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Posts Tagged ‘1960s’

Paris é uma festa

novembro 5, 2012 1:48 pm Deixe um comentário

“Quando conseguimos entrar no Michaud, fizemos uma refeição maravilhosa. Mas quando terminamos e já não sentíamos mais fome, a sensação que nos parecera fome, quando estávamos na ponte, ainda continuava dentro de nós, ao tomarmos o ônibus para casa. Continuava quando chegamos ao quarto e, depois de termos ido para a cama e feito amor no escuro, ainda estava lá. Quando acordei com as janelas abertas e o luar nos telhados das casas altas, ainda estava lá. Afastei o rosto para a sombra, mas não podia dormir e fiquei acordado, pensando nisso. Tínhamos ambos acordado duas vezes, nessa noite, e agora minha mulher dormia docemente com o luar no rosto. Tinha de me esforçar para compreender o que se passava conosco, mas sentia-me demasiadamente estúpido. E a vida me tinha parecido tão simples naquela manhã, quando despertei, e encontrei a falsa primavera, ouvi a gaita de foles do homem das cabras e saí para comprar o jornal de corridas.

Mas Paris era uma cidade muito antiga, nós éramos jovens e nada ali era simples, nem mesmo a pobreza, nem o dinheiro súbito, nem o luar, nem o bem e o mal, nem a respiração de alguém que deitada ao nosso lado dormisse ao luar.”

Paris é uma festa (A moveable feast, EUA, 1964). De Ernest Hemingway. Tradução: Ênio Silveira. Bertrand Brasil, (15ª edição, 2011), 240 páginas.

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Quem foi Jesse James?/Sangue sobre a neve

novembro 9, 2011 11:44 am Deixe um comentário

Minha cabeça explode de dor pelas noites mal dormidas desde o Planeta Terra Festival. A mudança brusca de clima — de um calor imenso para um frio imenso — também não ajuda nem um pouco. Mesmo assim, vamos lá: mais dois títulos de Nick Ray vistos (em DVD, já que a Infraero atrapalha a viagem das películas) na retrospectiva dedicada a ele, que termina domingo.

Incrível como Quem foi Jesse James? (1957; 3.5/5) é um western pouco comentado. E ele tem todos os elementos das melhores coisas do gênero: um ódio incontido — Jesse não hesita em atirar nas costas de um dos seus rivais –, um punhado de perseguições a cavalo, tiroteios do começo ao fim e um decente background histórico, pós-Guerra Civil. Se os irmãos Frank e Jesse James tivessem sido interpretados por, digamos, um James Dean ainda vivo e um Laurence Olivier de sotaque britânico suavizado, o filme de Ray certamente seria lembrado. Just saying.

Esse Sangue sobre a neve (1960; 3/5) — o título em português anuncia um noir-glacial — é uma aventura cômica ambientada nos amedrontados anos da Guerra Fria. Mas claro, os esquimós nada têm a ver com a briga entre comunistas e capitalistas: eles (Anthony Quinn é um deles) continuam caçando focas e ursos polares e procurando mulheres, que são raras na região. Visto hoje, não me parece tão contundente — o confronto com os homens civilizados, que querem ensinar modos cristãos e decentes aos selvagens, demora a aparecer. Ray, mesmo filmando quase tudo em estúdio, não esconde primitivismos desagradáveis (o que explica a presença em Cannes, competindo pela Palma de Ouro) — animais sendo despedaçados, a mulher (na visão dos brutos, inútil e necessária) tratada como mero objeto de prazer.

A colecionadora

maio 7, 2011 12:50 am Deixe um comentário

Queria ter visto Minha noite com ela, que dizem ser o melhor do Rohmer, há dois dias. Não deu. Mas pelo menos tive tempo — ou quase não tive, porque alcancei o metrô a cinco segundos de as portas serem fechadas — de checar esse A colecionadora (3.5/5). É um Pauline na praia genuinamente inscrito na Nouvelle Vague: distante, fugaz e arredio a sentimentalismos. O trio principal, de tipos preguiçosos, desapaixonados, amantes que veem o romantismo com suspeita, passa manhãs, tardes e noites discutindo temas relativos às emoções, mas com despreocupação.

Adrien (Patrick Bauchau) está de férias com o amigo Daniel (Daniel Pommereulle) e não quer fazer absolutamente nada: se diz médico oftalmologista, mas odeia o o conceito do trabalho e, aliás, vê um grande valor em sua postura passiva, de um relaxado colecionador de arte. Mas daí chega Haydée (Haydée Politoff), uma colecionadora de homens, carinha de sonsa, jeitinho frágil e insolente — num dos prólogos, acho que o primeiro, ela é filmada em uma sequências de closes belamente bronzeados. Adrien, enfeitiçado, é obrigado a largar a imobilidade.

Rohmer é mais delicado do que eu esperava. Quando achava que o filme terminaria com diálogos vagos, sequências desconexas, ele me surpreende e e me deixa desconcertado, encerrando o encanto de Adrien com um louvor à liberdade, de desarmar qualquer cinismo.