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Posts Tagged ‘1950s’

Biff – Dia 5

julho 17, 2012 9:09 am Deixe um comentário

Aqui e agora, na metade da mostra, as dores de cabeça, os olhos cansados e as sessões sonolentas aparecem para ditar o ritmo dos seus dias — e dos seus posts. Tive uma segunda-feira de Biff muito adequada para uma segunda-feira normal: isto é, de muito pessimismo e desamparo — não tem jeito, eu adoro uma autopiedade. Comecei com o filme mais triste de todo o festival, o palestino Habibi, e fui adiante, como que respirando por aparelhos, com os docs Araya, um belo clássico de 1959, e Detropia, da dupla que ficou conhecida pelo assustador Jesus camp (2006). Bora lá.

Araya, de Margot Benacerraf. 4/5

Só uma coisa separa os bons dos grandes documentários: realização de cinema. Pois este aqui dá conta muito bem das duas coisas: é crônica e é filme. Margot coleta histórias de trabalhadores de uma mina de sal ao nordeste da Venezuela e reconta cada uma delas com habilidade escritural — trilha, texto e enquadramentos dispensam entrevistas com os personagens; é na linguagem do cinema, na maneira como ela, aqui, registra e reproduz as vidas dos personagens, que estão as informações sociais e poéticas de que precisamos. Uma narração em off verbaliza o cotidiano de crianças, adultos e idosos que parecem intermináveis, eternos em seus ciclos e rondas de pesca e exploração do sal. O mar dá e tira a vida: é sustento e provoca queimaduras, úlceras devido ao contato constante dos trabalhadores com o sal.

Nada pode ser plantado nesse deserto salgado, nesse povoado habitado por gente que, a uma certa distância, parece uniforme, homogênea. Margot dá nome e identidade a essas pessoas por meio de um cinema que é solidário ao envolvimento, que entra nas atividades e enquadra corpos e pés e mãos e bocas ressecadas pelo sol e pelo sal. É lindo ver um documentário pensado no planejamento das cenas, dos movimentos de câmera. Vejo essa premeditação estética como uma espécie de respeito pelo que está está sendo filmado. Afinal, é um filme documentário. Há uma negociação com a verdade, mas também com a invenção.

Detropia, de Heidi Ewing e Rachel Grady. 3/5

Numa das várias entrevistas feitas por Heidi e Rachel com habitantes de Detroit — sempre emoldurados em paisagens urbanas amarelecidas, enjoativas, doentias mesmo –, um deles diz que é como se uma bomba tivesse caído sobre a cidade. Outro, dirigindo enquanto olha para terrenos e prédios, reconhecendo lugares — a agitação de um antigo hotel é lembrada com efusivididade — e elogiando a cidade que tanto ama, delimita os espaços antes ocupados por enormes fábricas de veículos.

Ford, Chrysler e GM faliram — e com elas, Detroit. Um downsizing diminuiu a população, as ofertas de emprego e os serviços — até as linhas de ônibus podem entrar no racionamento. Carros velhos são vistos nas esquinas. Reuniões sindicais são incapazes de evitar o fechamento e a mudança de mais um posto de trabalho — para o México. Estamos diante de um pós-apocalipse, de um pós-guerra — de uma pós-indústria. Heidi e Rachel executam uma reportagem decente, informativa e reflexiva sobre os desdobramentos da crise numa cidade como Detroit, berço da classe média dos EUA, da indústria de carros e de hipotecas altíssimas. Falando de cinema, trata-se de um filme árido, calado, que observa o momento com resignação. E uma aguda percepção de que, bem, é indiscutível, there is more coming.

Habibi, de Susan Youssef. 2.5/5

Eu seria um baita dum mentiroso se dissesse que gostei de Habibi. Enquanto exemplar de cinema, achei ingênuo, de encenações pouco convincentes e atuações brandas. Mas o que fica desse filme — e são poucos os títulos que pedem esse tipo de avaliação — é o além-filme: a coragem de Susan de rodar em Gaza — um longa de ficção não era feito lá havia 15 anos –, o carinho irrestrito pelos personagens, dois apaixonados que sabem que nunca poderão ficar juntos, e a aflição da diretora ao condensar, num caso de amor impossível, a amargura de uma nação sem liberdade — sem poesia.

Essa é a Palestina de Susan, em que um pobre poeta que vive em campo de refugiados grafita declarações de amor em paredes e é considerado profano, imoral, pecador. Em que uma jovem de classe média a quem a autonomia de escolher o que quer — quem quer — lhe é negada diariamente. Sempre tem alguém — um homem, o pai — que se acha no dever, no direito, aliás, de tomar decisões por ela. Ok, ok, no filme, isso tudo aparece de um jeito enviesado: o resultado dramático (trágico) das cenas — ou mesmo quando se toma como referência a soma de algumas sequências na montagem — nunca se equipara às intenções, ao que talvez estivesse descrito no roteiro. Não importa. Tudo bem. Esse é um filme que precisava ter sido feito. Apenas isso.

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Quem foi Jesse James?/Sangue sobre a neve

novembro 9, 2011 11:44 am Deixe um comentário

Minha cabeça explode de dor pelas noites mal dormidas desde o Planeta Terra Festival. A mudança brusca de clima — de um calor imenso para um frio imenso — também não ajuda nem um pouco. Mesmo assim, vamos lá: mais dois títulos de Nick Ray vistos (em DVD, já que a Infraero atrapalha a viagem das películas) na retrospectiva dedicada a ele, que termina domingo.

Incrível como Quem foi Jesse James? (1957; 3.5/5) é um western pouco comentado. E ele tem todos os elementos das melhores coisas do gênero: um ódio incontido — Jesse não hesita em atirar nas costas de um dos seus rivais –, um punhado de perseguições a cavalo, tiroteios do começo ao fim e um decente background histórico, pós-Guerra Civil. Se os irmãos Frank e Jesse James tivessem sido interpretados por, digamos, um James Dean ainda vivo e um Laurence Olivier de sotaque britânico suavizado, o filme de Ray certamente seria lembrado. Just saying.

Esse Sangue sobre a neve (1960; 3/5) — o título em português anuncia um noir-glacial — é uma aventura cômica ambientada nos amedrontados anos da Guerra Fria. Mas claro, os esquimós nada têm a ver com a briga entre comunistas e capitalistas: eles (Anthony Quinn é um deles) continuam caçando focas e ursos polares e procurando mulheres, que são raras na região. Visto hoje, não me parece tão contundente — o confronto com os homens civilizados, que querem ensinar modos cristãos e decentes aos selvagens, demora a aparecer. Ray, mesmo filmando quase tudo em estúdio, não esconde primitivismos desagradáveis (o que explica a presença em Cannes, competindo pela Palma de Ouro) — animais sendo despedaçados, a mulher (na visão dos brutos, inútil e necessária) tratada como mero objeto de prazer.

Horizonte de glórias/No silêncio da noite

novembro 3, 2011 12:44 am Deixe um comentário

Encerrei o meu dia de (plantão) de finados com a retrospectiva O cinema é Nicholas Ray, lá no CCBB. Eis o que vi por lá — o momento é de fome, muita fome, sono, muito sono, a poucas horas de uma quinta-feira que vai condensar dois dias de trabalho:

Na sessão, um sujeito começou o filme, Horizonte de glórias (1951; 2.5/5), todo falante — à minha esquerda, para o meu desespero; depois de um quarto de projeção, num 16mm trepidante, (ele) estava caindo pelas tabelas de tanto sono. Atrás, também à minha esquerda, uma senhora papeava com a colega o tempo inteiro — ah, meu ouvido esquerdo… Terminou o filme ainda tagarelando, acho que de frustração. Realmente, esse aqui, um título de guerra pouco inspirado e interessante, nem parece um produto de Ray.

É, na verdade, um filme de John Wayne: com aquele ar de arrogância e grandeza, ainda mais na carne de um personagem igualmente mandão, o major Daniel Kirby, ele toma o filme para si. Temos que ver inúmeras batalhas aéreas, alguns pilotos sendo alvejados gravemente e diálogos técnicos (decoradinhos) para chegar ao que realmente interessa: um relato sobre as agruras de quem precisa comandar um corpo de fuzileiros nervosos, famintos, que enfrentam o medo da morte e a imensa vontade de voltar para casa todo dia.

Incrível como, em poucos minutos de tela de No silêncio da noite (1950; 4.5/5) — apresentado em DVD, já que a película ficou presa na alfândega –, Dixon Steele (Humphrey Bogart), um roteirista abrasivo, com feições de quem está louco para esganar pescocinhos alheios, já simulava, numa telinha da minha cabeça, meus personagens solitários favoritos do cinema: Travis Bickle, Harry Caul — o motorista-dublê de Drive, finalmente. Dix não emplaca um script decente — de sucesso — desde a Segunda Guerra. Quando surge uma oportunidade, de adaptar o que seria “um épico”, ele se faz de esnobe; pede que uma balconista vá até sua casa e leia o material de origem — ou resuma em descrições simples –, um livro ruim, para ele.

Após terminar a interpretação, a jovem é estrangulada e largada na estrada. Ele é o suspeito número um, e age como culpado; ceifou muita gente em seus textos, e fala disso com certo orgulho, os olhos esbugalhados, as mãos travadas no ar. Como seu agente diz à vizinha, Laurel Gray (Gloria Grahame, musa), que se apaixona por ele na sequência do crime, ele é como dinamite: de vez em quando, explode sem aviso. Laurel, mesmo amedrontada e desconfiada, parece saber com quem está se metendo: um sujeito de pensamentos inescrutáveis, que se esconde atrás de frases cínicas e tiradas divertidas. O mais amargurado dos homens.

Leão/Pauline/Sobrenatural

maio 1, 2011 1:28 am Deixe um comentário

Sexta, conheci Rohmer, com O signo do leão. “Não é uma boa porta de entrada para o cinema dele”, asseverou o Tiago Superoito. Mas lá fui. E gostei (3.5/5; sim, agora tem cotação aqui). Pierre Wesselrin (Jess Han, um Alec Baldwin meio Brendan Gleeson), protagonista do filme, recebe herança de uma tia e comemora a notícia, recebida por telegrama, com bebedeira e amigos. Mal sabe ele que Christian, primo, é dono da fortuna. Os amigos, repentinamente, estão todos de férias, e Pierre agora está sem dinheiro, vagando de hotel em hotel. Violinista americano crente no poder de seu signo, o contundente, o vencedor Leão, o ex-bilionário vira um andarilho em Paris — e, em suas caminhadas esfomeadas, já de sapatos rotos, amaldiçoa a cidade.

Bonito, talvez longo demais — ou eu realmente estava preocupado com o horário do metrô –, mas uma tragicomédia com momentos de graça, desarmada de pedantismo. Acabou a sessão e um professor da época da faculdade, que encontrei na entrada, logo foi dizendo. “Não é uma boa porta de entrada para o cinema dele”. Talvez seja mesmo, porque o outro espectador — isso mesmo, apenas três na projeção — saiu correndo, ainda no escurinho. Ou também devia estar preocupado com o horário do metrô.

Sábado à tarde, gostei de fato de Rohmer. Pauline na praia (4/5), que começa aparentando ser uma coisa e termina sendo outra — uma comédia romântica que evolui para um drama terno, que exprime reflexões proverbiais sobre relacionamentos, e, sim, romântico. Pauline é uma adolescente de 15, 16 anos, que viaja com a tia Marion (a estonteante Arielle Dombasle) para a praia. As férias são tomadas por carícias, discussões, beijos e empurrões, com a presença de três homens: Henri, coroa galanteador, mas com jeito de indiferente; Pierre, paixão antiga de Marion, surfista delicado; e Sylvain, adolescente obviamente pouco sutil com as meninas. Simples e sábio, Rohmer evita os conflitos desgastados, as gentilezas forçadas, as contendas previsíveis de filmes comuns, e transmite a pureza da timidez e a espontaneidade das vontades e desejos de cada encontro — ou desencontro.

Depois de Pauline, em vez de encerrar a tarde com A inglesa e o duque, nesta retrospectiva muito agradável do diretor francês organizada pelo Embracine, tentei ver Thor — não me condene. Não deu, salas cheias. E apostei em Sobrenatural (3/5). E acho que acertei. Quase um terrir, mas com bons sustos. James Wan, de Jogos mortais — que acho fraquinho –, vai bem, deixa um suspense muito adequado na primeira hora, sem didatismo sobre as origens do mal invisível que atormenta os personagens. Na segunda parte, a comédia aparece, o medo se intensifica, num desenvolvimento sufocante da história.

Não vou dar muitos detalhes — gosto de filme de terror e gosto sobretudo quando começo a assistir desinformado das coisas, de trailer, de elenco, de tudo. Vou dizer apenas que é um encontro divertido entre Atividade paranormal — Oren Peli, como produtor, deve ter dado seus pitacos nas decisões de Wan — e A morte do demônio.