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Posts Tagged ‘2000s’

Shara

junho 10, 2011 1:42 pm Deixe um comentário

O plantão de fim de semana — sábado-segunda, domingo-segunda — não vai me deixar ver A floresta dos lamentos, o filme mais importante da Naomi Kawase. Mas ontem saí do CCBB encantado com Shara (4/5) — e agora já não sei mais qual é a minha cena de chuva favorita, a de Suzaku, no meio de uma estrada ladeada de árvores, dois personagens falam alguma coisa (e o que é dito no cinema dela pouco importa; o que é dito não consegue competir com o que é mostrado) e depois fecham o bico e de repente começa a chover, ou a de Shara (tem no YouTube e no Dailymotion), na parada/festival/desfile (que se chama Shara), corpos vestindo trajes alaranjados, bocas urrando, cortando o ar com mãos, braços e ombros, o público imitando timidamente cada movimento, e aí cai uma chuva forte, grossa, que deixa a tela granulada, o áudio da música e o coro coletivo perdem força, e o barulho da chuva é delicioso, mas o sol ainda está lá, iluminando os pés dos dançarinos, e, abruptamente, a chuva para.

Tudo isso num plano longo — e esse título é feito de planos enormes, pacientes, mas tem uma urgência em vários deles, a diretora com a câmera na mão, indo e voltando, entrando e saindo dos cômodos, contornando esquinas. Quando o personagem anda, a câmera vai atrás a pé, eu acho. E quando ele vai de bicicleta, ela, também, vai de bicicleta, eu acho.

A história — ou sugestão de história — é muito simples, frágil e mais urbana do que em Suzaku: enquanto o festival Shara não chega, uma família — pai, organizador do evento, mãe grávida (a cinesta atuando) e filho — convive com uma perda. O irmão do jovem desapareceu quando eles eram meninos. Não foi achado. E, o tempo todo, os três têm esses rostos aflitos, quase chorosos, mas Kawase não é melancólica, nunca é. Ela observa com carinho.

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O grão

abril 29, 2011 1:48 am Deixe um comentário

Aqui vai um post desatento: estou vendo o segundo tempo de Fluminense x Libertad — devo ter uma simpatia com esse sofrimento do tricolor carioca — e com as provas de Amor sem fim, de Ian McEwan, aguardando a minha atenção ao lado de dois controles remotos. Mas vamos lá.

Ontem — ou antes de ontem –, vi O grão, segundo filme que pude conferir na Mostra inéditos, do CCBB. Antes da sessão, avisos de dois amigos que entraram comigo na sala: Cariry veio do documentário, e os documentários do pai dele, Rosemberg, são chatos.

É exigente, propositadamente tedioso, aliás, acho que esse é o mote do filme: Petrus dirige planos longos, a propósito de histórias simples, arrastadas diariamente em torno das mesmas atividades familiares. Fátima, a jovem e primogênita destinada a um matrimônio com um mecânico. O pai, que se posta em frente à tevê sempre que está em casa, mirando uma garrafa de cachaça. A mãe, o rosto marcado pelo sofrimento da vida no interior, da servidão doméstica. Perpétua, a avó de Fátima e Zeca, caçula, sabe que a morte se aproxima, e compartilha com o netinho a fábula antiga (e algo mística) de um rei e uma rainha, casal abastado, cujo desejo é trazer o filho de volta à vida.

São 88 minutos de contemplação de coisas ordinárias, com um jeito que lembra pouco a sensação de verdade do documentário, uma postura que eu queria ter visto com mais confiança. Esperava mais — ou talvez tenha ficado mal acostumado com esse cruzamento entre ficção e documentário de que tanto gostei no mineiro O céu sobre os ombros, de Sérgio Borges, que ganhou os principais prêmios no último Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Aliás, isso me lembrou de que preciso muito ver A falta que me faz, outro elogiado do coletivo Teia. Acabou de sair em DVD.

Minha terra, África

abril 21, 2011 3:04 am Deixe um comentário

Fui ao CCBB hoje — aliás, ontem — para conferir um pouquinho da Mostra inéditos. Na programação, só títulos novinhos para o público daqui de Brasília — talvez nem tão novos para os frequentadores da Mostra São Paulo; eu os invejo. Cheguei para a sessão de Minha terra, África com uma amiga do jornal. Estávamos sendo apresentados ao cinema de Claire Denis. E saímos impressionados.

Vou ser breve, porque o relógio já acusa 1h34 e a ardência nos olhos se intensifica a cada minuto.

Denis pousa a câmera próxima a Marial Vial (Isabelle Huppert), agricultora que, mesmo cercada de insegurança social, num país cuja lei é o exercício da violência, recusa deixar a plantação de café para trás. Os planos são urgentes, mas não tensos. Flagram angústia, mas não têm nada de sombrio. E deixam suspensa no ar a sensação de que algo devastador está para acontecer: Maria vê seus empregados fugirem da terra, amedrontados por conflitos étnicos, e vai atrás de novos ajudantes; abriga um rebelde sob o seu teto e frustra-se com o comportamento preguiçoso do filho.

É claro que o próprio enredo sugere que a insistência de Maria em permanecer na terra não vai terminar como ela gostaria. Mas Denis aprisiona essa expectativa sutilmente, num crescendo atmosférico amarrado à narrativa — a trilha meditativa do Tindersticks, a urgência das sequências subjetivas, a fotografia que inscreve a pele de Maria na vastidão da savana (ela, apesar de estrangeira, estranha aos naturais daquela nação, pertence àquele lugar).

E lá vou eu atrás dos outros filmes dessa mulher.

(Antes de começar a sessão, chegou um sujeito na bilheteria pedindo ingresso para um certo África dos meus sonhos — aquele mesmo com a Kim Basinger. Foi prontamente corrigido pela atendente: “Senhor, é Minha terra, África.” Eu estava no guichê ao lado e por pouco não deixei escapar uma boa gargalhada.)

Retalhos

abril 17, 2011 11:25 pm 2 comentários

Terça passada viajei para o Rio de Janeiro. Fui cobrir o lançamento de Velozes e furiosos 5 – Operação Rio — que é ruim, claro. Não deu pra conhecer a cidade, o que já fiz em parte, em janeiro de 2001, na minha única visita à cidade. Mesmo assim, tenho lembranças fracas: banners enormes de Limite vertical e O sexto dia — filmes que adorei quando vi pela primeira vez — e a estrutura do Rock in Rio sendo desmontada. Fora uma caminhada forçada — já que o motorista nos largou, eu e mais dois jornalistas, a oito quadras do hotel –, não deu pra ver muita coisa. Mas isso não interessa agora.

Fui e voltei lendo Retalhos no avião, essa graphic novel insuportavelmente bela de Craig Thompson.

É um romance de formação em quadrinhos. Thompson cresceu numa família cristã (fanática), escutando sermões amedrontadores e lendo passagens bíblicas que exigiam fé irrestrita. Ele se expressava por meio do desenho, era malhado pelos colegas da escola por causa do cabelo que cobria as orelhas e dividiu a mesma cama com o irmão por um tempão.

Num acampamento religioso, veio a libertação: ele conhece Raina, por quem se apaixona de imediato. E ele a ama do seu jeito, com ideais angelicais de pureza e outras tantas ingenuidades desconcertantes de um cara de 17 anos que passou a adolescência inteira acreditando que a vida na terra é passageira, pecaminosa, enfim, é “canseira e enfado” — o que vem depois é o gozo eterno, louvores infinitos ao bom Deus que salvou Craig do pecado.

Thompson não precisa atacar o cristianismo para evidenciar seu passado. Ele é levemente irônico em algumas passagens, e fixa a narrativa numa progressão acidentada, fragmentada mesmo, desenvolvendo o temperamento do Craig adolescente e jovem enquanto investiga a infância. Retalhos tem traços simbólicos, alguns fantasmagóricos, e delicados. Thompson traduz amor, decepção e opressão com sensibilidade arrepiante. É um tratado gráfico rasgado e delicado sobre o primeiro amor.

O que vou dizer agora é um absurdo. Achei Retalhos um pouco parecido com Diário da queda, livro de Michel Laub a que dediquei um post há poucas semanas: nos dois, o protagonista é massacrado pela persistência da memória, mas sabe seguir em frente. Na HQ, assuntos mal resolvidos da infância e recordações recentes de uma ditadura do pensamento, imposta pelo protestantismo e pelos pais. No romance, a história de sofrimento dos judeus tritura e distorce o comportamento do principal.

Como é bom deixar uma marca na superfície branca. Fazer um mapa dos meu passos… mesmo que seja temporário.