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Mais de Cinefilia

agosto 27, 2011 1:13 pm Deixe um comentário

O livro de Antoine de Baecque, assunto do último post, termina em nota melancólica — depois do maio de 1968, o cinema morreu e a cinefilia transfigurou-se num refúgio do passado. Pessimismo à parte, a leitura é, repito, fundamental. E tem um capítulo preenchido de estimulantes citações de críticos, cinéfilos e cineastas. É, claro, a seção “Amor às mulheres, amor ao cinema”. Eis um trecho, de babar, reproduzido do relato de Éric de Kuyper, encantado com a Marilyn Monroe de Nunca fui santa, de Joshua Logan:

Esta é a lição do cinema hollywoodiano, como uma educação sentimental. Grandeza desse cinema que, como nenhum outro, fez falar o corpo, os corpos. E conseguiu sacudir seus espectadores, que vivem esse prazer intenso de não saber exatamente o que lhes acontece e que, para se tranquilizarem, contam a história do filme: “… e então ela deixou de lado sua ambição de cantora para ir se enterrar num rancho dos confins de Montana, com um caubói que lhe fará vários filhos…”. É assim que falam os espectadores de 1955 à saída do cinema, para esconderem uma emoção que, aliás, não saberiam exprimir. O cinéfilo, por sua vez, dizia simultaneamente: “E você viu o fio de saliva que treme no canto dos lábios de Marilyn Monroe naquele primeiro plano magnífico?”. E hoje ele diz: “Na televisão mal vejo esse fio de saliva. Mas sei que ele está lá. Vi-o na imensa tela de cinema da minha mocidade: nela, eu vi…”.

 

Cinefilia

agosto 21, 2011 10:45 pm Deixe um comentário

“O primeiro objeto de estudo ‘cinéfilo’ são práticas culturais, quase cultuais. Comparou-se muitas vezes a sala escura a um templo, e é verdade que a cinefilia, mesmo mantida nas redes mais laicas, é marcada por uma grande religiosidade em suas cerimônias. A cinefilia é um sistema de organização cultural que engrenda ritos de olhar, de fala, de escrita. Sem dúvida reside aí a identidade mesma dessa prática: uma vez ‘mordidos pelo cinema’, segundo as palavras um tanto exaltadas dos cinéfilos do início dos anos 1960, como assistem aos filmes, em que lugar da sala, em que posição, seguindo qual moldura pessoal, como animar uma sessão de cineclube, como sair em grupo, como partilhar esse diário íntimo do olhar por meio da conversa, da correspondência, da escrita privada ou pública, e como os filmes se tornam o centro de lutas simbólicas através das atitudes e escritas concorrentes?”

O título já dá o recado: a leitura de Cinefilia (Cosac Naify; 4/5) é obrigatória para os loucos por cinema. Baecque, que trabalhou um tempão na Cahiers du Cinéma, entrelaça a história da crítica de cinema na França — partindo de Bazin, criador da revista — à adoração aos grandes filmes — ou aos filmes que, legitimados pelos “jovens turcos”, hitchcock-hawksianos, ou simplesmente Godard, Truffaut, Rohmer, Rivette, Chabrol, seriam chamados de filmes de autor, de elogiável mise en scène. Bem antes da revolução de 68, no início dos anos 50, o cinema vivia uma insurreição particular, interna, que torceria — para o bem, claro — a maneira de ver, fazer e comentar filmes.

Esses precoces críticos, todos eles depois participando da nouvelle vague, foram buscar no cinema americano da época — considerado apenas como comercial, e por isso dispensável; Hitchcock, hoje celebrado, hoje deus, estava na mira dos tradicionais — o frescor que parecia faltar à produção de “qualidade francesa”. A tal qualidade significava, 1) que a obra era uma adaptação literária, 2) que o roteirista exercia papel fundamental nisso, adaptando o livro cheio de escrúpulos, redigindo uma transcrição do texto original, 3) que fotografia, montagem e trilha tinham que ter um mínimo de bom gosto, que seguir regrinhas caretas, pedantes, estufadas de uma estética ainda moderna, antiquada.

Pois Truffaut e cia desprezavam tudo isso e queriam um cinema que parecesse verdadeiro, humano, um cinema que fosse às ruas e que se preocupasse menos com grandes temas, grandes mensagens. Que a moral dos filmes fosse, sim, a própria moral dos filmes, “uma questão de travellings”, como diria Luc Moullet, e não uma moral que viesse de ideologias — no caso, o comunismo, e por isso Truffaut e cia foram chamados de direitistas, de fascistas até.

Havia, como reflete Baecque, um certo excesso de formalismo nos reviews dos Cahiers, uma postura talvez espinhosa demais, mas que contribuiu de maneira decisiva para um distanciamento da película de preocupações políticas — não à toa, Truffaut criou uma política de autores. Se os comunistas caíam num esquema perigoso de analisar o filme somente pela sua mensagem — ou ainda, pela posição política do diretor; fosse ele um anticomunista, a crítica chiaria um bocado –, pelo seu moralismo ideológico, os “turcos”, de direita ou não, preferiam ver o filme como a visão de mundo de um diretor. Baecque acredita que “devemos esse tributo à direita literária e artística, como um elogio do olhar que, no calor da hora, distingue as formas, os estilos — a mise en scène –, e os liberta das militâncias, bem como das causas e dos grandes temas.”

Cinefilia é a Bíblia dos cinéfilos então? Não sei. Acho que não. Mas talvez seja o Gênesis.