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Posts Tagged ‘1980s’

Manhunter

dezembro 7, 2014 1:26 pm Deixe um comentário

Só comecei dias atrás a segunda temporada de Hannibal, após meses de intensa procrastinação. Boa série, apesar do excesso de barroquismo. Os episódios dirigidos por Guillermo Navarro (são três, todos da primeira temporada) merecem atenção.

Lá pelo quarto episódio, um tanto cansado daquele cozimento em fogo baixo típico de toda e qualquer NOVELA, lembrei que poderia, ainda em atmosfera lecteriana, preencher uma importante lacuna: Manhunter (1986), de Michael Mann.

E o filme é bem o que você espera de algo assinado por Mann. Em vez de desenvolver um procedural drama, o diretor mostra-se preocupado em estabelecer um confronto visual entre perfis opostos (Graham, o ex-agente do FBI, e o serial killer Tooth Fairy). Faces que representam a harmonia familiar (o policial traumatizado encontrou a paz no lar) ou o extermínio à guisa de catarse (o assassino mata o que não tem e nunca teve, pai, mãe e filhos/irmãos, para daí forjar algum afeto).

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Um filme para Nick

novembro 10, 2011 11:18 pm Deixe um comentário

(Nunca sei se é Um filme para Nick ou O filme de Nick. Mas vamos ao que interessa, o filme, de ou para Nick)

Wim Wenders interrompe as filmagens de seu próximo título, Hammett (1982), e, com aquele jeito generoso, viaja à Nova York para ver Nicholas Ray. Um Nicholas Ray que urra as ondulações de uma sirene policial ou de um carro dos bombeiros, enquanto está deitado na cama: um exercício de desabafo, imagino, contra a preguiça de ter que levantar dali em seguida. Ele está cansado, tosse a ponto de arrebentar os pulmões — mas fuma um cigarro atrás do outro. O olhar fixo num ponto qualquer inspira um certo desconforto em Wenders: Ray vai morrer em breve. Mas Ray não tem medo nenhum. Ele esnoba a morte. Adora a mentira. Adora a envergadura emocional de uma verdade dita após um catálogo de mentiras.

É impossível separar o espontâneo do ensaiado em Um filme para Nick (1980; 4/5). É um documentário sobre os últimos momentos de Ray. E é também uma ficção inscrita nesse mesmo documentário: as imagens não as de um registro real; os planos são bem posicionados, alguém tem que dizer “start” e esse mesmo alguém tem que dizer “cut”. São tratadas, dirigidas por Wenders. A estadia de Wenders no apartamento de Ray é ao mesmo tempo roteirizada e vivida. Aqui, o absurdo da experiência de viver e morrer é capturada em película e é também inventada de novo nesta mesmo película — e, Nick sempre soube, Wim naquela época talvez não, o cinema dá conta das duas instâncias, a que se diz real e a que se diz mentira.

Enquanto Ray, que mal consegue levar um cigarro à boca, sofre com a montagem do seu filme comunitário-experimental We can’t go home again (1973), Wenders, imerso em reflexões espirituais, quer discutir a morte. O alemão não cultua o norte-americano. Ele o confronta, às vezes com reservas; acredita estar prejudicando ainda mais a saúde do velho homem com a sua presença ali.

Ray não liga. Ray termina a vida com a solenidade dos créditos finais de um filme que copia a vida. The end. Luzes acesas. Morrer, como o fim de um filme (bom ou ruim), é apenas mais um desses rituais necessários, absurdos, sim, e inadiáveis.

Meu vizinho Totoro

maio 19, 2011 1:54 am Deixe um comentário

Rapidinho, só um parágrafo sobre este tratado — ou manifesto, ou ensaio, ou qualquer outro símile babaca — sobre a fofura chamado Meu vizinho Totoro (3.5/5).

Não sei, fiquei com a impressão de que é exatamente o contrário — estou falando das ambições de Miyazaki — de O castelo animado: simples, de visuais sutis, trilha econômica, e mais frágil do que singelo, que o filme agora citado tenta ser a todo custo — cuja trama achei decepcionante, se comparada com a imagem. É claro que estamos falando de outra época — pré-Chihiro –, e Totoro não mantém o status de queridinho à toa. Se os excessos infantis alfinetam os tímpanos na primeira metade — a história ainda indecisa entre entregar-se à fantasia em definitivo ou não –, a segunda é quase vertiginosa: além de bela, coloca as duas menininhas — especialmente a mais velha, Satsuki — num drama familiar que hoje a Pixar sabe fazer tão bem em suas animações, como em Monstros S.A., minha preferida por muito tempo.

Mudando completamente de assunto, acho que é hora de finalmente entregar os pontos, aceitar o inadiável e ver o último episódio de The office.

Leão/Pauline/Sobrenatural

maio 1, 2011 1:28 am Deixe um comentário

Sexta, conheci Rohmer, com O signo do leão. “Não é uma boa porta de entrada para o cinema dele”, asseverou o Tiago Superoito. Mas lá fui. E gostei (3.5/5; sim, agora tem cotação aqui). Pierre Wesselrin (Jess Han, um Alec Baldwin meio Brendan Gleeson), protagonista do filme, recebe herança de uma tia e comemora a notícia, recebida por telegrama, com bebedeira e amigos. Mal sabe ele que Christian, primo, é dono da fortuna. Os amigos, repentinamente, estão todos de férias, e Pierre agora está sem dinheiro, vagando de hotel em hotel. Violinista americano crente no poder de seu signo, o contundente, o vencedor Leão, o ex-bilionário vira um andarilho em Paris — e, em suas caminhadas esfomeadas, já de sapatos rotos, amaldiçoa a cidade.

Bonito, talvez longo demais — ou eu realmente estava preocupado com o horário do metrô –, mas uma tragicomédia com momentos de graça, desarmada de pedantismo. Acabou a sessão e um professor da época da faculdade, que encontrei na entrada, logo foi dizendo. “Não é uma boa porta de entrada para o cinema dele”. Talvez seja mesmo, porque o outro espectador — isso mesmo, apenas três na projeção — saiu correndo, ainda no escurinho. Ou também devia estar preocupado com o horário do metrô.

Sábado à tarde, gostei de fato de Rohmer. Pauline na praia (4/5), que começa aparentando ser uma coisa e termina sendo outra — uma comédia romântica que evolui para um drama terno, que exprime reflexões proverbiais sobre relacionamentos, e, sim, romântico. Pauline é uma adolescente de 15, 16 anos, que viaja com a tia Marion (a estonteante Arielle Dombasle) para a praia. As férias são tomadas por carícias, discussões, beijos e empurrões, com a presença de três homens: Henri, coroa galanteador, mas com jeito de indiferente; Pierre, paixão antiga de Marion, surfista delicado; e Sylvain, adolescente obviamente pouco sutil com as meninas. Simples e sábio, Rohmer evita os conflitos desgastados, as gentilezas forçadas, as contendas previsíveis de filmes comuns, e transmite a pureza da timidez e a espontaneidade das vontades e desejos de cada encontro — ou desencontro.

Depois de Pauline, em vez de encerrar a tarde com A inglesa e o duque, nesta retrospectiva muito agradável do diretor francês organizada pelo Embracine, tentei ver Thor — não me condene. Não deu, salas cheias. E apostei em Sobrenatural (3/5). E acho que acertei. Quase um terrir, mas com bons sustos. James Wan, de Jogos mortais — que acho fraquinho –, vai bem, deixa um suspense muito adequado na primeira hora, sem didatismo sobre as origens do mal invisível que atormenta os personagens. Na segunda parte, a comédia aparece, o medo se intensifica, num desenvolvimento sufocante da história.

Não vou dar muitos detalhes — gosto de filme de terror e gosto sobretudo quando começo a assistir desinformado das coisas, de trailer, de elenco, de tudo. Vou dizer apenas que é um encontro divertido entre Atividade paranormal — Oren Peli, como produtor, deve ter dado seus pitacos nas decisões de Wan — e A morte do demônio.

That’s entertainment

março 19, 2011 2:07 am 4 comentários

It was like a peak you reach, and then it’s downhill.

An up-and-comer who’s now a down-and-outer

Robert De Niro, em Touro indomável

 

 

 

 

 

 

 

Scorsese é o meu diretor favorito: move a câmera com apreensão, urgência, um detalhista quase doentio. Sempre me identifiquei com seus personagens decadentes e abrasivos. Eu, de certa maneira, me vejo como Jake LaMotta: incapacidade, imobilidade e limitação de um homem que não consegue ser mais do que é e sempre foi. Ele, um perturbado pela baixa autoestima, pela insegurança com as mulheres; eu, um solitário autocomiserativo e conformado com ranhuras semelhantes.

Num dos momentos mais assombrosos, LaMotta bate com a cabeça na parede e depois a esmurra, repetindo para si, “idiota, idiota”.

Ele resolve suas angústias brutalmente, ferindo a testa e as mãos. Eu escrevo.