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Mostra São Paulo – Dia 3/5

outubro 28, 2013 10:46 am 2 comentários

Abaixo, em sentenças curtas e grossas, falo do que vi no domingo antes de ficar chateado à beça com o cancelamento de Um toque de pecado — e de ensaiar (mentalmente) um PROTESTO SEM VIOLÊNCIA na cabine de projeção da sala 1 do Reserva Cultural. Bora lá:

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Cortinas fechadas (Pardé, Irã, 2013). De Jafar Panahi e Kambuzia Partovi. 3.5/5.

This is not a film 2: closed curtain. O motivo: Panahi apresenta, aqui, mais um relato angustiante sobre a impossibilidade de fazer cinema. Quando o próprio diretor invade sem cerimônia o filme que está passando há uns bons 40, 50 minutos — trama: casa de um escritor confinado com seu cão é invadida por dois fugitivos, uma suicida e seu irmão — , e começa a fechar cortinas e passar em revista a mobília, simplesmente ignorando os personagens que ali estão — escritor e intrusa –, parece se estabelecer entre cineasta e obra uma espécie de rompimento forçado — afinal, existe algo mais incômodo para um diretor do que ser forçado a interromper, abortar — matar — seu próprio filme?

Panahi está proibido de filmar. Portanto, em casa, a câmera o acompanha num dia comum, de vida ordinária e doméstica, enquanto, nos outros cômodos, os personagens do filme cancelado agem como almas condenadas ao esquecimento, vagando invisíveis pela casa. Ao cineasta preso, restam vestígios: ele encontra um iPhone no modo REC apontado para o mar, destino final da invasora, que, antes de deixar o celular na varanda, pediu a Panahi (via câmera, obviamente) que a seguisse, como um ato final de liberdade — ele até consente, caminha até o mar, mas, arrependido, interfere na cena dando um rewind — mais uma interrupção.

Em outro momento igualmente triste, com o mesmo iPhone na mão, o diretor vê o vídeo que seu personagem-escritor fez durante uma cena do filme, na qual tenta descrever a invasão. No registro, aparece a equipe de filmagem — operador de câmera, iluminador e ele, Panahi, conduzindo o microfone. O único filme possível no isolamento, no maior dos impasses criativos — o de não poder trabalhar –, é este: feito com aparato, autor e seus fantasmas.

The deep (Djúpið, Islândia, 2012). De Baltasar Kormákur. 3/5.

Survival movie baseado em fatos (de 1984) mui competente, cuja principal cena (à la Gravidade) evidencia a desigual luta entre natureza invencível e humanidade frágil num país de gelo e fogo como a Islândia. O único sobrevivente de um barco pesqueiro nada nas águas congelantes do Atlântico Norte enquanto a câmera se afasta do sujeito, escancarando na tela um mar infinito, desbotado e revolto. O filme perde muito de sua força — física mesmo, pois esse Ólafur Darri Ólafsson tem atuação digna dum URSO — na meia hora final, quando Kormákur dedica um tempo excessivo ao pós-milagre, aos sentimentos de culpa desse homem — “o que há de heroísmo nisso de salvar a própria pele?”, ele parece se questionar — e até aos seus dias de cobaia de pesquisa em Londres.

Sobreviver — dádiva e maldição.

(Da série “culpo o astigmatismo ou a cópia digital?”: quero acreditar que houve algum problema na calibragem de cor nessa sessão (no Reserva Cultural), pois os brancos me pareceram especialmente brilhosos e estourados.)

3x3D (França/Portugal, 2013). De Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard. 2/5.

Em termos simples, pedras para os dois primeiros e uma tentativa de entender o último:

Just in time, de Greenaway: Arca Russa meets Wikipédia — em 3D. Só faltou Comic Sans nas escolhas tipográficas.

Cinesapiens, de Edgar Pêra: tratado filosófico-sentimental sobre cinefilia com a profundidade de um episódio (ruim) de O Mundo de Beakman.

The three disasters, de Jean-Luc Godard: compilação de fotos de cineastas, filmes bons e ruins, de arte e blockbusters, e cenas de bastidores acompanhada de uma narração que coloca em pauta questionamentos graves sobre a crise (ou mesmo o fracasso) do cinema, como o empobrecimento das metáforas em prol de histórias e o poder alienante da palavra — aquela que sempre aparece para apontar o que não existe, o que não está lá.

Dark blood (EUA/Inglaterra/Holanda, 2012). De George Sluizer. 2/5.

Concluído vinte anos depois da morte de River Phoenix, Dark blood só pode ser encarado como um filme incompleto — e, por isso, bastante problemático. O próprio diretor avisa, no prólogo, que o produto final é muito mais uma tentativa de preencher lacunas do que propriamente uma obra finalizada. Leituras de roteiro e cenas improvisadas, sem o resto do elenco, tentam dar cobertura aos trechos inexistentes.

Enxertos à parte, acho que não seria um bom filme mesmo se tivesse sido lançado na época em que foi rodado. River Phoenix faz um solitário excêntrico e místico, que acredita no fim do mundo — o deserto em que vive foi cenário de testes –, enlouquece de tesão por uma atriz de Hollywood e ameaça seu marido, também ator, frustrado por não poder seguir viagem após o motor de seu carro falhar.

Com todo respeito a River, mas o filme todo — aliás, todo não, partes dele — me pareceu assim uma pornochanchada apocalíptica falada em inglês. Ou um western sexploitation. Para usar uma expressão tão vazia quanto essas definições, digo que “a rigor seria isso”.

Mostra São Paulo – Dia 2/5

outubro 27, 2013 11:37 am Deixe um comentário

Pois bem, ontem tirei folga da Mostra por algumas horas e fui ao Pacaembu ver meu time somente empatar com o São Caetano — mas garantir, com um futebol GALANTE, o retorno à tal elite do futebol brasileiro. Fechei o dia, portanto, com duas sessões: o bom O homem das multidões, filme-retrato-em-3×4 de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, e o insosso Vida que se desfaz, para o qual pouparei caracteres. Ao que interessa:

o homem das multidões

O homem das multidões (Brasil, 2013). De Cao Guimarães e Marcelo Gomes. 3/5.

Pretendido para ser solitário até no aspecto de tela — em 3×4, como num retrato careta, cara-de-crachá, de uma pessoa cuja biografia é: funcionário –, este drama urbano de Cao e Marcelo consegue visualizar a solidão sem penalizar o personagem ou torná-lo deprimido a ponto de o público suplicar por um happy ending. Numa narrativa tão apegada a rotinas e repetições — exercício matinal, expediente, noite na companhia de rádio, limpeza da casa, monólogos sem sentido — e ao automatismo da vida num grande centro urbano, o anonimato soa mais cômico do que melancólico.

Para dois personagens tão encerrados em seus mundos — Juvenal, homem de meia idade que conduz trens e, em casa, usa uma camisa na qual se lê Carnaval dos Metroviários; Margô, chefe de estação viciada em experiências (lunares, sexuais e emocionais) mediadas pela internet –, a solidão é um estado de coisas permanente. A única possibilidade de trânsito é, aliás: o encontro entre os dois a cada horário de almoço, a cada resposta monossilábica de Juvenal às perguntas ou afirmações de Margô, a cada visita estranha de Margô ao apartamento singularmente mobiliado e decorado de Juvenal, seu futuro padrinho de casamento com um sujeito que ela conheceu via bate-papo.

O isolamento aqui, é filmado com uma classe à la Kiarostami — dezenas de planos refletidos em portas transparentes, janelas, vitrines e até na superfície metálica que reveste os vagões do metrô. No quadro, cabe apenas uma pessoa (ou um cômodo, um rosto, um perfil, um corpo), e até a montagem explicita o que é estar só o tempo inteiro quando Juvenal, fazendo o que tem de fazer, isto é, apertando a cada dez segundos o homem-morto, dispositivo de segurança anti-sono dos condutores, é visto de costas num plano e, segundos após o trem atravessar a escuridão de um túnel, emoldurado de frente, no plano-contraplano mais solitário do filme.

Não há jeito de dizer se se escolhe ou não se escolhe ser assim — solitário. Se é ou não é — simplesmente.

Mostra São Paulo – Dia 1/5

outubro 26, 2013 1:33 pm 1 comentário

Acho que escolhi o momento certo — e o filme certo — para conhecer o cinema de Lav Diaz. Isso mesmo, pelo curta (!) de 250 minutos Norte, o Fim da História. Filmão — em todos os sentidos. Mas a terceira Mostra São Paulo da minha vida começou mesmo num clima à la Festival de Brasília — calma, explico no pé desse post –, com o chileno O verão dos peixes voadores. À noite, entrei num programa de curtas que valeu pelo último de Miguel Gomes, Redemption, e vi adolescentes sofrerem à beça em La jaula de oro. Bora lá — que, hoje, Palmeiras vai jogar, eu vou:

norte

Norte, o Fim da História (Norte, hangganan ng kasaysayan, Filipinas, 2013). De Lav Diaz. 4/5.

Ruminar o tempo é para poucos. E Lav Diaz sabe o que faz quando destina 250 minutos de duração a uma história que, de fato, precisava de 250 minutos para ser contada. Por isso, acho bem possível definir Norte como um filme enxuto. Quando vai preso o pobre homem falsamente acusado de assassinar a mulher a quem todos devem algum dinheiro e sua filha, Diaz deixa a câmera repousar à frente da esposa, seus dois filhos e uma ajudante. Dezenas de segundos depois, lágrimas banham o rosto da mulher. Quando não vai preso o homem intelectual (e verdadeiro assassino da ricaça) que largou a faculdade de direito e hoje acredita em soluções radicais para solucionar a pobreza e a violência — matar todos os criminosos daria jeito, segundo ele –, a câmera não o deixa dormir. Ele acorda sobressaltado de madrugada — um retângulo de luz projetado pela janela ilumina seus olhos perturbados.

Não se trata apenas de observar vidas em desajuste (e, por consequência, um país em desajuste) por meio de planos longos — uma atribulada porque livre e atormentada pela culpa, a outra massacrada pela injustiça e ainda assim benévola aos seus pares no cárcere. O Crime e Castigo de Lav Diaz, tal como o sufocante romance russo, é um filme para ser também um pouco vivido. As crises deflagradas por Diaz dão conta tanto de uma elite pensante de moralidade discutível — que comete atos impulsivos de violência e sai impune — quanto de um proletariado achatado pela imobilidade social. Em 250 minutos, constata-se: o presente, violento e incontrolável, é a antítese silenciosa da história.

 

Programa Loznitsa (Carta, Pismo, Rússia, 2013), Miguel Gomes (Redemption, Itália/Alemanha/França/Portugal, 2013) e Jeanne Dosse (Do outro lado da cozinha, Brasil, 2013).

Da trinca de curtas, falo apenas do que gostei. Redemption (3.5/5) evidencia, mais uma vez, a esperteza do português Miguel Gomes ao tratar a narração em off como um recurso irônico e afetuoso de memória cinematográfica. Ele coleta e compila imagens em Super 8, 16mm e em preto e branco para representar quatro histórias. Cada uma delas é narrada em uma língua — português, italiano, francês e alemão. Por fim, ele arremata os contos com cartelas explicativas, dando outros significados aos monólogos — é quando surgem os nomes de Berlusconi, Sarkozy, Merkel, e, acho eu, de um político português tão afamado quanto esses três. Interpretações à parte, o curta de Gomes serve como um exercício inquietante de colagem visual — afinal, o que é dito deve parecer tão importante quanto o que é mostrado? –, ressignificado a cada instante pelo poder (invisível) da fala.

 

La jaula de oro (México, 2013). De Diego Quemada-Díez. 3/5.

Quatro adolescentes enfrentam perigos, trocam ofensas aqui e ali e sofrem um bocado numa demorada viagem rumo aos EUA. Nem road movie existencial. Nem Conta comigo.

Um dos garotos é, na verdade, uma garota que, lá no começo, diante de um espelho, cortou o cabelo e cobriu os seios para viajar com mais segurança. Noutro extremo minoritário, está um índio mexicano que não sabe espanhol — e se vê mais próximo da garota-menino que dos outros dois. O trajeto via México, a bordo de trens e sobre trilhos, desvela um singelo e melancólico filme sobre descoberta sexual e identidade, fatores humanos sempre permeados por uma itinerância agressiva e imprevisível. Há road movies, uns acreditam, que melhoram o homem. Mas a estrada, só a estrada, nua e crua, essa que leva para uma terra prometida ilusória, pode simplesmente demolir o homem.

 

O verão dos peixes voadores (El verano de los peces voladores, Chile/França, 2013). De Marcela Said. 2/5.

Terminei o Festival de Brasília com um filme (Exilados do vulcão) fotografado por Inti Briones. Comecei a Mostra São Paulo com um filme fotografado por Inti Briones.

Em busca de uma catarse que nunca chega, o filme de Quemada-Díez explicita diferenças de classe por meio de uma adolescente riquinha durante as férias de verão, que, nesta ordem, 1) tem seu coração partido por um garoto que fica com uma de suas amigas, 2) conhece a realidade precária e esquecida dos Mapuche, povo indígena que disputa terreno com seu pai, 3) claro, fica caidinha por um jovem e cantante Mapuche. O verão, aqui, é amazonicamente úmido, composto de verdes impactantes, e tão nebuloso quanto a atmosfera alva e onírica de Exilados. Mais um caso, portanto, de filme bonito, bem-sucedido enquanto tradução visual de estados de espírito, porém farto de arestas — acredite, seus 88 minutos demoram mais a passar que os 250 de Norte, o Fim da História.

Blackfish

outubro 8, 2013 9:42 am Deixe um comentário

Blackfish-2013-4

Este documentário sobre orcas assassinas — em especial, Tilikum, responsável por três mortes em diferentes datas (1991, 1999, 2010) — interessa muito mais pelo desconforto que causa do que propriamente por suas (moderadas) qualidades cinematográficas. Blackfish inscreve-se num tipo muito específico de documentário — nature horror documentary, ou algo do tipo, popularizado há quatro anos pelo sanguinolento The Cove.

É tanto denúncia — à maneira dum thriller corporativo –, já que reúne entrevistas com cientistas e ex-treinadores e informa, numa das cartelas que antecedem os créditos finais, que a outra parte interessada, o parque SeaWorld, não quis participar do filme; quanto um filme de terror, pois boa fatia do título é dedicada à compreensão desses mamíferos carinhosos, apegados à família, inteligentes, comunicativos, mas sujeitos a comportamentos imprevisíveis, arredios e violentos quando mantidos em piscinas apertadas, com comida racionada e na companhia de orcas desconhecidas.

Tilikum, a orca macho capturada em 1983, surge desde o começo quase como um objeto biográfico — aliás, não seria exagero se o doc se chamasse Tilikum — Portrait of a serial killer. Seus ataques são ora recuperados pela memória de testemunhas — pessoas, aliás, que sequer foram entrevistadas pela polícia no ataque de 1991, no pequeno parque Sealand — ou via registros assustadores em vídeo, associados a depoimentos igualmente pesados. Se este fosse um filme do Herzog, certamente teríamos uma reflexão à la O Homem Urso sobre o ato egoico de filmar a si mesmo em situações periclitantes frente a predadores.

Mas a preocupação de Gabriela é em reforçar — talvez de modo excessivo, acoplando uma trilha sonora suspensiva e emotiva às falas e ruídos — um argumento que as várias vozes e as imagens fortes já fornecem a cada plano: tirar esses animais de seus habitats para mostrá-los ao público (sobretudo às crianças) como brinquedinhos engraçados e fofinhos de parque de diversões não é nada bonito e envolve uma arquitetura marqueteira agressiva de meias verdades e falsa ciência.

Não, as orcas não vivem mais em cativeiro. Não, o tempo de vida desses animais não é estimado somente em 30 ou 40 anos como dizem guias, funcionários e “especialistas” do SeaWorld, mas 60, 70 ou mais, tal qual nós, humanos. Não, os ataques não têm relação com possíveis falhas ou deslizes ou escorregões dos treinadores e a causa mortis de nenhuma das mortes foi afogamento, como apontam notícias e notas de imprensa divulgadas pelo SeaWorld.

Como toda boa denúncia, Blackfish, este Free Willy recomendado para maiores de 12/14 anos, deixa ainda outras informações enervantes no ar. Uma determinação judicial agora não permite que orcas e treinadores tenham contato direto nas piscinas utilizadas para as apresentações, mas 1) Tilikum continua na ativa, 2) praticamente todas as orcas adultas e jovens nasceram com os genes estressados e feridos e traumatizados de Tilikum — Blackfish 2: Mayhem promete, portanto –, 3) e, até hoje, diz um especialista, não há registro de ataque de orcas a humanos no mundo natural.

Tire suas conclusões.

Blackfish (EUA, 2013, 83 min). De Gabriela Cowperthwaite. 3/5.

Biff – penúltimo/segundo dia

junho 23, 2013 11:28 am 1 comentário

Sem rodeios, despejo sentenças rápidas e ríspidas sobre uma versão mexicana e sisuda de Domésticas — aham, o do Meirelles mesmo e não o doc do Gabriel Mascaro — e um irritante crowd-pleaser taiwanês que, como avaliou a amiga que viu o filme comigo, caberia num episódio de Glee. Nunca consegui sequer TERMINAR um capítulo da série na vida, mas concordei sem pestanejar.

Às pedradas:

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Workers, de José Luis Valle. 2.5/5

Um filme de estreia que se entrega como filme de estreia a todo instante: excessivo, deslumbrado com as posições sociais que põe à mesa e insistente nas dualidades que deseja escancarar. De um lado, um faxineiro duma fábrica de lâmpadas da Philips — ofício que só descobrimos com sei lá quantos minutos de projeção — com trinta anos de casa que não consegue se aposentar por causa da completa falta de humanidade do CEO. Do outro, uma governanta, uma jovem doméstica abusada na infância por um vizinho norte-americano, um motorista que dirige um Mercedes há 30 anos (e nunca pôde comprar seu próprio coche) e dois enforcers que, há anos, obedecem às ordens de uma velha rica e sua Princesa — uma cadela tratada como filha caçula.

Valle é habilidoso e paciente com a câmera, não há dúvidas disso — a precisão simbólica de alguns planos impressiona, espelhos fronteiriços entre Tijuana e EUA, faxineiro mudo de tão infeliz e governanta muda de tão infeliz, ambos pela morte de uma criança de três anos, nos anos 1960, na piscina da casa da patroa. Workers é rotineiro em seus planos a ponto de estimular, a partir do tédio, da imobilidade social, pequenos atos de vingança de um e de outro — o faxineiro quebra lâmpadas discretamente, deixa torneiras abertas, desperdiça papel higiênico e, só agora percebo, aprende a ler com um garoto que conheceu na praça só para, dez após o início das aulas particulares, ser capaz de assinar a própria demissão e deixar o emprego com alguma dignidade; e a governanta, aliada aos outros, decide matar a Princesa aos poucos, sabotando a rotina de dondoca do bicho com ruídos, mudanças de rotina, alimentação e outras pequenas crueldades que nós, enquanto público, aprovamos silenciosamente.

Eis o curioso deslize: Valle, também ele, abusa da força dessas réplicas, largando ao longo dos 120 minutos de filme uma porção de quinas, nós frouxos e banalidades. A revolta silenciosa do proletariado, aqui, é cozida em fogo baixo. Mas, no fim, também queima — e como queima.

touch of the light foto

Um toque de luz (Ni guang fei xiang), de Chang Jung-Chi. 2/5

Olha, como atacante de todo e qualquer herdeiro de Rain man ou I am Sam e suas mutações, devo dizer que este aqui, chancelado logo na primeira cartela de créditos iniciais com um discreto A WONG KAR-WAI PRESENTATION, muito me irritou. Um menino cego — de interpretação genuína, é preciso dizer –, pianista desde novinho, 1) começa a faculdade de música, 2) enfrenta toda sorte de apertos — de caminhar pelos corredores do campus a ser respeitado pelos colegas –, 3) divide o quarto com um nerd gordinho fabricado para ser um perdedor tão engraçado quanto um Jonah Hill, 4) conhece uma caixa de lanchonete que sonha em ser bailarina — e por ela é friendzonado, 5) e, se você já viu — e eu sei que já viu — O lado bom da vida ou qualquer outro filme-gracinha sobre losers que vencem concursos musicais/artísticos/de talentos que os protagonistas têm e escondem ou não têm e descobrem no ato da competição e, assim, dobram o estado de coisas, ufa, paro por aqui.

A plateia do Biff aplaudiu, saiu falando coisas como “nossa, quanta pureza”. Eu só teria urrado brados de louvor se esse plot tivesse caído nas mãos dos irmãos Farelly. Após escrever tanta bobagem, percebo que só estou irritado porque vi dois filmes rigorosamente iguais em menos de dez horas e agora não sei mais distinguir qual é qual — Um toque de luz e Universidade Monstros. Sem mais.

Biff – antepenúltimo/primeiro dia

junho 22, 2013 10:49 am Deixe um comentário

Antepenúltimo-primeiro? Sim. Mas eu explico. Saí do cotidiano diário do jornalismo impresso, migrei para uma revista e, portanto, desacostumei à pilha de cobertura diária, do afã de falar sobre muito com pouco espaço, entre outras ânsias. E, claro, desde o dia 13 — data da abertura da segunda edição do Biff, o Festival Internacional de Cinema de Brasília — se tornou impossível fazer outra coisa senão ler/ver a profusão de relatos/artigos/tweets/compartilhamentos dos protestos que inflamaram o país.

Então, meu Biff 2013 será magrinho. Abri os trabalhos com o chinês Voando com a garça, um filme mediano com criancinhas graciosas e velhinhos sorridentes (todos parentes do diretor) que só serve para confirmar quão grande é As coisas simples da vida; e fechei a conta com as dores de uma adolescente autodestrutiva em Como se fosse amor, algo como um Depois de Lúcia reforçado nas cenas de sexo e filmado com a mesma estética vérité-de-iluminação-fraca quanto outras dúzias de indies americanos.

Bora lá:

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Voando com a garça (Gaosu tamen, wo cheng baihe qu le), de Rui Jun Li. 2.5/5

Primeiro e último plano são impressionantes, porque esboçam sínteses dos relacionamentos entre vida e morte — ou entre vida e o post-mortem — que o filme preguiçosamente elabora em seus 99 minutos de duração. Um vovô de 73 anos é levado para a casa dos três filhos, ao que parece, parar esperar a morte, ser cremado em outra cidade e, assim, dar descanso definitivo às crias — adultos impacientes com o pai e os filhos que eles próprios tiveram.

O ancião foi um pintor de caixões — isso mesmo — senil e dorminhoco. Hoje, seu ofício envelheceu mal — a cremação virou bandeira do governo, a demanda por caixões minguou. Ocioso e longe do carteado com seus amigos, conta histórias aos netos — relatos sobre garças brancas que só ele vê e que segundo ele aparecem todo fim de tarde para beber água à beira do lago. Parece um drama familiar pueril, bonitinho, desses que provocam frequentes “ohhh…” no público pagante — parece e é –, mas o que de fato interessa é a defesa inconteste e teimosa de um conto franco e nada mórbido sobre simplesmente morrer em paz.

O vovô quer ser enterrado e os únicos que o entendem e, tal como seus pais na tarefa de conduzi-lo ao crematório, levam a sério o dever de organizar o funeral do morto são seus netos. Só há inocentes — o velho que pretende morrer dormindo e, no caso específico de quem empunhou a pá, o garoto que vê o enterro como uma versão perene (e ainda divertida) da brincadeira de cobrir amiguinhos com areia e contar quantos segundos eles suportam sem respirar embaixo da terra. Uma pena, porém, que a força do filme se concentre, repito, nos planos-síntese — o primeiro, em que o velho colore seu último caixão enquanto seus netos brincam a dois metros dele; e o(s) último(s), com o vô no último sono e os dois primos contentes à beça. Luto é para quem já perdeu a inocência.

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Como se fosse amor (It felt like love), de Eliza Hittman. 2/5

Uma adolescente vítima de bullying, órfã de mãe e que vive com o pai. Os elementos de Depois de Lúcia estão todos aqui, mas a estreante em longas Eliza Hittman dá ênfase às vontades sexuais — ou aos desejos nunca concretizados — e aos caminhos perversos escolhidos pela própria protagonista. Lila ouve a melhor amiga falar sobre suas experiências, a vê com o namorado aos amassos na praia — e também fora dela — e observa até o vizinho, um menino mais novo que ela — ou somente um baixinho da mesma idade — se engraçar com uma garota do bairro. E ela: zero.

Há incontáveis narrativas coming of age tão dolorosas e precoces quanto, mas como este é um filme independente — e com não atores –, Eliza possui carta branca para enquadrar intimidades registradas em troncos, costas, ombros, braços, bundas — cabeças aparecem cortadas aqui e ali no plano, já que o que importa são corpos quentes e não as cabeças que os administram –, dar tempo de tela às carícias em meio ao verão que ilumina o Brooklyn, permitir rápidos nus frontais masculinos — numa cena terrível que poderia ter terminado num bukkake — e alinhavar todos os autoflagelos num ato final pretensioso à beça. Lila, veja você, sujeita-se a deitar ao lado do garoto que a interessa logo após ele, bêbado e sonolento, ter transado rapidamente com outra garota. Nada é consumado. Mas é como se tivesse sido. Caso de filme que mantém interesse simplesmente pelos riscos que corre e não pela qualidade da realização.

O abismo prateado

maio 7, 2013 2:03 am Deixe um comentário

abismo prateado

Se nos outros dois longas de Aïnouz — longas solo, portanto aqui excluo Viajo porque preciso, volto porque te amo — Hermila Guedes e Lázaro Ramos emprestam seus corpos a personagens que reagem ao sofrimento — e que, em contrapartida, sofrem por reagir –, a Alessandra Negrini de O abismo prateado, tão absorta com a separação do marido, imposta por um sms e uma mensagem de voz, parece inaugurar um novo tipo de persona no cinema do cearense.

Violeta, uma dentista que vive em Copacabana e tem um filho de 14 anos, não consegue ligar o homem que mergulhou no mar na noite passada e fez amor com ela ao estranho que no dia seguinte, enquanto ela malhava na academia, lhe mandou um sms esquisito e decidiu desaparecer, depois explicando num recado sonoro que não a ama mais (e ele reforça a negação três vezes ao longo do adeus), que se sentia sufocado, que não vai voltar nunca mais, que vai para Porto Alegre, Patagônia e talvez para um próximo destino que nem ele sabe dizer.

Ela sai do consultório, pedala, chora, é desequilibrada por um motorista imprudente, machuca o braço, cai numa construção gerenciada por uma amiga engenheira, abre pontos na cabeça, fecha os pontos com um curativo em casa, deixa filho e sobrinha sozinhos, avisa que tem sorvete, pão, presunto e queijo e diz que vai para Porto Alegre; mas na verdade ela vai mesmo é para as ruas do Rio de Janeiro, ruas que ela percorre sem rumo, acompanhada pelo mesmo trabalho de câmera íntimo e grudento que Aïnouz e Marcelo Gomes utilizaram ao longo da última década.

É um cinema realista tipicamente contemporâneo e frequentador de festivais, apegado à vida comum, à morosidade do cotidiano, do trabalho, das grandes perdas, dos pequenos ganhos, das marchas que atrasam e empurram as narrativas humanas. Em resumo, uma proposta substance over style — tão discutível, como aqui, e acertada, como em O céu de Suely, quanto qualquer produto style over substance.

O fotógrafo Mauro Pinheiro Jr. deixa Violeta focalizada em primeiro plano e engole trevas que aninham amarelos e laranjas e vermelhos da cidade e o brilho prateado de lágrimas que custam a cair. A nova personagem aïnouziana, escrita por Beatriz Bracher, não pede resgate — afinal, este, como tantos outros dramas contemporâneos, é mais um registro de situações do que uma reflexão sobre elas –, mas o cineasta quer tanto dar a ela uma sensação de recomeço — nem que seja só isso mesmo, uma sensação — que introduz vozes nômades, de um pai e sua filhinha de passagem pelo Rio, para refletir os sentimentos maternos e amorosos que ela precisa achar de novo. A solidariedade é bonita — mas o passeio dos três por um aeroporto Santos Dumont vazio de madrugada está no filme para isso, amenizar o mais longo dos dias.

Da minha parte, queria a Violeta calada, esgotada e derrotada pelo resto do dia. A solidão era bela e necessária como o silêncio da noite.

O abismo prateado (Brasil, 2011, 83 min). De Karim Aïnouz. Com Alessandra Negrini, Thiago Martins e Otto Jr. 2.5/5.

[REC] 3: Gênesis

abril 29, 2013 3:37 pm Deixe um comentário

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Este prelúdio — um Festa de família (1998) com mortos-vivos — pretende dar uma guinada na franquia que começou mui bem em [REC] — até hoje lembro que não consegui respirar direito nos 15 minutos finais — e desandou na medonha proposta shoot-’em-up com câmeras da SWAT de [REC] 2: Possuídos. Aqui, a abordagem found footage é abandonada por completo em detrimento de uma trama exploitation 1) que mal explica que diabos aconteceu na Espanha antes do primeiro filme e 2) pretende ser um romance gore sobre dois pombinhos indignados com a possessão demoníaca que infestou o casório e ameaça separá-los para sempre.

Somente o prelúdio-do-prelúdio é filmado com câmeras amadoras — ou, na menos pejorativa das definições, câmeras operadas por personagens. Um adolescente segura um aparelhinho em HD com vários megapixels e se espanta ao ver um cinegrafista profissional — sósia barbudo do Nick Frost — portando uma combinação gigantesca de câmera e suporte. O cineasta-de-casamentos paga de auteur, cita Dziga Vertov e até Renoir. E o menino segue filmando — zoom nos decotes, flagras de casais ferventes e, em momento significativo, um tio mostrando a mão mordida por um cachorro que estava morto, mas vivo.

A partir daqui vale dizer que a única coisa que interessa após o tal início do fim é que os dois pontos de vista — o amador do garoto e o profissional do técnico — são dispensados sem a menor cerimônia. O aparato caro do cinegrafista é pisoteado por um personagem que não quer ser filmado e acha um absurdo que alguém queira registrar tudo e todos o tempo inteiro — atitude que nunca ninguém se presta a tomar nos found footage que vemos por aí. A cena seguinte já é um plano de cinema, movimentado por um diretor invisível. E a câmera portátil do menino serve somente para fim utilitário, quando a visão noturna se faz necessária num túnel que liga cozinha e pátio.

No momento da ruptura, surge uma tela preta com o título do filme. A sensação ambígua que eu tinha no começo — found footage metade amador, metade profissional? — se desfaz sem fade out. Um fã ardoroso — não, eu não sou, apesar de achar A bruxa de Blair, Poder sem limites e [REC] filmaços  — diria que a câmera jogada no chão, partida, inutilizada e, veja você, filmada logo em seguida como um personagem morto, a luzinha vermelha piscando como um olho humano que hesita em fechar para sempre, simboliza a falta de sentido de jogar a responsabilidade da realização de um filme nas mãos de um personagem que será ele próprio movimentado como um operador de câmera invisível a serviço de um diretor invisível.

Mas [REC] 3 não é um filme filosófico sobre a precariedade intrínseca do cinema found footage — uma obra pós-found footage, portanto –, muito menos a superação desse cinema pela destruição da única tentativa possível de profissionalizar — via cinegrafista de casamento — algo pensado para ser unicamente amador, imperfeito, feio, mal ajambrado. Neste sentido, o Super 8 de A entidade — um filme quase bom, que merece revisão — leva essa discussão a sério por mais tempo de tela.

O terceiro [REC] é desses filmes que valem por uma só sequência — a noiva em fuga com um amigo diz sentir que o noivo está vivo, escuta baixinho acordes de uma música romântica, possivelmente a música dos dois, nos alto-falantes, dá meia volta, rasga metade do vestido, apanha uma motosserra e abre caminho de volta para o salão arrancando cabeças de familiares e amigos e talvez estranhos, dividindo ao meio corpos de familiares e amigos e talvez estranhos.

Um filme talvez tão rude, tosco, divertido, exibido e descuidado (e, vá lá, sexy) quanto qualquer Resident Evil, no qual a seriedade de rodar um filme “de verdade” — e não uma gravação encontrada — produz uma encenação tão frágil quanto a de — bem, uma gravação encontrada.

[REC] 3: Gênesis (Espanha, 2012, 80 min). De Paco Plaza. Com Leticia Dolera, Diego Martín e Ismael Martínez. 2.5/5.

A busca

março 18, 2013 11:32 pm 1 comentário

a busca 2012

Se Eles voltam é uma tentativa — bem resolvida, paciente e sem enxertos emocionais — de visitar as crises da classe média brasileira por meio de uma jornada de abandono e conhecimento do outro — pais abandonam filhos, sobretudo uma filha adolescente, filha é apresentada a realidades mais pobres em sua caminhada –, A busca emoldura as mesmas questões numa trama invertida.

Aqui, um filho — desenhista de talento ignorado, desculpa visual de milhares de family dramas para justificar a rebeldia e culpar as autoridades do lar — abandona os pais numa viagem a cavalo, rumo à casa do avô, deixando rastros pelo caminho, pistas reproduzidas e contadas pelas pessoas com quem topou, e o pai vai em sua busca, atravessando dois estados para resgatar o filho que abandonou a vida inteira, conversando com os mesmos desconhecidos que viram o menino, que ajudaram o menino, que apontam qual a direção tomada pelo menino.

A busca é uma análise esquálida da família (rica) brasileira, filmada por Luciano Moura com uma câmera que focaliza um sem-número de locações para nada, que narra encontros fortuitos (uma vila onde somente um velhinho com marca-passo possui telefone) e cômicos (o sujeito que dirige um trator, veste a camisa do garoto e acha que o pai é um fiscal da prefeitura) e dramáticos (o parto à beira do rio, em Mimoso, num festival de música) para depois fornecer uma catarse risível — avô, pai e filho reunidos, a mãe em casa com o pés na água da piscina que tanto relutou a reformar (dando a entender que voltou/vai voltar com o marido?) –, que desperdiça tempo registrando diálogos do tipo “ele tá bem, tá vivo, estou chegando perto dele”, diz o ex-marido, “traz ele pra mim”, diz a ex-mulher.

(Noutro breve comparativo com Eles voltam, vale também lembrar que a família da menina mal aparece no filme; os reflexos da redoma são sugeridos no comportamento da personagem, enquanto A busca, apesar de seguir sentido contrário — o pai é quem deve ser transformado –, é apressado e óbvio, mostrando as crises já nos primeiros planos e, novamente, como em tantos family dramas, resumindo duas gerações de filhos problemáticos por meio de um objeto patriarcal — outra desculpa visual — que traz dores à tona, mas serve como bálsamo para essas mesmas dores — uma cadeira.)

E, finalmente, o que me incomoda mais: A busca não funciona nem como simples filme de gênero — drama familiar, road movie ou thriller sobre fuga e/ou desaparecimento –, pois é preguiçoso e insosso nas mínimas coisas — a montagem apoiada em telas pretas intermitentes e batidas graves na trilha sonora, a encenação escorada nas feições e metamorfoses de um corpo conhecido (Wagner Moura). Dispensável.

A busca (Brasil, 2012, 96 min). De Luciano Moura. Com Wagner Moura, Mariana Lima e Brás Antunes. 2/5.

Searching for Sugar Man

março 10, 2013 3:32 am 1 comentário

searching for sugar man

Quanto maior a distância do documentário para o jornalismo, tanto melhor. Searching for Sugar Man cita um artigo (Looking for Jesus) e o jornalista autor desse mesmo artigo em seu emaranhado de depoimentos e pistas e vestígios na procura por um fantasma, um profeta, um tal de Rodriguez que vivia em Detroit (desde sempre, nos loucos anos 1970 ou na crise econômica que massacrou a região, uma cidade-fantasma) em fins de 1960/começo de 1970, gravou um par de discos clássicos que ninguém nunca ouviu, e fez sua despedida como mais um gênio suicida da contracultura, ateando fogo ao próprio corpo no meio de uma apresentação, como detalha um fã logo no começo do filme, ou apontando uma arma para a têmpora e, bam, adeus, fama que nunca veio, adeus, mundo demente.

O doc menciona artigo e jornalista autor desse mesmo artigo apenas para fins referenciais, e lá perto da metade de projeção, mas passa longe de adotar os mesmos procedimentos de apuração seguidos pelo repórter — que, diz ele, orgulhoso da pesquisa, “seguiu a trilha do dinheiro” para encontrar Sugar Man. O filme começa como uma história de mistério, conduzindo e manipulando o olhar de quem vê exatamente como uma ficção de mistério — quer dizer, as informações são liberadas e explanadas com reserva e deslumbramento, a montagem selecionando apenas aquilo que interessa para os momentos iniciais, deixando o espectador (supostamente) tão ciente quanto os personagens.

Isto é: sombras, fotos desfocadas de um sujeito com pinta de Neil Young e lábios grossos, ar algo entre indígena e latino, um compositor de letras dylanescas, capas de discos (Cold fact, uma beleza de álbum, e Coming from reality, uma espécie de Harvest + Bryter layter) estampadas por um risonho de óculos escuros, que andava pelas calçadas e ruas de Detroit como uma alma penada e costumava tocar num bar ocultado por luzes foscas e enevoadas. Uma não-carreira (a melhor definição dada por um dos entrevistados) interrompida por um ato incendiário ou uma bala na cabeça ou pelo autoexílio. Ou por nenhuma das alternativas.

O trovador perfilado pelas pessoas que o conheceram/viram/ouviram quatro décadas atrás não parece ir além disso: um indivíduo impossível de ser achado ou descrito com alguma segurança, tanto que o doc, inicialmente como solução de roteiro, se contenta em reproduzir canções (e animações minimalistas) para criar uma atmosfera tristonha de beco sem saída e estabelecer uma relação platônica do espectador com o sujeito — um cantor-compositor folk apaixonante, que estourou na África do Sul graças à pirataria, deu voz aos jovens dum país então massacrado por um regime baseado na separação e do ódio ao outro, mas do qual, infelizmente, nada se sabe/saberemos.

E então, de maneira sutil — e já nem tão inesperada, pois o filme é o registro de uma ressurreição anunciada — , Sixto Rodriguez aparece — pela primeira vez atestando que está vivo — abrindo a janela de casa, num gesto convidativo do homem simples que é, absolutamente anticelebridade, que vive recluso, sozinho, fazendo o trabalho descrito pela caçula como algo que “ninguém quer fazer”, derrubando casas velhas e abandonadas, alicerçando outras, pondo abaixo e erguendo a mesma Detroit que se impregnou em seus versos, acolheu suas noites em claro e fez dele um anônimo que não se ressente do anonimato.

Searching for Sugar Man, à maneira de seu antiprotagonista, acaba por revelar também um mecanismo envolvente de demolição e reconstrução de dados, promovido pelo diretor-produtor-montador Malik Bendjelloul — Sugar Man morreu, Sugar Man não morreu. O maior acerto é este: fornecer às imagens — ou à progressão das imagens — a sensação de constante descoberta, como quando criamos um interesse inexplicável por algo/alguém que acabamos de conhecer.

Searching for Sugar Man (Suécia/Reino Unido, 2012, 86 min). De Malik Bendjelloul). 4/5.