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Archive for the ‘Música’ Category

1 parágrafo para Amy

julho 24, 2011 11:19 pm Deixe um comentário

Desde que a Amy morreu — e fiquei sabendo da maneira mais incrivelmente tensa, com a minha mãe me ligando para avisar que alguém do jornal tinha telefonado para ela meio desesperado, pedindo para falar comigo; no fim, só precisaram mesmo de um contato para fazer a repercussão, não tive que sair correndo de casa para entrar num plantão que não era o meu –, fiquei abatido como se eu realmente fosse fã da mulher. E não sou, e nunca fui. Mas, poxa, não tinha como ouvi-la e não ficar meio encantado com aquele vozeirão à Nina Simone, um forte sotaque inglês mascarado por ondulações sonoras de uma diva que ia do soul ao pop com uma facilidade extasiante — acho que Janelle Monáe é uma herdeira menos sofrida, mais alegrinha. Amy cantava suas rusgas consigo mesma, seu amor abusivo. Uma franqueza que não tem vergonha ou não glamuriza as dores: ela sente e geme e grita. I cheated myself / Like I knew I would / I told you I was trouble / You know that I’m no good, ela avisa na canção que leva no título o último verso. Viveu como bem quis; viveu estranhando a própria vida. Mas, enfim, e por fim, viveu.

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Teaser – A creature I don’t know

julho 12, 2011 2:09 am Deixe um comentário

A inglesa Laura Marling — que acompanho há alguns anos, sempre boquiaberto com a beleza frágil das suas canções — lança seu terceiro disco, A creature I don’t know, em 12 de setembro. E, veja você, semana passada chegou à minha mesa — na redação — o último dela, I speak because I can (4/5), que, por uma desatenção imperdoável, deixei de ouvir na época do lançamento, no ano passado.

Ouvi e ouvi de novo, com breves suspiros no intervalo entre as canções: um álbum cravado de missivas sobre memórias sufocadas (e enfim colocadas no papel), certamente superior à estreia, Alas I cannot swim. Então, aí vai um teaserzinho (a redundância de “teaserzinho” foi intencional) da novidade. Depois, tem a loirinha encantando no Glastonbury deste ano.

The magic place

maio 28, 2011 10:14 am Deixe um comentário

 

Esta aí é a Julianna Barwick, de Louisiana, que lançou um disquinho lindo, The magic place (4/5), há alguns meses. Álbum quase a cappella, gravado com sintetizador e sutis inserções de piano e baixo em algumas faixas. Não chega a ser tão pastoral quanto o Mountain Man, trio de Vermont que lançou uma das boas surpresas do ano passado, Made the harbor, nem tão eletrônico quanto o Sigur Rós. É um trabalho de música ambiente calmo, quieto e caloroso também: na madrugada de sexta pra sábado, adormeci escutando a Julianna. Hoje, ela mora no Brooklyn — um bairro bem barulhento –, mas cria canções que parecem pedir calma, silêncio, alguns minutos desapressados do nosso tempo.

Burst apart

maio 10, 2011 12:48 am Deixe um comentário

Quando fiquei sabendo do novo do The Antlers, imediatamente torci o nariz. Pra mim, o Hospice, terceiro álbum deles, mas o primeiro grande de fato, é insuperável: uma contemplação triste, pesarosa ao extremo — quase mórbida, é verdade –, mas que esconde uma delicadeza um tanto otimista em cada canção, como um pequeno alívio no meio de tanto sofrimento. Emocionalmente, tão exigente quanto qualquer coisa do Radiohead a partir do Ok computer — e, aliás, as duas bandas têm várias semelhanças em sonoridade e temática.

Neste Burst apart (4/5)– um disco que, na primeira audição, parece pobre se comparado ao Hospice –, Peter Silberman, frontman, parece ter aberto as janelas e resolvido tomar um pouco de ar: dá para notar que, apesar de ainda bastante coerente com o registro anterior, o trabalho dos Antlers ousa explorar outra atmosfera, uma menos exigente e talvez mais confortante. Mais otimista mesmo.

A coleção de canções é um encontro entre Kid a e In rainbows — com pequenas derivações da quimera chamada Amnesiac –, do Radiohead, mas com um vozerio bem diferente do de Thom Yorke. Nos melhores momentos, No widows (Nude + Give up the ghost, eu diria), Every night my teeth are falling out  e Parentheses, a influência do quinteto de Oxford é gritante. Em outros, percebe-se intimidade com coisas típicas do indie pop atual — etéreas e dançantes –, como em French exit (sobra de Forget, do Twin Shadow?).

Hospice ainda é obrigatório por aqui. Mas Burst apart é boa opção para dias menos acabrunhados.

Helplessness blues

abril 10, 2011 12:25 am Deixe um comentário

É, James Blake… Pensei que a estreia do inglês conseguiria sustentar a liderança na minha listinha de melhores do ano. Mas daí vem o Fleet Foxes com esse lindo — poderia pegar o Caldas Aulete ali no quarto para obter outros adjetivos, mas só penso em lindo — Helplessness blues. Melhor que o debut. Estou escutando sem parar.

De ontem para hoje, dormi vendo Fringe — mesmo adorando a terceira temporada, sem ironia alguma –, acordei às 5h, sobressaltado, fui para o quarto e coloquei o fone de ouvido. É costume cair no sono lá pela terceira, quarta faixa. Mas, com o Helplessness, fui até o fim. Só então adormeci.

Não tem hits — Your protector, Blue ridge mountains, Tiger mountain peasant song, essas e outras delícias do Fleet foxes, felizmente, ficaram em 2008. Neste, as referências parecem menos intrusivas — apesar de eu ter notado muita coisa do primeiro do Crosby, Stills & Nash e do David Crosby, If I could only remember my name, um dos meus favoritos de todos os tempos.

Comprei de um amigo do jornal a estreia dos Foxes (por R$ 10; ele comprou dois exemplares por esse valor na Fnac, acredite). No encarte que envolve o CD, junto com um mini pôster bem legal, a banda lista suas influências — e, olha, é uma lista bem grande, com CSN, Dylan, Joni Mitchell, até Joanna Newsom e mais duas dezenas de nomes importantes do folk, do folk rock e de música erudita. No site do selo, Sub Pop, Robin, vocalista, confessa, num texto pessoal, em primeira pessoa, as influências para o Helplessness. Vale a pena conferir — até porque estou um pouco desatento, vendo Brasil x Argentina pelo sub-17 e sem muita vontade de escrever bobagens elogiosas aqui.

Pois bem, o novo não tem nada de grudento — e eu adoro o grude do primero, hein –, é menos ambicioso, menos alegre, mais meditativo, mais particular. Enfim, é daqueles que dá vontade amanhecer o dia escutando. Fiz isso hoje. E as primeiras horas do sábado nunca pareceram tão longas e quietas.

Tormento

março 14, 2011 12:21 pm Deixe um comentário

Até o começo de 2011, minha relação com o R.E.M. era tímida, acanhada: conhecia alguns hits e, principalmente, tinha na memória flashes de alguns clipes (Animal, Bad day… e Shiny happy people, claro). Mas, desde janeiro, não sai dos meus ouvidos: consumi a discografia completa dos caras em um mês e meio, mais ou menos. Antes, só tinha escutado Automatic for the people, que acho muito bonito: chegou a contribuir bastante nos dias mais melancólicos do primeiro semestre do ano passado, quando o Radiohead foi, por algumas semanas, substituído por folk, rock acústico e afins.

A última parada foi neste recente Collapse into now. E…

[10 dias depois]

E eu comecei esse texto com a intenção de escrever umas besteiras sobre o disco — que não achei tão ruim ou mediano assim. Daí esqueci tudo e, além do mais, estou preso a essa venenosa Strange currencies, minha favorita deles. Quero só reproduzir uns versinhos devastadores aqui. “These words, you will be mine / These words, they haunt me, hunt me down, catch in my  throat, make me pray / Say, love’s confined, oh.”

Sim, o dia inteiro, o tempo inteiro.

Kaputt

março 6, 2011 9:34 pm Deixe um comentário

Devo dizer que não esperava nada, nada mesmo desse Kaputt. Só conhecia um álbum do Destroyer, o City of daughters (1998), que nunca me convenceu. Escutei só umas duas vezes, entre setembro e outubro de 2009, quando eu e uns amigos nos organizamos para baixar os discos dos consensos (por década) da Pitchfork. Eu fiquei com os anos 1990. Daí tinha esse na lista. É o tipo do álbum que me deixa com sentimentos inconclusivos: “parece bom, preciso ouvir de novo” ou “é chatinho, mas merece uma segunda chance”. Foi assim com o Loveless, do My Bloody Valentine: na primeira vez, achei médio; na segunda, me fisgou. Mas nunca mais voltei para o Daughters. Deixei-o encostado numa pasta qualquer do meu notebook (o finado Dell Latitude D430), constrangido entre arquivos frequentemente visitados de Pavement, Pixies e Built to Spill.

Kaputt é lindo. As camadas eletrônicas oitentistas encontram na voz de Daniel Bejar delicadeza e sutileza: é como se Belle and Sebastian e Twin Shadow estivessem no mesmo estúdio — talvez com alguém do Cocteau Twins. As composições de Bejar, às vezes misteriosas, às vezes indecifráveis, transmitem uma sensibilidade que era rara nos anos 1980 — ou nas piores coisas dos anos 1980: em vez de versos nebulosos e exagerados, de melancolia perfumada ou mantras piegas, ele prefere atmosferas decadentes e confissões sinceras. Blue eyes (“You terrify the land /You are pestle and mortar”) e Poor in love (“I was poor in love / I was poor in wealth”) sugerem cenários pesarosos, desconstruídos por melodias acessíveis e vocais suaves. Na dançante Kaputt, humor cruel: “Wasting your days / Chasing some girls / Alright, chasing cocaine”.

Depois de Kaputt, Destroyer merece um cantinho especial no meu hd — e nas minhas playlists.

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The king of limbs

fevereiro 27, 2011 6:13 pm 1 comentário

Acho engraçado quando dizem que o In rainbows é o disco mais humano do Radiohead. Pra mim, todos — mesmo o aparentemente inescrutável Amnesiac — são, sim, humanos, demasiado humanos. Este The king of limbs, como todo mundo já disse ou escreveu (ou tuitou) por aí, não é uma obra-prima, não traz nada de novo em comparação àquilo que a banda já fez.

Mas ainda é Radiohead: apreensivo, urgente e recompensador. E, por ser Radiohead, recusa-se ser rasteiro, a ser escutado apenas uma vez — a não ser que você tenha birra com Thom Yorke. Desde o lançamento antecipado, 24 horas antes do previsto, devo ter ouvido mais de 25 vezes. Como todos os outros sete — Pablo honey incluído –, é exigente e persistente. E talvez familiar demais — consigo conectar as oito faixas a pelo menos outras oito de trabalhos anteriores.

Codex, por exemplo, a minha preferida: “Slide your hand, jump off the end /The water’s clear and innocent”. Ou ainda: “Just dragonflies, flying to our side / No one gets hurt, you’ve done nothing wrong”‘. Versos que parecem extraídos de Pyramid song (“I jumped in the river and what did I see? / Black-eyed angels swimming with me”). Lotus flower é a Idioteque do TKOL: uma balada nauseante, com texturas carregadas e lamentos intermináveis.

Cada álbum estabelece rupturas com o anterior: The bends enterra a ingenuidade roqueira do Pablo honey; Ok computer esquece a melancolia apaixonada de Fake plastic trees e High and dry com injeções pesadas de pessimismo e texturas perturbadoras. Kid a envolve Ok computer numa teia eletrônica menos ruidosa e mais contemplativa, com tratados sobre a solidão (How to disappear completely e Motion picture soundtrack). Amnesiac confronta Ok computer e Kid a numa jornada instrumental quase insuportável — devo ter ouvido na íntegra não mais do que quatro vezes. Hail to the thief é mais palatável que o predecessor: anuncia a leveza do In rainbows, mas demarca seu próprio território em canções que ora emulam o Kid a, ora reinterpretam o The bends.

The king of limbs não tem enigma nenhum, não pede para ser investigado, não esconde segredos, não deseja a obscuridade. Parece uma compilação — breve, infelizmente — de tudo o que o Radiohead já fez. É pouco — e é muito.