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2012 em: discos

dezembro 31, 2012 6:52 pm Deixe um comentário

Listas, de fato, não servem para absolutamente nada, nadinha mesmo. São equivocadas, arrogantes, quando não aborrecidas, imprestáveis — coisas que se aplicam ao meu apanhado de 2012. Autodepreciação e falsa modéstia à parte, enumero abaixo as audições mais agradáveis e destemidas do ano — e, mais abaixo, uma relação das mais irritantes e preguiçosas.

20 Melody’s Echo Chamber – Melody’s Echo Chamber (Fat Possum)

19 Swans – The seer (Young God)

18 Hot Chip – In our heads (Domino)

17 John Talabot – ƒIN (Permanent Vacation)

16 Cat Power – Sun (Matador)

15 Bat for Lashes – The haunted man (Parlophone)

14 Grizzly Bear – Shields (Warp)

13 Lee Fields – Faithful man (Truth & Soul)

12 The Tallest Man on Earth – There’s no leaving now (Dead Oceans)

11 Burial – Kindred EP (Hyperdub)

10 Fiona Apple – The idler wheel is wiser than the driver of the screw and whipping cords will serve you more than ropes will ever do (Epic)

10 fiona appleEla realmente voltou: com um polvo na cabeça e a delicadeza de uma voz que sussurra, imita cantos celestiais, lamenta as dores terrenas, esboça malícia e docilidade, e sempre soa tão estranha e aconchegante quanto as músicas entoadas. Acho que ela tem discos melhores — When the pawn… ou mesmo a versão subterrânea do Extraordinary machine produzida pelo Jon Brion. De qualquer modo, o disco é belo e esquisito de um jeito todo Fiona.

Top 3: Every single night, Left alone e Werewolf.

 

9 Dirty Projectors – Swing lo magellan (Domino)

9 dirtyNão tenho problemas com o Bitte orca, mas a sequência agrada por seguir exatamente em sentido contrário ao tomado pelo anterior: saem as firulas enfeitiçantes e entram grooves inesperados (algo à Fleetwood Mac) e modulações vocais que não se ouvem com frequência em discos indie roqueiros por aí. Os nova-iorquinos abrem o estúdio para orquestrações e timbres de soul — e, veja você, parecem, a um só tempo, relaxados e aventureiros.

Top 3About to dieDance for you e See what she seeing.

 

8 Jessie Ware – Devotion (Island/PMR)

8 jessieA revelação do ano — e autora do melhor álbum pop do ano — surge como resposta perfeita à (já esfriada) febre Adele: é responsável nos agudos, é radiofônica sem ceder a melodias bregas e guarda algum mistério nos seus arpejos de música eletrônica, nas suas ambientações de lounge, nas slow jams mui suaves (olha o pleonasmo) e nas zonas cavernosas trazidas da experiência no dubstep. Pronto: isso, sim, é sophisti-pop.

Top 3: Wildest moments, No to love e 110%.

 

7 Death Grips – The money store (Epic)

7 death gripsÉ o resultado de uma colisão violenta de hip hop, punk e proselitismo de MC, com uma barulheira eletrônica digna de Aphex Twin e uma gritaria rapper das mais briguentas e agressivas. É um álbum, de fato, estressante — e estressado –, quase extenuante de tão perverso, e, talvez por isso, inquieto, pontiagudo, de emplastros sonoros que ferem e agradam os ouvidos. O recado está dado na última faixa, Hacker: I’M IN YOUR AREA.

Top 3: Get gotBitch please e Hacker.

 

6 Suíte Super Luxo – Entre a piscina e o trampolim (independente)

6 suiteNem parece a mesma banda que, há sete anos, lançou o El toro, uma estreia pulsante e revoltada. E não, a metamorfose não significou “maturidade artística” ou bobagens do tipo: a (demorada) continuação é de baladas roqueiras brincalhonas, ensolaradas, praianas — ou piscineiras, que seja — e ironias sobre a porção de concreto em que moram (Brasília, precisamente descrita em Fotografia verborrágica quilométrica). Só consigo definir essa belezura como algo entre a fanfarronice dos Pixies e o romantismo do Best Coast. É por aí.

Top 3: FavasJasmim e Cabeleiras do mar.

 

5 Tame Impala – Lonerism (Modular)

A4 tame impalah, os vocais lennonescos — lennonianos, whatever –, ah, os rasgos de psicodelia sessentista e, bem, pop sessentista! É uma colagem grudenta da genialidade lampejante de Lennon com o vanguardismo de resultados de McCartney. Mas nem só de Beatles vivem Kevin Parker e seus amigos: Lonerism é um alucinógeno infinitamente menos empolado e mais esperto que qualquer coisa de Animal Collective, MGMT, of Montreal et al.

Top 3Mind mischiefFeels like we only go backwards e Why won’t they talk to me?.

 

4 Kendrick Lamar – good kid, m.A.A.d city (Interscope/Aftermath)

4 kendrickA narrativa errática, os contos urbanos de sobrevivência, o espírito imberbe, o diálogo com o passado (o gangsta, a participação e os pitacos de Dr. Dre) e a atualidade (o swag, a ótima contribuição de Drake) do rap. Não são poucos os elementos que fazem do segundo trabalho de estúdio de Lamar uma das preciosidades de 2012 — e a melhor coisa do hip hop confessional desde My beautiful dark twisted fantasy.

Top 3: Money treesPoetic justice e Compton.

 

3 Sharon Van Etten – Tramp (Jagjaguwar)

3 sharonÉ a crônica de uma cantora sem-teto, desamparada, largada, esquecida, autocomiserativa, traída, feita de letras que dizem, na ordem da mais cortante para a menos cortante, 1) você que cave sua própria cova (Kevin’s), 2) bem, bem, estou mal (Leonard), 3) quando você estava do meu lado, o mundo era uma merda (In line) e outras mágoas. Sim, como já deu pra perceber: um disco deprê, aham, fúnebre, ok, mas que enterra abandono para desenterrar afeto.

Top 3: Give outIn line e All I can.

 

2 Beach House – Bloom (Sub Pop)

2 beach houseMeu favorito do duo ousa soar menos cerebral e mais assobiável do que de costume — do que o Teen dream, por exemplo –, numa coleção hipnotizante de músicas movidas por beats parecidas, timbres parecidos, mas que exibem, na verdade, uma expansão sonora drástica e transmitem um alívio necessário — ou uma catarse necessária — após os louvores ao álbum predecessor. (Mais aqui.)

Top 3: WildLazuli e Wishes.

 

1 Frank Ocean – Channel orange (Def Jam)

1 frank oceanExplico a primeira posição com uma declaração que vi na página do disco no Rate Your Music, uma rede social viciante, rouba-tempo, meu-Deus-já-é-madrugada-e-eu-ainda-estou-aqui-dando-estrelinha-a-torto-e-a-direito, em que é possível votar nos álbuns que você ouviu, nos filmes que você viu e ler coisas assim: about five songs into this record I said to myself, “I should have sex with my wife.”

Top 3: Sweet lifeSuper rich kids e Pyramids.

 

E os detestáveis…

10 of Montreal – Paralytic stalks (Polyvinyl)

9 Mumford & Sons – Babel (Island)

8 Howler – America give up (Rough Trade)

7 The Vaccines – Come of age (Columbia)

Xiu Xiu – Always (Bella Union)

5 Die Antwoord – TEN$ION (Zef)

4 Amanda Mair – Amanda Mair (Labrador)

3 Alanis Morissette – Havoc and bright lights (Collective Sounds)

2 Kid Rock – Rebel soul (Atlantic)

1 Maroon 5 – Overexposed (A&M/Octone)

Bloom

março 29, 2012 8:29 pm Deixe um comentário

Como vazou rápido esse novo do Beach House, hein? Tanto que fui pego de surpresa. Há uns dez dias, um amigo me passou o precioso link para download do disco por DM, no Twitter. Horas depois, em casa, coloquei pra tocar. E lembrei, logo de cara, da faixa de abertura, Myth, que o duo tinha liberado para audição no site da banda. Uma canção, coisa curiosa (e inédita), dum dream pop bem acessível. Felizmente, as progressões “simples” — entre aspas porque com o Beach House as coisas nunca são tão simples e comuns assim — que abrem o disco imantam todo o quarto trabalho de estúdio.

Bloom (4/5) é uma sequência inesperada do ótimo Teen dream, presença obrigatória nas listas de melhores de 2010: menos experimental que o anterior — na novidade, quase dá para demarcar timbres de vozes, percussão e arranjos eletrônicos –, num arco de canções assobiáveis, redondinhas e, olha só, até grudentas. Soou nos meus ouvidos como um encontro das marchas fúnebres e ruidosas do Halcyon digest, o melhor (e, caramba, também quarto álbum) do Deerhunter — outro negócio indispensável de 2010 — com as baladas do debut do Cults.

Mas, vá lá, se você não acredita no que eu disse, reproduzo a seguir um trecho do mini-release que encontrei (depois de escrever os parágrafos acima, claro) na página da Sub Pop. Toma: “Bloom is meant to be experienced as an ALBUM, a singular, unified vision of the world. Though not stripped down, the many layers of Bloom are uncomplicated and meticulously constructed to ensure there is no waste”. Sacou?

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