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Archive for the ‘Música’ Category

LiveLoveA$AP/The year of hibernation

dezembro 12, 2011 9:00 pm Deixe um comentário

ASAP Rocky

LiveLoveA$AP (Sony/RCA/Polo Grounds). 4/5

A estreia desse rapper de Manhattan, NY, é dessas mixtapes que você ouve duas, três, quatro vezes e consegue diferenciar as faixas sem correr o risco de errar o título de nenhuma delas — veja que, com isso, não ouso compará-la à obra-prima do The Weeknd, House of balloons.

É que Rakim Mayers, 23, junto com meia dúzia de produtores, usa os samples de maneira surpreendentemente orgânica para um first timer: um rap tipicamente da costa leste — com descarada influência do Wu-Tang Clan –, chegado a timbres de jazz, mas com ecos vocais e sonoros que lembram os abusados do Odd Future ou a língua solta do Lil B — “for instance, I get-get my dick licked”, ele observa, em Keep it G. Vale acompanhar o 2012 do coletivo ASAP (ou A$AP; Always Strive and Prosper).

As três mais: Get lit (feat. Fat Tony), Keep it G (feat. Chace Infinite & SpaceghostPurrp) e Houston old head.

Em verso: These bitches is persistent, talking about I’m distant / Lost my mind a long time ago to find it, need forensics (Keep it G).

Youth Lagoon

The year of hibernation (Fat Possum). 4/5

Aham, tô sabendo que todo mundo já escutou esse disco e que ele é um dos melhores trabalhos de estreia do ano. Só comecei a escutar semana passada — o atolamento de torrents faz isso. Atraso tirado, vamos ao que interessa. O novato Trevor Powers, 22, nome real do Lagoon, me impressionou muito: o dream pop dele guarda alguma semelhança com, digamos, o Beach House do Teen dream, mas exibe ruídos lo-fi típicos de um estreante meio solitário, que gravou um disco homemade, do seu jeito.

Trevor não é irônico, ainda bem — uma nostalgia sem reservas –, e isso torna a audição de Year of hibernation uma viagem sonora de vozerios delicados e ambientações eletrônicas pontuadas por acordes de guitarra: faixas como Posters e July começam contidas, tímidas, e, no tempo certo, descortinam as melodias mais simples do ano. Simplicidade, aliás, é a última coisa que você espera de um disco de dream pop, não é mesmo?

As três mais: Posters, Afternoon e July.

Em verso: We scaled a ladder ascending to the roof / While five years ago I weeped and no one knew / Holding my guitar, I strummed a tune / I sang “I love you but I have to cut you loose” (July).

A creature I don’t know

setembro 21, 2011 12:16 am Deixe um comentário

A mocinha inglesa acaba de lançar seu terceiro — e melhor — disco, A creature I don’t know (4/5). Bem diferente dos anteriores, Alas I cannot swim (2008) e I speak because I can (2010), o novo parece menos inocente, menos raivoso — sim, maduro é um clichê inevitável –, mas ainda guarda uma docilidade meio ferida, uma fragilidade meio espinhosa.

Laurinha tem 21 anos, mas antecipa a angústia, o desencanto dos 30. Aliás, 2011 tem sido um ano de discos de mocinhas oprimidas, ansiosas, nervosas, dilaceradas: St. Vincent e seu Strange mercy, Eleanor Friedberger/Last summer, Meg Baird/Seasons on earth. As vozes arranhadas, os medos particulares de Joan Baez (Girl of constant sorrow vem a calhar) e Joni Mitchell (Blue, sempre Blue) andam atormentando as indies por aí.

Bon Iver, Bon Iver: um dos 46

agosto 3, 2011 11:49 pm Deixe um comentário

46 o quê? Um dos 46 discos da minha vida, que venho listando lá no Rate Your Music. Pois é, esse Bon Iver, Bon Iver, do Bon Iver (né), me conquistou bonito há mais ou menos dois meses, quando o ouvia umas três vezes por semana para então escrever uma matéria para a coluna de rock do jornal — e, no review, minha primeira cotação 5/5, sem medo de errar. Como os outros 45, esse álbum evoca horas significativas daqueles dias — que, pensando melhor, se tornaram significativos por causa dele. Foi uma semana de pura (e necessária) catarse.

Daí, hoje, passei manhã e tarde ligado no delicado combo For Emma, forever ago + Bon Iver² — com uma breve interrupção para o bom, e só bom e quase médio, Skying, do The Horrors –, a voz de Justin Vernon ressoando o tempo inteiro nos meus ouvidos. Em algum momento no fim do dia, passei rapidinho em revista alguns desses disquinhos que resumem os instantes mais importantes dos meus últimos sete, oito anos — aborrecidos, caretas sete, oito anos.

Todos são — aliás, todos menos os alegres Coisa de louco II, da Graforréia Xilarmônica, e Rumours, do Fleetwood Mac, e o alegre até demais Bossa session, de Sylvinha Telles, Lúcio Alves e Roberto Menescal –; todos são como amigos emburrados (Either/or, Elliott Smith), noturnos (Portishead), solitários (a trilha sonora de Taxi driver, de Bernard Herrmann, e mais um bocado), chorosos (A distant shore, Tracey Thorn), frágeis (Blood on the tracks, Bob Dylan) e, caramba, que isso já ficou chato, algumas dezenas mais. E os do Radiohead (The bends, Ok computer, Kid a e In rainbows) mereceriam um post só — e de um blogueiro mais inspirado.

Na falta de coisa melhor — na falta de um distribuidor que lance Melancolia em Brasília –, O Previsível tapa buraco com chatices como as dos três parágrafos acima.

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1 parágrafo para Amy

julho 24, 2011 11:19 pm Deixe um comentário

Desde que a Amy morreu — e fiquei sabendo da maneira mais incrivelmente tensa, com a minha mãe me ligando para avisar que alguém do jornal tinha telefonado para ela meio desesperado, pedindo para falar comigo; no fim, só precisaram mesmo de um contato para fazer a repercussão, não tive que sair correndo de casa para entrar num plantão que não era o meu –, fiquei abatido como se eu realmente fosse fã da mulher. E não sou, e nunca fui. Mas, poxa, não tinha como ouvi-la e não ficar meio encantado com aquele vozeirão à Nina Simone, um forte sotaque inglês mascarado por ondulações sonoras de uma diva que ia do soul ao pop com uma facilidade extasiante — acho que Janelle Monáe é uma herdeira menos sofrida, mais alegrinha. Amy cantava suas rusgas consigo mesma, seu amor abusivo. Uma franqueza que não tem vergonha ou não glamuriza as dores: ela sente e geme e grita. I cheated myself / Like I knew I would / I told you I was trouble / You know that I’m no good, ela avisa na canção que leva no título o último verso. Viveu como bem quis; viveu estranhando a própria vida. Mas, enfim, e por fim, viveu.

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Teaser – A creature I don’t know

julho 12, 2011 2:09 am Deixe um comentário

A inglesa Laura Marling — que acompanho há alguns anos, sempre boquiaberto com a beleza frágil das suas canções — lança seu terceiro disco, A creature I don’t know, em 12 de setembro. E, veja você, semana passada chegou à minha mesa — na redação — o último dela, I speak because I can (4/5), que, por uma desatenção imperdoável, deixei de ouvir na época do lançamento, no ano passado.

Ouvi e ouvi de novo, com breves suspiros no intervalo entre as canções: um álbum cravado de missivas sobre memórias sufocadas (e enfim colocadas no papel), certamente superior à estreia, Alas I cannot swim. Então, aí vai um teaserzinho (a redundância de “teaserzinho” foi intencional) da novidade. Depois, tem a loirinha encantando no Glastonbury deste ano.

The magic place

maio 28, 2011 10:14 am Deixe um comentário

 

Esta aí é a Julianna Barwick, de Louisiana, que lançou um disquinho lindo, The magic place (4/5), há alguns meses. Álbum quase a cappella, gravado com sintetizador e sutis inserções de piano e baixo em algumas faixas. Não chega a ser tão pastoral quanto o Mountain Man, trio de Vermont que lançou uma das boas surpresas do ano passado, Made the harbor, nem tão eletrônico quanto o Sigur Rós. É um trabalho de música ambiente calmo, quieto e caloroso também: na madrugada de sexta pra sábado, adormeci escutando a Julianna. Hoje, ela mora no Brooklyn — um bairro bem barulhento –, mas cria canções que parecem pedir calma, silêncio, alguns minutos desapressados do nosso tempo.

Burst apart

maio 10, 2011 12:48 am Deixe um comentário

Quando fiquei sabendo do novo do The Antlers, imediatamente torci o nariz. Pra mim, o Hospice, terceiro álbum deles, mas o primeiro grande de fato, é insuperável: uma contemplação triste, pesarosa ao extremo — quase mórbida, é verdade –, mas que esconde uma delicadeza um tanto otimista em cada canção, como um pequeno alívio no meio de tanto sofrimento. Emocionalmente, tão exigente quanto qualquer coisa do Radiohead a partir do Ok computer — e, aliás, as duas bandas têm várias semelhanças em sonoridade e temática.

Neste Burst apart (4/5)– um disco que, na primeira audição, parece pobre se comparado ao Hospice –, Peter Silberman, frontman, parece ter aberto as janelas e resolvido tomar um pouco de ar: dá para notar que, apesar de ainda bastante coerente com o registro anterior, o trabalho dos Antlers ousa explorar outra atmosfera, uma menos exigente e talvez mais confortante. Mais otimista mesmo.

A coleção de canções é um encontro entre Kid a e In rainbows — com pequenas derivações da quimera chamada Amnesiac –, do Radiohead, mas com um vozerio bem diferente do de Thom Yorke. Nos melhores momentos, No widows (Nude + Give up the ghost, eu diria), Every night my teeth are falling out  e Parentheses, a influência do quinteto de Oxford é gritante. Em outros, percebe-se intimidade com coisas típicas do indie pop atual — etéreas e dançantes –, como em French exit (sobra de Forget, do Twin Shadow?).

Hospice ainda é obrigatório por aqui. Mas Burst apart é boa opção para dias menos acabrunhados.