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Biff – Dia 3

julho 15, 2012 11:42 am 1 comentário

Ainda tenho problemas com o formato do Biff — eu queria um braço da Mostra SP em Brasília, um painel com o melhor de Cannes, Berlim, Veneza e Sundance e, se possível, Slamdance também. Mas, pelo que vi até agora nesta primeira edição, nem posso reclamar muito. Without — falando nisso, um filme Slamdance — muito me agradou. Meu segundo favorito deste festival apareceu pra mim no terceiro dia: é o colombiano La playa D.C., que passou no Un Certain Regard de Cannes. No mesmo dia, este longo sábado 13/7, confirmei minhas suspeitas sobre Bel ami, que nem deveria estar no Biff — ainda mais em competição; entra em cartaz já, já, pela California Filmes, ora — e saí com sentimentos confusos do alemão Os esquecidos. Ao trabalho.

La playa D.C., de Juan Andrés Arango. 3.5/5

Arango, um colombiano branco, dirige um hood film situado nas ruas perigosas de Bogotá. É um drama sobre desaparecimento, sobre um irmão adolescente tentando encontrar o outro, o mais velho à procura do mais novo, um baixinho encrenqueiro, que “mexeu com as pessoas erradas”, deve dezenas de milhares de pesos a uns e outros, e não parece atinar com o perigo da vida que leva. Tomas, o mais velho, sai de casa — a mãe casou e teve um bebê com um branco –, e se aproxima de Chaco, um sujeito, um bro que fatura uns trocados deixando rodas de veículos de homens brancos tinindo, que retoca placas de carros desses mesmos homens brancos desconfiados, amedrontados de graça, por nada.

Nesta Bogotá, não se pode ser negro e andar num shopping sem ser interrompido e repreendido por um trio de policiais — dois brancos e um negro. Aqui, há material e personagens suficientes para um acerto de contas de Arango com seus espectadores brancos. Mas o diretor não é agressivo, não aponta dedos raivosos, não identifica culpados. Ele só quer contar uma história de sobrevivência, em que essa ansiedade da busca catalisa mudança e oportunidade. Chaco tem uns amigos que sabem cortar e esculpir cabelo, manejando cortador e lâmina — ser negro nesse lugar requer demarcação de território, e isso se dá pelo couro cabeludo entalhado, pela escultura no topo da cabeça, pela cicatriz temporária que avisa, eu estou aqui, eu respiro e acordo e trabalho e durmo como vocês.

Tomas vira aprendiz. Tomas flerta com uma garota branca que também corta cabelo ali perto — o elo fraco da trama; as cenas de sonho também não vingam. Tomas finalmente recupera o irmão, mas o menino já parece plenamente decidido da sua vocação — viver e morrer no submundo. Arango observa a periferia com um olhar íntimo, urgente — a câmera na mão do operador e no rosto do personagem. Não dá saída fácil, mas vê dignidade onde só parece haver perda e dureza. Arango enxerga, enquanto cineasta, cor e estilo nesse mundo.

Os esquecidos (Die vermissten), de Jan Speckenbach. 2.5/5

Mais um sobre um sumiço e um protagonista que, na precariedade da procura, acaba se encontrando. Lothar (André Hennicke, um tipo meio Christoph Waltz) cuida da segurança de usinas nucleares, tem um relacionamento estável com a segunda mulher, mas nunca revelou a ela que tem uma filha de 14 anos e que mal a viu crescer nos últimos sete. A garota evapora, a mãe não sabe o que fazer, e Lothar surta, arregala os olhos a cada esquina lotada de adolescentes, projeta, numa garota desconhecida para quem deu carona uma vez, o cuidado que sempre negou à filha: é a obsessão pelo desaparecimento — ou pela culpa que o aflige com atraso. E ele começa a perceber que outras crianças também estão sumindo.

Vejo esse colapso do personagem — um drama pessoal e universal — como uma metáfora do desarranjo econômico, de uma classe endinheirada que se vê ameaçada pelo insucesso do consumo e do capitalismo e das ilusões de poder e autoestima neles inscritos. Lothar visita uma outra geografia urbana, desagradável e espinhosa — imagino, aqui meio sonolento, uma alegoria às Alemanhas mutiladas pelo muro. Balaio de boas ideias. Mas Speckenbach resolve esses deslocamentos espaciais e existenciais com soluções simplistas de direção — o mesmo plano para começar e finalizar o filme, por exemplo. E, no geral, a chance desperdiçada de ter amplificado o ar paranoico de Lothar e do clima ligeiramente à Body snatchers. Um tanto tímido e restrito demais.

Bel Ami — O sedutor (Bel Ami), de Declan Donnellan e Nick Ormerod. 2/5

O principal defeito é não saber muito bem por que as personagens de Christina Ricci, Uma Thurman e Kristin Scott Thomas estão tão caidinhas pelo Pattinson, um soldado que serviu no norte da África e agora se estabelece em Paris como um novo rico. Ou Pattinson é um ator realmente inexpressivo, ou a persona do ex-combatente é escassamente desenvolvida. A falta de sutileza torna a rede de negociações amorosas regida por Georges Duroy (Pattinson), em que se deitar com a mulher do próximo pode significar degraus vencidos na escadaria social, um enfeite a mais, um drinque extra. Donnellan e Ormerod estão mais preocupados em acertar vestidos, maquiagens, cortes de cabelo, joias, mobília. Os flertes de hipocrisia e crueldade estão encobertos por cerimônias e cortesias — e por tecido em cima de tecido.

Biff – Dias 1 e 2

julho 14, 2012 2:07 am 3 comentários

Começou quinta-feira o primeiro Brasília International Film Festival, o Biff. Ok, tá longe de ser um Tiff (não tem première, as projeções ocorrem em formato de mostra), mas eu subitamente me animei e, até o dia 22 (quando termina o negócio), posto aqui um diário relapso, cansativo e esforçado com resenhas curtinhas dos títulos que verei durante o programa de filmes, quase todos inéditos no Brasil — sei que vi Oslo, 31 de agosto na Mostra SP 2011, e sei que ainda não gosto dele.

São 50 e poucos (12 em competição), vindos de 30 e poucos países. Hoje, começo com uns pitacos sobre o filme de abertura, o arrumadinho Na estrada, e alguns elogios a Francine e Without (em competição), dois indies americanos austeros e assustadores.

Ausência (Without), de Mark Jackson. 3.5/5

Não me entenda mal. Mas este filme de estreia é uma espécie de Atividade paranormal para o público de arte. Eu explico. Uma mulher de 19 anos toma uma barca para uma ilha distante, onde passa alguns dias cuidando de um velhinho inválido. A rotina é tediosa, cheia de detalhes de arrumação e enfermaria chatíssimos, que o casal que a contratou deixou descritos num planfleto chamado ironicamente de A Bíblia. Joslyn Jensen, personagem e atriz — e futura musa do cinema indie, eu espero –, não tem internet nem sinal decente de celular. No tempo livre, fixa os olhos em fotos da namorada no iPhone e ouve música até cabecear e então dormir. Todas as manhãs, antes de malhar e preparar a primeira refeição de Frank, nota, ao ser acordada pelo despertardor, que o celular vibra em cima do peitoril da janela do quarto. E ela sempre deixa o aparelho à mão, na escrivaninha. Existe algo de sinistro nessa casa, também.

Mark Jackson (diretor, roteirista, montador), num primeiro filme consistente, de desenvolvimento sutil, pouco a pouco, imprime tensão ao que parece enfadonho, besta — o plano que observa Joslyn na cozinha, de costas para a câmera, diante de uma janela enegrecida pela noite, amedronta pelo simples silêncio natural do cômodo; a trilha também é sorrateira, calada. Interrompo a enumeração de spoilers agora mesmo. Pois Without merece ser assistido com despreparo. Na superfície, é um horror haunted house ajeitado. No fundo, uma abordagem inesperada do luto, num filme teen que ousa ser despudorado.

Francine, de Brian M. Cassidy e Melanie Shatzky. 3/5

Uma Melissa Leo contida, cativa de incapacidades emocionais é uma Melissa Leo assombrosamente rígida, seca, crua. Neste Francine, que passou no Forum do Berlinale e atraiu boas resenhas, a atriz de Rio congelado e O vencedor interpreta uma mulher de ar pesado, derrotado, que acaba de sair da prisão. Esta cena (a da saída do cárcere) nos é mostrada, depois que Melissa, o corpo todo à mostra, toma banho, veste trajes cor de laranja e recebe a notícia de que sim, Francine, vai dar tudo certo lá fora, não se preocupe, a vida em liberdade é muito melhor. Não é, não. Francine parece ter desaprendido a conversar/lidar com pessoas, mas consegue alguns empregos na pequena cidade em que vive — num pet shop, num estábulo, numa clínica veterinária.

Ela não é má. Ela transa com um desconhecido, dá um beijo numa mulher cristã. As coisas acontecem fora de controle. Ela só consegue se comunicar com segurança abraçando, embalando, acariciando gatos, ratos, cães. Cassidy e Shatzky, novatos em longas de ficção, dão à protagonista tons pálidos, em enquadramentos que não a deixam em paz. Francine é a encarnação da desarticulação social, num microcosmo que só faz sentido na sua estranheza das coisas, na sua inadaptação aos ritos, às cerimônias, aos tratos, às cortesias, às rupturas. Bruto, rústico — e muito humano em seu sofrimento.

Na estrada (On the road), de Walter Salles. 2.5/5

Toda vez que deparo com filmes sobre hippies — ou, no caso, pré-hippies –, coço a cabeça, abro a boca em bocejos de aborrecimento até constatar, de novo, que Easy rider, ou Sem destino, ainda é o filme definitivo, o filme que encerra o assunto pra sempre — we blew it, é isso, fim de papo. Por isso, On the road soa tão datado e bem comportado nas mãos de Salles — um diretor de road movies pouco empolgantes, apesar da minha defesa resistente de Central do Brasil e Abril despedaçado, os únicos dele que poderia ver de novo sem me enfastiar. A adaptação do livro de Kerouac é um jorro de planos interrompidos — com cortes dentro do plano –, de uma banda sonora de doer os ouvidos, mas não de jornadas arrebatadoras, febris, liberadoras. Uns palavrões aqui e ali, nudez observada com reservas, sexo resumido em closes. Cinema rico e de recato.