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Mostra São Paulo – Dia 1/3

outubro 30, 2012 8:02 am Deixe um comentário

O tempo urge. Terei apenas 72 horas de Mostra São Paulo este ano — o que significa, em números (miúdos), algo entre 10 e 12 filmes, até quarta. Inaugurei minha segunda participação no festival (ontem, segunda) com o descompensado quase-doc Canção para o meu pai, do israelense Amos Gitai, fui em diante com A cara que mereces, filme de estreia do incensado Miguel Gomes (Aquele querido mês de agosto, Tabu) e encerrei o dia em clima de romance russo — deprimente, pesado, catatônico –, na sessão de Na neblina, de Sergei Loznitsa, um dos focos desta edição — ele em pessoa e todos os seus documentários + Minha felcidade estiveram dando uma voltinha por São Paulo. Ao que interessa:

Na neblina (V tumane, Alemanha/Holanda/Bielorússia/Rússia/Letônia, 2012, 127 min). De Sergei Loznitsa. 3.5/5

A Segunda Guerra vista através das histórias de três russos — um soldado, o superior deste mesmo soldado e um pobre homem acusado de traição, poupado da hora final por sorte (por azar, eu quis dizer). Loznitsa é tímido com a câmera — ela fica, para, continua devagar –, mas estica as cenas em planos longos, calmos, demorados, um personagem esperando a fala do outro, a respiração filmada sem cortes ou contraplanos. É um cinema que busca a completude dramática — literalmente, reunindo todos os elementos num quadro só, protelado até o limite –, mas não de estilismo — o propósito de Steve McQueen (Shame), quando resolve prolongar o momento da interrupção de um plano para obter resultados plásticos de uma sequência.

O tal sujeito injustiçado tentou sabotar trilhos por onde passariam vagões nazistas. A punição: ficar vivo, enquanto seus comparsas tiveram pena capital na forca. Um acordo à força, feito com os nazistas. Ele preferia ter morrido a isso. Sua mulher preferia que ele tivesse morrido a isso. Quando um oficial russo e seu ajudante deixam a guerra por alguns dias e vão atrás de Sushenya (Vladimir Svirskiy), o sobrevivente, de tão angustiado, não hesita em ir com os dois. Na mata escura — e sempre fotografada em tons esverdeados –, Burov (Vladislav Abashin) aponta o rifle para a cabeça do prisioneiro. O estalo de um galho denuncia companhia, tiros zunem, o atirador é alvejado, Sushenya não foge, em vez disso carrega seu algoz moribundo nas costas, enquanto o cabo acompanha os dois com uma arma engatilhada.

Os três estão na solidão de uma floresta fria, calada, nebulosa. Pode-se morrer em paz ali — um privilégio que quem está entrincheirado nas linhas de batalha certamente não terá. Loznitsa aproveita a introspecção geral para trazer à luz o passado dos três. É culpa dostoievskiana que não acaba mais — sobretudo para o dito traidor. O peso de carregar o seu assassino nas costas é maior que o fardo da honra ferida, da autoimagem de falso herói, da angústia de estar vivo enquanto seus amigos já se foram? Pouco interessa. Aos três, agora, só importa morrer dignamente. Na neblina exibe várias potências — entre elas, profundidade e aclimatação, digamos, de ares literários –, mas fica um degrau abaixo do último grande filme russo sobre a humanidade e seus demônios — Fausto.

A cara que mereces (Portugal, 2004, 108 min). De Miguel Gomes. 3/5

As (duas) histórias, conectadas por apenas uma moedinha dourada, são contadas num mundo real e adulto, mas recendem a fábulas infantis — a da Branca de Neve e os Sete Anões, para ser mais direto. Na primeira, Gomes filma como que um musical tragicômico no dia de aniversário de (30 anos) de Francisco, um caubói lisbonense melancólico e pessimista. É hilário: uma pantomina interpretada por gente crescida, em que as infantilidades surgem como páródia das crises da fase adulta.

A estrutura seriada, infelizmente, prossegue e termina num segundo conto alongado: versão “crescida” dos Sete Anões. Há um certo esbanjamento de esquisitices — afinal, são contos de fadas –, uma ironia incontrolável nas firulas visuais — efeitos sonoros cartunescos, a narração em off que dialoga com os personagens, os recortes de livros infantis –, e a cenografia é toda construída em cima de realismo e mágica. Não chega a ser um Wes Anderson, mas fica próximo disso (dum conceito rígido e não negociável de estilo): já em seu filme de estreia, Gomes marca terreno com uma direção de personalidade, que não parece perseguir outra coisa senão a originalidade. Falho, mas aventureiro e arriscado.

Canção para o meu pai (Lullaby to my father, França/Suíça, 2012, 82 min). De Amos Gitai. 2/5

Munio, o pai de Amos Gitai, foi arquiteto, estudou na Bauhaus, e sabemos da sua importância para Israel porque seu filho lhe dedica um documentário destemido, que pinça depoimentos, abre espaço para leitura de cartas, permite poesia e ainda arranja tempo de tela para interpretações ficcionais (mui bem filmadas) do passado, centradas sempre na mãe do diretor. Parece um impressionante esforço de recuperação de memória e legado familiar, mas este é o caso em que o conceito não se percebe muito claramente — na verdade, o conceito é melhor descrito como falta de focalização do que Gitai estava disposto a filmar.

A homenagem teria dado um belo longa ficcional. Veja algumas das cenas, já prontas, já compiladas em Canção: Gitai filma o seu próprio parto no primeiro plano; cria imagens lindas saídas de um road movie puramente pictórico, com flocos de neve e luzes de tráfego, ou com estacas de madeira e trilhos duma estrada de ferro; monta um plano sequência digno de épico numa estação do metrô. E os outros momentos? Falas cifradas, recriações teatrais de alguns desses mesmos testemunhos, fantasmagóricas passagens da câmera por locações desoladas, e meditações que fariam mais sentido num livro biográfico de Gitai — ou num livro de lembranças e impressões do pai. Lucia Murat faria melhor.

O homem ou é tonto ou é mulher

maio 9, 2012 12:41 pm Deixe um comentário

“Se uma mulher me pedir:
— Quero que subas até ao 10º andar pelas escadas e de lá do alto quero que grites que me amas; se uma mulher me pedir isto, é claro que eu não vou subir a lado nenhum, nem gritar nada — que eu não sou de gritos — mas de certeza que lhe vou dar um beijo.

Elas não resistem a isto.

Ser romântico é dar beijos em qualquer situação.

Elas pedem-nos uma outra coisa e nós zau: um beijo.

Elas choram e nós zau: 1 beijo.

Riem à gargalhada e nós, zica: 1 beijo.

É assim: beijos, beijos, beijos.

Sou romântico, mas não sou palerma.

Subir de escadas até ao 10º andar por causa de uma mulher?

Nem pensar.”

 

O homem ou é tonto ou é mulher, de Gonçalo M. Tavares. Casa da Palavra, 96 páginas.

Tudo se ilumina

março 14, 2012 12:59 pm Deixe um comentário

“A vida de Brod era uma lenta percepção de que o mundo não era para ela, e de que — fosse por que razão fosse — ela jamais seria feliz e sincera ao mesmo tempo. Ela sentia-se transbordar, sempre produzindo e guardando mais amor dentro de si. Mas não havia libertação. Mesa, bibelô de marfim em forma de elefante, arco-íris, cebola, penteado, molusco, Shabbos, violência, cutícula, melodrama, vala, mel, paninho ornamental… Nada daquilo a comovia. Ela abordava o mundo com sinceridade, buscando algo merecedor do enorme amor que sabia ter dentro de si, mas para cada coisa teria de dizer, Eu não te amo. Mourão de cerca cor de casca de árvore: eu não te amo. Poema longo demais: eu não te amo. Almoço na tigela: eu não te amo. Física, tua ideia, tuas leis: eu não te amo.  Nada dava a sensação de ser mais do que na realidade era. Tudo era apenas coisa, completamente atolada em sua coisice.

Se abríssemos ao acaso uma página no diário dela (que ela devia manter, e mantinha consigo o tempo todo, não por temer que fosse perdido, ou descoberto e lido, mas sim por registro e lembrança, e não ter onde registrá-lo), encontraríamos algumas descrições do seguinte sentimento: Eu não estou apaixonada.

E assim ela tinha de se satisfazer com a ideia do amor — amando o amor de coisas com cuja existência ela pouco se importava. O próprio amor se tornou objeto do amor dela. Ela se amava no amor, amava amar o amor, tal como o amor ama amar, e assim conseguia se reconciliar com um mundo que estava muito aquém do que ela poderia esperar. Não era o mundo que era a grande mentira salvadora, mas a vontade dela de torná-lo belo, de viver uma vida em segundo grau, num mundo aparentado em segundo grau com aquele no qual todos os outros pareciam existir.”

Tudo se ilumina, de Jonathan Safran Foer. Tradução: Paulo Reis e Sergio Moraes Rego. Rocco, 368 páginas.

Febre de bola

fevereiro 28, 2012 1:47 pm Deixe um comentário

“De modo que onde está a relação entre o torcedor e o espetáculo, se o torcedor tem uma relação tão problemática com os maiores momentos do jogo?

Essa relação existe, mas está longe de ser simples e direta. O Tottenham, em geral considerado um time de futebol superior, não tem tantos torcedores quanto o Arsenal, por exemplo; e os times que têm reputação de futebol-espetáculo não atraem filas que dão a volta ao quarteirão. O jeito com que nossos times jogam é irrelevante para a maioria de nós, da mesma forma que ganhar taças e campeonatos é irrelevante. Poucos de nós escolheram nossos clubes, eles foram simplesmente apresentados a nós; e, sendo assim, quando eles são rebaixados da Segunda Divisão para a Terceira, vendem os melhores jogadores, compram jogadores que você sabe que não podem jogar ou lançar um chuveirinho setecentas vezes na direção de um centroavante de três metros de altura, simplesmente praguejamos, vamos para casa, ficamos agoniados por uma quinzena e depois voltamos para sofrer tudo isso de novo mais uma vez.”

Febre de bola, de Nick Hornby. Tradução: Paulo Reis. Rocco, 248 páginas.

Precisamos falar sobre o Kevin

novembro 20, 2011 12:49 pm Deixe um comentário

Quando vi os primeiros teasers e li as primeiras críticas (não muito entusiasmadas, mas mesmo assim elogiosas) de Precisamos falar sobre o Kevin, o filme de Lynne Ramsay que competiu em Cannes, logo lembrei daquele livro da Intrínseca que de vez em quando eu encarava nos montes de “mais vendidos” de livrarias por aí. E lembrei também que ele sempre me pareceu um best-seller meio perdido no meio de sagas vampirescas, melodramas policiais e demais títulos de ficção — as novelizações de personagens históricos, como esses romances ambientados no Egito antigo, me deixam dividido entre a folheada curiosa e a folheada cínica, acompanhada de um sorrisinho no rosto.

Enfim, dei todo esse rodeio só para copiar um trechinho do romance de Lionel Shriver, que muito me angustia a cada página virada. O livro reproduz cartas de Eva Khatchadourian, a mãe de um assassino à moda Columbine — chacinou sete colegas, uma professora e um funcionário da escola onde estudava, em Nova York — endereçadas ao ex-marido, Franklin, um americano robusto, um nacionalista incontido. Eva é o contrário do homem: antes da sangrenta quinta-feira, em que Kevin escreveu com dedos frios mais um capítulo tenebroso da história de violência juvenil nos EUA, ela viajava a cantos exóticos do mundo, para depois elaborar guias de viagem.

Shriver desfia um thriller suburbano vergastado de um remorso sincero e uma ironia autodepreciativa. Numa América de pretensões não menos que messiânicas, um punhado de garotos entediados como Kevin, que matam com a frieza de um adulto hostil e experimentado na maldade, desnudam uma ordem familiar e social perfeita — crianças saudáveis, pais endinheirados, churrascos dominicais — e insegura. (Curioso é notar que a publicação original foi em 2003, mesmo ano do devastador filme pós-Columbine de Gus Van Sant, Elefante.)

“As carnificas cinematográficas só são difíceis de engolir, se, em algum nível, a pessoa acreditar que as torturas estão sendo infligidas nela. Na verdade, é irônico que esses espetáculos tenham reputação tão ruim entre os fanáticos pela Bíblia, já que os horripilantes efeitos especiais dependem, para impactar, da compulsão decididamente cristã da plateia de se colocar no lugar de seu semelhante. Mas Kevin havia descoberto o segredo: não só que não era real, mas também que não era ele. Com os anos, vi Kevin assistindo a decapitações, estripações, desmembramentos, empalações, crucificações, escalpos e olhos sendo arrancados e nunca o vi piscar um olho. Porque ele tinha sacado o macete. Se você não se identifica, o horror e a sanguinolência são tão desconcertantes quanto ver sua mãe preparando um estrogonofe. Portanto, do que exatamente estávamos tentando protegê-lo? O lado prático da violência é geometria rudimentar, suas leis, as mesmas da gramática. Assim como a definição escolar do que é preposição, a violência é qualquer coisa que um avião pode fazer a uma nuvem. Nosso filho tinha um domínio acima da média tanto de geometria quanto de gramática. Havia muito pouco em Coração valente — ou em Cães de aluguel, ou em Brinquedo assassino — que Kevin não era capaz de ter inventado ele mesmo.”

Neve

setembro 14, 2011 2:11 am Deixe um comentário

Não completei nem 1/5 de Neve, do Nobel de literatura Orhan Pamuk — desta bem acabada série de reedições em comemoração aos 25 anos da editora; antes, li e ganhei Desonra, de Coetzee, mas o do Pamuk é emprestado; e, sim, o adendo foi desnecessário, uma tentativa boba de provocar inveja –, e já tenho uma sensação angustiante depois de cada parágrafo completado — tanto que volto com medo de ter deixado passar alguma coisa, alguma letra, alguma vírgula, de não ter percebido a cadência quieta que envolve cada início e fim de frase.

(Som de alguém folheando um livro de 656 páginas)

Aí vai uma das extasiantes — e, repetindo, elas são muitas — passagens:

“Caiu outro silêncio entre eles, e Ka começou a entrar em pânico. Se as estradas não estivessem fechadas, ele teria pulado no primeiro ônibus que saísse de Kars. Sentiu uma súbita de desespero por essa cidade decadente e seu povo desamparado. Num gesto mecânico, voltou a cabeça para olhar pela janela. Por longo tempo, ele e Ipek ficaram contemplando a neve distraidamente, como se tivessem todo o tempo do universo e não se preocupassem com o mundo. Ka sentia-se impotente.

‘É verdade que você veio aqui para cobrir as eleições municipais e os suicídios?”, perguntou Ipek finalmente.

‘Não’, disse Ka. ‘Fiquei sabendo em Istambul que você e Muhtar tinham se separado. Vim aqui para me casar com você.’

Ipek riu como se Ka tivesse contado uma piada muito boa, mas logo seu rosto corou vivamente. Durante o longo silêncio que se seguiu ele olhou nos olhos de Ipek e percebeu que ela lia dentro dele. Quer dizer então que você nem se deu um tempo para me conhecer, seus olhos diziam a ele. Você não pôde nem dispor de alguns minutos para flertar comigo. Você está tão impaciente que não pôde esconder suas intenções. Não tente fingir que veio aqui porque sempre me amou e não conseguia me esquecer. Você veio aqui porque soube que estou divorciada, lembrou-se de como eu era bonita e achou que eu era mais acessível agora que vim parar em Kars.

Àquela altura Ka estava tão envergonhado pelo seu desejo de felicidade, e tão resolvido a se punir por sua insolência, que imaginou Ipek proferindo a mais cruel das verdades: o que nos liga é o fato de que ambos diminuimos nossas expectativas em relação à vida. Mas, quando ela falou, disse algo muito diferente do que ele imaginara.

‘Eu sempre soube que você daria um bom poeta’, disse ela. ‘Eu queria cumprimentá-lo pelo seu trabalho.'”

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A fuga da mulher gorila

setembro 3, 2011 2:19 pm 1 comentário

Em 2010, perdi — culpa da monografia — a projeção de A alegria, o filme de Felipe Bragança/Marina Meliande que tinha passado em Cannes no Un Certain Regard (minto, Quinzena dos Realizadores) e era mostrado no Brasil pela primeira vez via Festival de Brasília — coisa que não vai existir mais, né, já que o nosso festival abandonou o ineditismo e agora todo mundo pode entrar, inclusive os perdedores de outros certames.

Daí que ontem, depois de uma sessão alegre/nostálgica/melancólica de O homem do futuro (um 2.5/5 meio 2.75, cheio de elogios tímidos, mesmo sendo previsível), vi A fuga da mulher gorila (2.5/5), o primeiro longa da dupla de diretores. É um road movie cheio de juventude, dividido em vários movimentos (são sete ou oito, eu acho), e com um tom brega de propósito, as cadeiras de plástico de barzinho, as luzes foscas, o som midi saindo de karokês e videokês, essas coisas; é também um musical agradavelmente amador, entoado pelas irmãs que protagonizam o filme. Bragança é um letrista infalível.

São duas irmãs viajando entre Campos e a cidade do Rio de Janeiro durante oito dias — Bragança e Meliande filmaram este trajeto com parcos recursos — a bordo de uma kombi circense. Quando param num lugar e precisam de grana para abastecer, elas saem e fazem a performance: uma delas (Morena), vestida em trajes sensuais, vai se transformando num gorila (Flora, a baixinha de olhos lindos), com efeitos de fade in, fade out — eles são frequentes na montagem. Depois, um ator junta-se às duas, o lirismo perde o rumo, o filme desacelera demais — apesar da tensão sexual –, e a segunda metade parece menos inspirada.

Que coisa. O título melhorou depois que comecei a falar dele — rindo e tentando murmurar algumas canções –, então vou subir a cotação (3/5). Deliciosamente incomum.