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Biff – penúltimo/segundo dia

junho 23, 2013 11:28 am 1 comentário

Sem rodeios, despejo sentenças rápidas e ríspidas sobre uma versão mexicana e sisuda de Domésticas — aham, o do Meirelles mesmo e não o doc do Gabriel Mascaro — e um irritante crowd-pleaser taiwanês que, como avaliou a amiga que viu o filme comigo, caberia num episódio de Glee. Nunca consegui sequer TERMINAR um capítulo da série na vida, mas concordei sem pestanejar.

Às pedradas:

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Workers, de José Luis Valle. 2.5/5

Um filme de estreia que se entrega como filme de estreia a todo instante: excessivo, deslumbrado com as posições sociais que põe à mesa e insistente nas dualidades que deseja escancarar. De um lado, um faxineiro duma fábrica de lâmpadas da Philips — ofício que só descobrimos com sei lá quantos minutos de projeção — com trinta anos de casa que não consegue se aposentar por causa da completa falta de humanidade do CEO. Do outro, uma governanta, uma jovem doméstica abusada na infância por um vizinho norte-americano, um motorista que dirige um Mercedes há 30 anos (e nunca pôde comprar seu próprio coche) e dois enforcers que, há anos, obedecem às ordens de uma velha rica e sua Princesa — uma cadela tratada como filha caçula.

Valle é habilidoso e paciente com a câmera, não há dúvidas disso — a precisão simbólica de alguns planos impressiona, espelhos fronteiriços entre Tijuana e EUA, faxineiro mudo de tão infeliz e governanta muda de tão infeliz, ambos pela morte de uma criança de três anos, nos anos 1960, na piscina da casa da patroa. Workers é rotineiro em seus planos a ponto de estimular, a partir do tédio, da imobilidade social, pequenos atos de vingança de um e de outro — o faxineiro quebra lâmpadas discretamente, deixa torneiras abertas, desperdiça papel higiênico e, só agora percebo, aprende a ler com um garoto que conheceu na praça só para, dez após o início das aulas particulares, ser capaz de assinar a própria demissão e deixar o emprego com alguma dignidade; e a governanta, aliada aos outros, decide matar a Princesa aos poucos, sabotando a rotina de dondoca do bicho com ruídos, mudanças de rotina, alimentação e outras pequenas crueldades que nós, enquanto público, aprovamos silenciosamente.

Eis o curioso deslize: Valle, também ele, abusa da força dessas réplicas, largando ao longo dos 120 minutos de filme uma porção de quinas, nós frouxos e banalidades. A revolta silenciosa do proletariado, aqui, é cozida em fogo baixo. Mas, no fim, também queima — e como queima.

touch of the light foto

Um toque de luz (Ni guang fei xiang), de Chang Jung-Chi. 2/5

Olha, como atacante de todo e qualquer herdeiro de Rain man ou I am Sam e suas mutações, devo dizer que este aqui, chancelado logo na primeira cartela de créditos iniciais com um discreto A WONG KAR-WAI PRESENTATION, muito me irritou. Um menino cego — de interpretação genuína, é preciso dizer –, pianista desde novinho, 1) começa a faculdade de música, 2) enfrenta toda sorte de apertos — de caminhar pelos corredores do campus a ser respeitado pelos colegas –, 3) divide o quarto com um nerd gordinho fabricado para ser um perdedor tão engraçado quanto um Jonah Hill, 4) conhece uma caixa de lanchonete que sonha em ser bailarina — e por ela é friendzonado, 5) e, se você já viu — e eu sei que já viu — O lado bom da vida ou qualquer outro filme-gracinha sobre losers que vencem concursos musicais/artísticos/de talentos que os protagonistas têm e escondem ou não têm e descobrem no ato da competição e, assim, dobram o estado de coisas, ufa, paro por aqui.

A plateia do Biff aplaudiu, saiu falando coisas como “nossa, quanta pureza”. Eu só teria urrado brados de louvor se esse plot tivesse caído nas mãos dos irmãos Farelly. Após escrever tanta bobagem, percebo que só estou irritado porque vi dois filmes rigorosamente iguais em menos de dez horas e agora não sei mais distinguir qual é qual — Um toque de luz e Universidade Monstros. Sem mais.

Biff – antepenúltimo/primeiro dia

junho 22, 2013 10:49 am Deixe um comentário

Antepenúltimo-primeiro? Sim. Mas eu explico. Saí do cotidiano diário do jornalismo impresso, migrei para uma revista e, portanto, desacostumei à pilha de cobertura diária, do afã de falar sobre muito com pouco espaço, entre outras ânsias. E, claro, desde o dia 13 — data da abertura da segunda edição do Biff, o Festival Internacional de Cinema de Brasília — se tornou impossível fazer outra coisa senão ler/ver a profusão de relatos/artigos/tweets/compartilhamentos dos protestos que inflamaram o país.

Então, meu Biff 2013 será magrinho. Abri os trabalhos com o chinês Voando com a garça, um filme mediano com criancinhas graciosas e velhinhos sorridentes (todos parentes do diretor) que só serve para confirmar quão grande é As coisas simples da vida; e fechei a conta com as dores de uma adolescente autodestrutiva em Como se fosse amor, algo como um Depois de Lúcia reforçado nas cenas de sexo e filmado com a mesma estética vérité-de-iluminação-fraca quanto outras dúzias de indies americanos.

Bora lá:

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Voando com a garça (Gaosu tamen, wo cheng baihe qu le), de Rui Jun Li. 2.5/5

Primeiro e último plano são impressionantes, porque esboçam sínteses dos relacionamentos entre vida e morte — ou entre vida e o post-mortem — que o filme preguiçosamente elabora em seus 99 minutos de duração. Um vovô de 73 anos é levado para a casa dos três filhos, ao que parece, parar esperar a morte, ser cremado em outra cidade e, assim, dar descanso definitivo às crias — adultos impacientes com o pai e os filhos que eles próprios tiveram.

O ancião foi um pintor de caixões — isso mesmo — senil e dorminhoco. Hoje, seu ofício envelheceu mal — a cremação virou bandeira do governo, a demanda por caixões minguou. Ocioso e longe do carteado com seus amigos, conta histórias aos netos — relatos sobre garças brancas que só ele vê e que segundo ele aparecem todo fim de tarde para beber água à beira do lago. Parece um drama familiar pueril, bonitinho, desses que provocam frequentes “ohhh…” no público pagante — parece e é –, mas o que de fato interessa é a defesa inconteste e teimosa de um conto franco e nada mórbido sobre simplesmente morrer em paz.

O vovô quer ser enterrado e os únicos que o entendem e, tal como seus pais na tarefa de conduzi-lo ao crematório, levam a sério o dever de organizar o funeral do morto são seus netos. Só há inocentes — o velho que pretende morrer dormindo e, no caso específico de quem empunhou a pá, o garoto que vê o enterro como uma versão perene (e ainda divertida) da brincadeira de cobrir amiguinhos com areia e contar quantos segundos eles suportam sem respirar embaixo da terra. Uma pena, porém, que a força do filme se concentre, repito, nos planos-síntese — o primeiro, em que o velho colore seu último caixão enquanto seus netos brincam a dois metros dele; e o(s) último(s), com o vô no último sono e os dois primos contentes à beça. Luto é para quem já perdeu a inocência.

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Como se fosse amor (It felt like love), de Eliza Hittman. 2/5

Uma adolescente vítima de bullying, órfã de mãe e que vive com o pai. Os elementos de Depois de Lúcia estão todos aqui, mas a estreante em longas Eliza Hittman dá ênfase às vontades sexuais — ou aos desejos nunca concretizados — e aos caminhos perversos escolhidos pela própria protagonista. Lila ouve a melhor amiga falar sobre suas experiências, a vê com o namorado aos amassos na praia — e também fora dela — e observa até o vizinho, um menino mais novo que ela — ou somente um baixinho da mesma idade — se engraçar com uma garota do bairro. E ela: zero.

Há incontáveis narrativas coming of age tão dolorosas e precoces quanto, mas como este é um filme independente — e com não atores –, Eliza possui carta branca para enquadrar intimidades registradas em troncos, costas, ombros, braços, bundas — cabeças aparecem cortadas aqui e ali no plano, já que o que importa são corpos quentes e não as cabeças que os administram –, dar tempo de tela às carícias em meio ao verão que ilumina o Brooklyn, permitir rápidos nus frontais masculinos — numa cena terrível que poderia ter terminado num bukkake — e alinhavar todos os autoflagelos num ato final pretensioso à beça. Lila, veja você, sujeita-se a deitar ao lado do garoto que a interessa logo após ele, bêbado e sonolento, ter transado rapidamente com outra garota. Nada é consumado. Mas é como se tivesse sido. Caso de filme que mantém interesse simplesmente pelos riscos que corre e não pela qualidade da realização.

Biff – Últimos filmes

julho 22, 2012 2:23 pm Deixe um comentário

O Biff foi bom. Teve falhas, derrapou aqui e ali — alguns títulos em DVD, cópias que não chegaram, o que é normal, a gente entende, mostra internacional é assim mesmo, ainda mais numa primeira mostra –, mas, no geral, no todo, trouxe pelo menos meia dúzia de filmes (obscuros) interessantes, reproduziu destaques de festivais — ou de Berlim 2012, para ser mais preciso — e, o melhor, agregou a comunidade cinéfila de Brasília. Antes de tentar fechar meu programa com Bande à part, lanço aqui breves entradas sobre as últimas coisas que vi: Abrir portas e janelas, um competente primeiro filme argentino/suíço, e o perverso sérvio Sementes da vida — não gostei nada desse.

Abrir portas e janelas (Abrir puertas y ventanas), de Milagros Mumenthaler. 3/5

Passou em DVD, então acho que perdi muito da sensação de aprisionamento no filme de estreia de Milagros, grande vencedor de Locarno 2011. Pra mim, o que ficou desse drama doméstico sobre três irmãs fechadas num (aparente) segundo luto — pela morte da avó — foi, mais que os problemas e as soluções colocados no roteiro, as briguinhas, as discussões, as verdades-ditas-na-cara, os puxões de cabelo, os abraços chorosos, foi o caprichado trabalho de câmera.

Tudo se passa num fim de verão em Buenos Aires, entre dias quentes e chuvosos, e Milagros tempera esses climas internamente, mal chegando ao portão, entrando e saindo dos quartos ou nem isso, ficando à espreita, arregalando os olhos lentamente — pense em travellings demorados –, como uma irmã espiando o quarto da outra, fuçando roupas escondidas nas gavetas, ou numa pesquisa coletiva, as três enfim desvendando os segredos e tesouros da avó, ouvindo um disco juntas (a foto acima), sussurrando Back to stay. (Revendo numa cópia decente, acho que vale um 3.5/5).

Sementes da vida (Daca bobul nu moare), de Sinisa Dragin. 2/5

Acho que sei qual é a intenção de Dragin: discutir o patriarcalismo no leste europeu através dos olhos de um pai romeno à procura da filha que se prostitui em Kosovo e outro pai em situação parecida, mas com nacionalidade e deslocamento inversos — sérvio, numa jornada para encontrar o corpo do filho, morto na Romênia. Não sei se gosto da maneira como a fábula sobre o catolicismo ortodoxo alaga a trama — os templos de madeira estão tão decaídos quanto esses dois velhos sem rumo. A direção é pesada, opta por decisões sádicas — o romeno indo apanhar a filha no submundo de Kosovo é digno dum, sei lá, christian exploitation (?). Ou isso — ou o esgotamento de um julho Flip + Biff.

Biff – Dias 7 e 8

julho 19, 2012 11:10 pm Deixe um comentário

Minto. Não vi nada no dia 8, hoje, quinta-feira. Bateu aquela preguiça tipo já-vi-todos-os-filmes-da-mostra-competitiva-e-os-principais-das-paralelas, sabe? — menos O planeta solitário, que chegou (em DVD de serviço, numa única sessão que eu perdi) e não chegou (a cópia ficou pelo caminho). Daí reservei a quarta-feira para o doc brasuca Uma longa viagem, com Caio Blat, e o maluquinho Biblioteca do Pascal, que muita gente considera o melhor do Biff.

Biblioteca do Pascal (Bibliothèque Pascal), de Szabolcs Hajdu. 3/5

Ao que parece, é o estouro da mostra, o Drive do Biff, o Holy motors do Biff. Não achei pra tanto. Começa com uma mulher contando a um assistente social porque precisa recuperar a guarda da filha, desfiando a fábula que a levou até aquele momento de necessidade e súplica. A história é o filme ao qual assistimos, uma jornada surreal de sonhos que os personagens podem projetar (em 3D, coloquemos assim) e tocar. E Mona, a protagonista, demora até chegar o clímax — Hajdu é o culpado, na verdade, leva tempo entre o nascimento da menina, filha de um bandido que surge da areia da praia e faz de Mona sua refém e amante, e a adoção da garotinha por uma tia –, que é o que realmente interessa na trama, o bordel de Liverpool com prostitutas posando de personas da literatura.

Resumindo: tire o visual à Jeunet e sobra apenas uma pantomima hardcore aparentada de Peixe grande. No meio da coisa, fiquei esperando pelo planos finais, em que a câmera retorna para o mundo real de Mona, o escritório, o assistente social e sua escrivã, ele dizendo para a funcionária que digite isso e aquilo, depois que Mona, forçada pelo burocrata, narra um conto mais palatável, real, mas ainda sofrido. E ela parece realmente acreditar nele, diz tudo às lágrimas. É só por essa nova mentira — ou por essa nova verdade, não dá para decifrar; Orsolya Török-Illyés é incrível nessa cena — que ela poderá ter a filha de volta. Hajdu tries too hard. Mas, vá lá, é um filme arriscado — e estou de saco cheio de filmes seguros de si mesmos.

Uma longa viagem, de Lúcia Murat. 3/5

Heitor Murat, caçula de três irmãos, diz que deu a volta ao mundo duas vezes. “Não se deve fazer isso. Você perde a noção do tempo”, ele completa. Ele deixou o Brasil em 1969, enquanto Lúcia aqui ficou na luta armada e foi presa. É um doc sobre as viagens de iluminação e consumo de drogas — haxixe na maioria dos dias — de Heitor, que vive à exaustão, que vive de tudo ao mesmo tempo e sem parar, parte de Londres para morar lá e cá, aqui e ali, na Índia e na Austrália, conhecendo gente, mandando cartas pra mãe e pro pai — mentindo em todas elas, obviamente — e terminando seus anos loucos no fim da década de 1970, pés descalços na Índia, com sinais de esquizofrenia, resgatado pela mãe.

É melhor que o On the road do Salles. O que me incomoda é a farsa das projeções de vídeo e dos jograis de Caio Blat na pele do Heitor jovem, teatralizando o alcance das entrevistas e da compilação de reminiscências familiares proposta por Lúcia. É só.

Biff – Dia 6

julho 18, 2012 3:07 am Deixe um comentário

Dia cadavérico — zumbificante/zumbificador –, este. Rapidinho, falo um pouco do sexto dia de Biff, em que vi três títulos em competição, todos de personagens em contato com a morte: o sueco Avalon, sobre o dono de uma boate que mata um funcionário sem querer, O ano do tigre, situado em 2010 no Chile, ano do terremoto, e Tey, que acompanha os passos de um protagonista preso numa fábula senegalesa a respeito do que realmente importa quando você está a alguns passos do paraíso — ou do inferno ou dum nada profundo, escuro, preenchido somente pela não-existência. Filosofemos.

O ano do tigre (El año del tigre), de Sebastián Lelio. 3.5/5

O Chile desabou junto com o terremoto de 2010. A prisão do protagonista do filme de Lelio também. Ele está livre. Esconde-se nas matas, ajeita as costas contra a parede sempre que vê passar algum carro da polícia e, pronto, tomando algumas precauções, pode viver seguro no mundo que agora o recebe com ruas entulhadas de ruínas e corpos. Não sobrou nada para ele — mulher e filha e mãe, mortas. Lelio não alivia: roda um quase documentário sobre os dias vagos e penosos do ex-presidiário. Sem fingimento.

Ele libera um tigre desconsolado duma jaula. Para um fazendeiro depois lhe contar que mirou seu rifle naquela besta e atirou nela sem dó nenhuma, que o mundo está difícil demais para alguém se importar com um bicho desses. Pois o nosso herói espera o novo amigo cair no sono — após uma noite de bebedeira e prantos gritados para o alto, em orações francas, cortantes; por essa cena, Sergio Hernández merece o prêmio de melhor ator desse festival. E estoca uma lasca de vidro na barriga do colega. O ex-detento encontra um mundo ainda temente a Deus — o mesmo Deus que mandou o país inteiro abaixo. É demais para o sobrevivente — e para o diretor. Melhor retornar para a cadeia, um mundo controlado e previsível em seus limites espaciais e humanos. E no qual Deus não entra.

Tey (Aujourd’hui), de Alain Gomis. 3/5

Há beleza nos planos fechados deste drama, nas testas reluzindo suor, nos pés rachados por extensas caminhadas, nos abraços entre amigos, nos toques faiscantes entre apaixonados. Gomis é simples na concepção de seu filme, a de um homem que retorna a cantos conhecidos do Senegal para passar seu último de vida. Este homem não tem nada de grave, aparenta ter saúde para trabalhar e viver o quanto quiser, mas, sim, ele vai morrer hoje, não há jeito de evitar isso. E o que se deve fazer nas 24 horas finais da vida? O que se pode fazer com essas últimas horas, as mais breves? As mais longas?

Para Satché (Saul Williams) — para Gomis –, deve-se voltar para casa. É a África vista no íntimo, no particular de somente uma vida e uma morte — não de um continente em sua totalidade, com seus alarmantes indicadores sociais –, vista nas coisas essenciais da existência, nos reencontos acalorados e decepcionantes, nas lembranças doídas e confortantes. Tenho pouco a dizer sobre o dia de Satché. Acho que o silêncio da sequência final encerra o assunto — e com ele a minha prolixidade.

Avalon, de Axel Petersén. 2.5/5

O plot parece muito, muito mesmo com algumas histórias de moral e culpa dos Dardenne. Petersén filma os bastidores da inauguração de uma nova casa noturna na Suécia, a Avalon. Janne (Johannes Brost), o dono sessentão do lugar, então se acha no direito de beber alguns drinques a mais, falar algumas bobagens com os convidados e, numa dessas, apanhar o carro de um amigo, dar uma volta com a irmã e sócia e — por acidente, ele não fez por mal, foi realmente sem querer, mas agora não tem como voltar atrás, está feito, matar um trabalhador lituano que, há poucos minutos, estava no andaime que Janne derrubou com uma ré imprudente.

O que se segue, como nos Dardenne — como no debut A promessa (1996), para ser mais específico –, é um novelo de sensações hesitantes do protagonista. Conto ou não conto para a namorada do funcionário que eu o matei algumas horas atrás e que, desesperado, dei um sumiço no corpo? Saio correndo antes da inauguração? Largo tudo — os problemas e os possíveis lucros — para minha irmã? Ele não sabe. Já vimos esse tipo de dilema antes, em que a atitude que sugere solidariedade — não contar, omitir para poupar o outro — é, por outro lado, desculpa para aliviar o egoísmo. Talvez Avalon valha a pena não pelo que ele tem de redundante, mas apenas pela entrega dramática de Johannes Brost. É só.

Biff – Dia 5

julho 17, 2012 9:09 am Deixe um comentário

Aqui e agora, na metade da mostra, as dores de cabeça, os olhos cansados e as sessões sonolentas aparecem para ditar o ritmo dos seus dias — e dos seus posts. Tive uma segunda-feira de Biff muito adequada para uma segunda-feira normal: isto é, de muito pessimismo e desamparo — não tem jeito, eu adoro uma autopiedade. Comecei com o filme mais triste de todo o festival, o palestino Habibi, e fui adiante, como que respirando por aparelhos, com os docs Araya, um belo clássico de 1959, e Detropia, da dupla que ficou conhecida pelo assustador Jesus camp (2006). Bora lá.

Araya, de Margot Benacerraf. 4/5

Só uma coisa separa os bons dos grandes documentários: realização de cinema. Pois este aqui dá conta muito bem das duas coisas: é crônica e é filme. Margot coleta histórias de trabalhadores de uma mina de sal ao nordeste da Venezuela e reconta cada uma delas com habilidade escritural — trilha, texto e enquadramentos dispensam entrevistas com os personagens; é na linguagem do cinema, na maneira como ela, aqui, registra e reproduz as vidas dos personagens, que estão as informações sociais e poéticas de que precisamos. Uma narração em off verbaliza o cotidiano de crianças, adultos e idosos que parecem intermináveis, eternos em seus ciclos e rondas de pesca e exploração do sal. O mar dá e tira a vida: é sustento e provoca queimaduras, úlceras devido ao contato constante dos trabalhadores com o sal.

Nada pode ser plantado nesse deserto salgado, nesse povoado habitado por gente que, a uma certa distância, parece uniforme, homogênea. Margot dá nome e identidade a essas pessoas por meio de um cinema que é solidário ao envolvimento, que entra nas atividades e enquadra corpos e pés e mãos e bocas ressecadas pelo sol e pelo sal. É lindo ver um documentário pensado no planejamento das cenas, dos movimentos de câmera. Vejo essa premeditação estética como uma espécie de respeito pelo que está está sendo filmado. Afinal, é um filme documentário. Há uma negociação com a verdade, mas também com a invenção.

Detropia, de Heidi Ewing e Rachel Grady. 3/5

Numa das várias entrevistas feitas por Heidi e Rachel com habitantes de Detroit — sempre emoldurados em paisagens urbanas amarelecidas, enjoativas, doentias mesmo –, um deles diz que é como se uma bomba tivesse caído sobre a cidade. Outro, dirigindo enquanto olha para terrenos e prédios, reconhecendo lugares — a agitação de um antigo hotel é lembrada com efusivididade — e elogiando a cidade que tanto ama, delimita os espaços antes ocupados por enormes fábricas de veículos.

Ford, Chrysler e GM faliram — e com elas, Detroit. Um downsizing diminuiu a população, as ofertas de emprego e os serviços — até as linhas de ônibus podem entrar no racionamento. Carros velhos são vistos nas esquinas. Reuniões sindicais são incapazes de evitar o fechamento e a mudança de mais um posto de trabalho — para o México. Estamos diante de um pós-apocalipse, de um pós-guerra — de uma pós-indústria. Heidi e Rachel executam uma reportagem decente, informativa e reflexiva sobre os desdobramentos da crise numa cidade como Detroit, berço da classe média dos EUA, da indústria de carros e de hipotecas altíssimas. Falando de cinema, trata-se de um filme árido, calado, que observa o momento com resignação. E uma aguda percepção de que, bem, é indiscutível, there is more coming.

Habibi, de Susan Youssef. 2.5/5

Eu seria um baita dum mentiroso se dissesse que gostei de Habibi. Enquanto exemplar de cinema, achei ingênuo, de encenações pouco convincentes e atuações brandas. Mas o que fica desse filme — e são poucos os títulos que pedem esse tipo de avaliação — é o além-filme: a coragem de Susan de rodar em Gaza — um longa de ficção não era feito lá havia 15 anos –, o carinho irrestrito pelos personagens, dois apaixonados que sabem que nunca poderão ficar juntos, e a aflição da diretora ao condensar, num caso de amor impossível, a amargura de uma nação sem liberdade — sem poesia.

Essa é a Palestina de Susan, em que um pobre poeta que vive em campo de refugiados grafita declarações de amor em paredes e é considerado profano, imoral, pecador. Em que uma jovem de classe média a quem a autonomia de escolher o que quer — quem quer — lhe é negada diariamente. Sempre tem alguém — um homem, o pai — que se acha no dever, no direito, aliás, de tomar decisões por ela. Ok, ok, no filme, isso tudo aparece de um jeito enviesado: o resultado dramático (trágico) das cenas — ou mesmo quando se toma como referência a soma de algumas sequências na montagem — nunca se equipara às intenções, ao que talvez estivesse descrito no roteiro. Não importa. Tudo bem. Esse é um filme que precisava ter sido feito. Apenas isso.

Biff – Dia 4

julho 16, 2012 4:02 am 3 comentários

Meu domingo começou, nesta ordem, suarento com o cubano Una noche, verteu sangue no polonês O batismo e ganhou alguma ternura no holandês Kauwboy. Mas o melhor do dia veio à noite, com o 35mm bem bonito do macedônio A mulher que escovou suas lágrimas e o indiezinho pop chamado Crianças elétricas. Let’s do this.

A mulher que escovou suas lágrimas (The whoman who brushed off her tears), de Teona Strugar Mitevska. 3.5/5

Pra mim, filme mais bem acabado do festival até agora. Teona filma no estilo que fez meu queixo cair na Mostra São Paulo 2011 diante da película de Era uma vez na Anatólia: um 35mm expandido em travellings laterais lindíssimos, filtrados por cortinas, cercas, cantos de parede, janelas, numa construção movida pela precisão dos movimentos flagrados no quadro, pelo efeito que cada plano tem sobre os personagens. Entre a França e a Macedônia, Teona roda um drama sobre a hostilidade masculina, entrevendo agressões — principalmente morais — por meio de Helena (Victoria Abril), uma agente de condicional que agora cuida do caso de um homem macedônio residente na França. Ele precisa juntar algum dinheiro, voltar para o seu país e pagar o dote da mulher com quem teve um filho há quase uma década.

O filme começa com uma tentativa de incesto e um suicídio — do filho de Helena. O marido, um macedônio que recusa falar a língua natal, também é um idiota. E o filme termina com a vitória da mulher por vias tortas — pela violência, pela irracionalidade de atos impensados. Há também algo de fantasioso nisso tudo que ainda não consegui entender — Helena e o marido viajam para a Macedônia para dar um fim nas cinzas do filho e caçar; numa das noites, o homem ronca alto na cama ao lado, Helena levanta o cobertor, destrava a apneia do marido com um chute e depois — bem, depois ela levita, algo assim. Do cinema de Teona — o da horizontalidade –, fiquei com ótimas impressões.

Crianças elétricas (Electrick children), de Rebecca Thomas. 3/5

Olha, este aqui — opening film de Berlim — nem deve ser um bom filme — um mezzo A vila, mezzo Martha Marcy May Marlene, com o humor de Pequena Miss Sunshine. Pronto, já perdi o seu respeito. Dos títulos que vi, me parece o mais pop do Biff: uma atualização da história da Virgem, em que uma menina, Rachel, que não conhece a vida fora do Jesus camp permanente organizado pelo pai, familiares e outros esquisitões mórmons no meio do Utah, engravida, veja você, ao mexer no tocafitas do pai — um instrumento para gravar confissões de pecados — e escutar uma versão cover de Don’t leave me hanging on the telephone.

Claro, o pai acha que a menina pulou a cerca, e então ela foge para Las Vegas — sem saber que está levando na caçamba Mr. Will, seu irmão em Cristo –, encontra uma banda ruim influenciada pelo Fugazi — Rory Culkin faz figuração nos shows, é tipo o Young Neil do grupo — e tenta desesperadamente encontrar o pai do seu filho, o homem que será usado por Deus para ser o seu José, o corajoso que se casará com uma menina de 15 anos que diz carregar o Messias na barriga. Achei irresistível, imaculado — me crucifique.

Kauwboy, de Boudewijn Koole. 2.5/5

Tem muita coisa de Berlim passando no festival — Bibliothèque Pascal muito me interessa — e esse Kauwboy levou o prêmio de melhor primeiro filme por lá. Posso parecer insensível e babaca, mas não vi graça na história desse garotinho que faz de uma gralha ferida por ele mesmo seu irmão, seu bicho de estimação, seu brinquedo favorito — o cinema de Koole, tomando emprestado essa estética europeia de filme frufru e adulador, os fundos borrados, as cores esmaecidas, também não me comoveu; é o filtro de um Tomboy, por exemplo. O menino passa seus dias cuidando do pássaro, falando com a mãe pelo telefone — ela é uma cantora country em turnê pelos EUA que nunca fala, nunca dá sinal de vida –, tomando bifas do pai e flertando com uma garota que masca chiclete e faz bolas do tamanho da cabeça dele. É um cinema pequeno — que, ainda bem, passa rápido em seus 81min.

Una noche, de Lucy Mulloy. 2/5

É nesses momentos que percebemos a mão da curadoria dum festival. Una noche é, basicamente, o mesmo filme que La playa pretende (e consegue) ser: um drama sobre a adolescência na América Latina, de privações, de desgostos, duma intensa necessidade de fuga. Produção UK/USA/Cuba, o produto de Mulloy extrai de história real a trama sobre dois irmãos inseparáveis desde que nasceram — a garota, apelidada de cabeluda pelas rivais da rua, é três minutos mais velha que o garoto.

Havana continua quente e comunista, mas os jovens de lá andam bem insatisfeitos. Não se pode tocar num turista ou falar com um estrangeiro, que logo vem a polícia, coloca você contra a parede e o resto é uma sucessão de socos e urros abafados. Raul, ao ferir um gringo por acidente, acaba agilizando os planos de se mudar para Miami e encontrar o pai. Os dois irmãos também já não veem futuro na cidade. Uma pena que a tal aventura — ou o prelúdio dela –, seja filmada por Mulloy de um jeito convencional, imaturo, com extensos discursos em off da garota — que vão entregando o ato final talvez sem querer — e um álbum de historietas mal contadas sobre a cidade e as pessoas que nela vivem. Uma Havava para falantes em inglês.

O batismo (Chrzest), de Marcin Wrona. 2/5

Taí. Não se pode contar histórias católicas de violência (ou de mafiosos engravatados ou de broncos que fazem negócios em frigoríficos) de um jeito natural, direto e objetivo e achar que o espectador sairá ganhando com isso — sairá mais “consciente” da vileza do mundo e outras questões que estão à margem do cinema. Se é para ser violento, que o seja com classe, por favor. Este polonês narra, com aspereza e rudeza à Gomorra, o reencontro de dois ex-combatentes do exército na semana do batismo do filho de um deles. Michal é o sortudo: casou-se com uma loira polonesa de beleza ucraniana — entende o que eu quero dizer? –, tem um filho saudável e vive num bom apartamento.

Janek, convidado para passar uma semana na casa do amigo, não tem nada disso. Ele, aliás, acaba de ser “meio” que expulso do serviço militar. Mas, veja bem, Wrona ilumina a trama metaforizando o ritual católico em outras cerimônias: a provável morte de Michal, que possui negócios pendentes com criminosos, e a iniciação de Janek, o padrinho, no mundo do crime, para salvar (?) o amigo e a própria pele. O único bom plano de Wrona é mirar o batismo do bebê por baixo, permitindo respingos sacros na lente. É pouco. Amém.

Biff – Dia 3

julho 15, 2012 11:42 am 1 comentário

Ainda tenho problemas com o formato do Biff — eu queria um braço da Mostra SP em Brasília, um painel com o melhor de Cannes, Berlim, Veneza e Sundance e, se possível, Slamdance também. Mas, pelo que vi até agora nesta primeira edição, nem posso reclamar muito. Without — falando nisso, um filme Slamdance — muito me agradou. Meu segundo favorito deste festival apareceu pra mim no terceiro dia: é o colombiano La playa D.C., que passou no Un Certain Regard de Cannes. No mesmo dia, este longo sábado 13/7, confirmei minhas suspeitas sobre Bel ami, que nem deveria estar no Biff — ainda mais em competição; entra em cartaz já, já, pela California Filmes, ora — e saí com sentimentos confusos do alemão Os esquecidos. Ao trabalho.

La playa D.C., de Juan Andrés Arango. 3.5/5

Arango, um colombiano branco, dirige um hood film situado nas ruas perigosas de Bogotá. É um drama sobre desaparecimento, sobre um irmão adolescente tentando encontrar o outro, o mais velho à procura do mais novo, um baixinho encrenqueiro, que “mexeu com as pessoas erradas”, deve dezenas de milhares de pesos a uns e outros, e não parece atinar com o perigo da vida que leva. Tomas, o mais velho, sai de casa — a mãe casou e teve um bebê com um branco –, e se aproxima de Chaco, um sujeito, um bro que fatura uns trocados deixando rodas de veículos de homens brancos tinindo, que retoca placas de carros desses mesmos homens brancos desconfiados, amedrontados de graça, por nada.

Nesta Bogotá, não se pode ser negro e andar num shopping sem ser interrompido e repreendido por um trio de policiais — dois brancos e um negro. Aqui, há material e personagens suficientes para um acerto de contas de Arango com seus espectadores brancos. Mas o diretor não é agressivo, não aponta dedos raivosos, não identifica culpados. Ele só quer contar uma história de sobrevivência, em que essa ansiedade da busca catalisa mudança e oportunidade. Chaco tem uns amigos que sabem cortar e esculpir cabelo, manejando cortador e lâmina — ser negro nesse lugar requer demarcação de território, e isso se dá pelo couro cabeludo entalhado, pela escultura no topo da cabeça, pela cicatriz temporária que avisa, eu estou aqui, eu respiro e acordo e trabalho e durmo como vocês.

Tomas vira aprendiz. Tomas flerta com uma garota branca que também corta cabelo ali perto — o elo fraco da trama; as cenas de sonho também não vingam. Tomas finalmente recupera o irmão, mas o menino já parece plenamente decidido da sua vocação — viver e morrer no submundo. Arango observa a periferia com um olhar íntimo, urgente — a câmera na mão do operador e no rosto do personagem. Não dá saída fácil, mas vê dignidade onde só parece haver perda e dureza. Arango enxerga, enquanto cineasta, cor e estilo nesse mundo.

Os esquecidos (Die vermissten), de Jan Speckenbach. 2.5/5

Mais um sobre um sumiço e um protagonista que, na precariedade da procura, acaba se encontrando. Lothar (André Hennicke, um tipo meio Christoph Waltz) cuida da segurança de usinas nucleares, tem um relacionamento estável com a segunda mulher, mas nunca revelou a ela que tem uma filha de 14 anos e que mal a viu crescer nos últimos sete. A garota evapora, a mãe não sabe o que fazer, e Lothar surta, arregala os olhos a cada esquina lotada de adolescentes, projeta, numa garota desconhecida para quem deu carona uma vez, o cuidado que sempre negou à filha: é a obsessão pelo desaparecimento — ou pela culpa que o aflige com atraso. E ele começa a perceber que outras crianças também estão sumindo.

Vejo esse colapso do personagem — um drama pessoal e universal — como uma metáfora do desarranjo econômico, de uma classe endinheirada que se vê ameaçada pelo insucesso do consumo e do capitalismo e das ilusões de poder e autoestima neles inscritos. Lothar visita uma outra geografia urbana, desagradável e espinhosa — imagino, aqui meio sonolento, uma alegoria às Alemanhas mutiladas pelo muro. Balaio de boas ideias. Mas Speckenbach resolve esses deslocamentos espaciais e existenciais com soluções simplistas de direção — o mesmo plano para começar e finalizar o filme, por exemplo. E, no geral, a chance desperdiçada de ter amplificado o ar paranoico de Lothar e do clima ligeiramente à Body snatchers. Um tanto tímido e restrito demais.

Bel Ami — O sedutor (Bel Ami), de Declan Donnellan e Nick Ormerod. 2/5

O principal defeito é não saber muito bem por que as personagens de Christina Ricci, Uma Thurman e Kristin Scott Thomas estão tão caidinhas pelo Pattinson, um soldado que serviu no norte da África e agora se estabelece em Paris como um novo rico. Ou Pattinson é um ator realmente inexpressivo, ou a persona do ex-combatente é escassamente desenvolvida. A falta de sutileza torna a rede de negociações amorosas regida por Georges Duroy (Pattinson), em que se deitar com a mulher do próximo pode significar degraus vencidos na escadaria social, um enfeite a mais, um drinque extra. Donnellan e Ormerod estão mais preocupados em acertar vestidos, maquiagens, cortes de cabelo, joias, mobília. Os flertes de hipocrisia e crueldade estão encobertos por cerimônias e cortesias — e por tecido em cima de tecido.

Biff – Dias 1 e 2

julho 14, 2012 2:07 am 3 comentários

Começou quinta-feira o primeiro Brasília International Film Festival, o Biff. Ok, tá longe de ser um Tiff (não tem première, as projeções ocorrem em formato de mostra), mas eu subitamente me animei e, até o dia 22 (quando termina o negócio), posto aqui um diário relapso, cansativo e esforçado com resenhas curtinhas dos títulos que verei durante o programa de filmes, quase todos inéditos no Brasil — sei que vi Oslo, 31 de agosto na Mostra SP 2011, e sei que ainda não gosto dele.

São 50 e poucos (12 em competição), vindos de 30 e poucos países. Hoje, começo com uns pitacos sobre o filme de abertura, o arrumadinho Na estrada, e alguns elogios a Francine e Without (em competição), dois indies americanos austeros e assustadores.

Ausência (Without), de Mark Jackson. 3.5/5

Não me entenda mal. Mas este filme de estreia é uma espécie de Atividade paranormal para o público de arte. Eu explico. Uma mulher de 19 anos toma uma barca para uma ilha distante, onde passa alguns dias cuidando de um velhinho inválido. A rotina é tediosa, cheia de detalhes de arrumação e enfermaria chatíssimos, que o casal que a contratou deixou descritos num planfleto chamado ironicamente de A Bíblia. Joslyn Jensen, personagem e atriz — e futura musa do cinema indie, eu espero –, não tem internet nem sinal decente de celular. No tempo livre, fixa os olhos em fotos da namorada no iPhone e ouve música até cabecear e então dormir. Todas as manhãs, antes de malhar e preparar a primeira refeição de Frank, nota, ao ser acordada pelo despertardor, que o celular vibra em cima do peitoril da janela do quarto. E ela sempre deixa o aparelho à mão, na escrivaninha. Existe algo de sinistro nessa casa, também.

Mark Jackson (diretor, roteirista, montador), num primeiro filme consistente, de desenvolvimento sutil, pouco a pouco, imprime tensão ao que parece enfadonho, besta — o plano que observa Joslyn na cozinha, de costas para a câmera, diante de uma janela enegrecida pela noite, amedronta pelo simples silêncio natural do cômodo; a trilha também é sorrateira, calada. Interrompo a enumeração de spoilers agora mesmo. Pois Without merece ser assistido com despreparo. Na superfície, é um horror haunted house ajeitado. No fundo, uma abordagem inesperada do luto, num filme teen que ousa ser despudorado.

Francine, de Brian M. Cassidy e Melanie Shatzky. 3/5

Uma Melissa Leo contida, cativa de incapacidades emocionais é uma Melissa Leo assombrosamente rígida, seca, crua. Neste Francine, que passou no Forum do Berlinale e atraiu boas resenhas, a atriz de Rio congelado e O vencedor interpreta uma mulher de ar pesado, derrotado, que acaba de sair da prisão. Esta cena (a da saída do cárcere) nos é mostrada, depois que Melissa, o corpo todo à mostra, toma banho, veste trajes cor de laranja e recebe a notícia de que sim, Francine, vai dar tudo certo lá fora, não se preocupe, a vida em liberdade é muito melhor. Não é, não. Francine parece ter desaprendido a conversar/lidar com pessoas, mas consegue alguns empregos na pequena cidade em que vive — num pet shop, num estábulo, numa clínica veterinária.

Ela não é má. Ela transa com um desconhecido, dá um beijo numa mulher cristã. As coisas acontecem fora de controle. Ela só consegue se comunicar com segurança abraçando, embalando, acariciando gatos, ratos, cães. Cassidy e Shatzky, novatos em longas de ficção, dão à protagonista tons pálidos, em enquadramentos que não a deixam em paz. Francine é a encarnação da desarticulação social, num microcosmo que só faz sentido na sua estranheza das coisas, na sua inadaptação aos ritos, às cerimônias, aos tratos, às cortesias, às rupturas. Bruto, rústico — e muito humano em seu sofrimento.

Na estrada (On the road), de Walter Salles. 2.5/5

Toda vez que deparo com filmes sobre hippies — ou, no caso, pré-hippies –, coço a cabeça, abro a boca em bocejos de aborrecimento até constatar, de novo, que Easy rider, ou Sem destino, ainda é o filme definitivo, o filme que encerra o assunto pra sempre — we blew it, é isso, fim de papo. Por isso, On the road soa tão datado e bem comportado nas mãos de Salles — um diretor de road movies pouco empolgantes, apesar da minha defesa resistente de Central do Brasil e Abril despedaçado, os únicos dele que poderia ver de novo sem me enfastiar. A adaptação do livro de Kerouac é um jorro de planos interrompidos — com cortes dentro do plano –, de uma banda sonora de doer os ouvidos, mas não de jornadas arrebatadoras, febris, liberadoras. Uns palavrões aqui e ali, nudez observada com reservas, sexo resumido em closes. Cinema rico e de recato.