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Archive for the ‘Música’ Category

2013 em: discos

dezembro 31, 2013 5:33 pm Deixe um comentário

A preguiça me impede de escrever qualquer coisa ~profunda~ sobre o que ouvi durante o ano — mas ainda há algum ânimo nesse restinho de 2013 para listar aqui versos (ou ainda, verdades que falam à alma e ao coração) que justificam as escolhas (com exceção dos discos de instrumental hip hop/future garage/drone, obviamente).

Ei-la, a lista:

20 Oddisee – The beauty in all (Mello Music Group)

Ouça Lonely planet

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19 Unknown Mortal Orchestra – II (Jagjaguwar)

Maybe one day we’ll find we have

No need for a leader”

(No need for a leader)

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18 Tyler, the Creator – Wolf (Odd Future/RED/Sony)

“You’re good at being perfect

We’re good at being troubled”

(IFHY)

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17 Charles Bradley – Victim of love (Daptone/Dunham)

“This heart of mine

You wrote your name on it

With such style

I couldn’t look away from it

Two thousand miles

I wouldn’t stay away from it”

(You put the flame on it)

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16 Arcade Fire – Reflektor (Merge)

“Is anything as strange as a normal person?

Is anyone as cruel as a normal person?

Waiting after school for you

They want to know if you

If you’re normal too

Well, are you?

Are you?”

(Normal person)

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15 James Blake – Overgrown (ATLAS/A&M/Polydor)

“We’re going to the last

You and I”

(To the last)

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14 Justin Timberlake – The 20/20 experience (RCA)

“Just like the movie shoot, I’m zooming in on you

Everything extra in the background, just fades into the set

As we ride off into the sun”

(Tunnel vision)

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13 Destroyer – Five spanish songs (Merge/Dead Oceans)

“María de las Nieves se encerró en mi habitación

Tiene los pies fríos y un puñal siniestro sobre el camisón

María de las Nieves, se me rompe el corazón”

(María de las Nieves)

destroyer

12 Janelle Monáe – The electric lady (Wondaland Arts Society/Bad Boy)

“When people put you down, yeah way down and you feel

Like you’re alone

Let love be your guide”

(Ghetto woman)

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11 Tim Hecker – Virgins (Kranky/Paper Bag Records)

Ouça Virginal I

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10 Julia Holter – Loud city song (Domino)

“See the young – so old so fast

See the young – in love so fast

I don’t understand falling leaves

A tree is a tree”

(This is a true heart)

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9 Drake – Nothing was the same (OVO Sound/Young Money/Cash Money/Republic)

“Most people in my position get complacent

Wanna come places with star girls, end up on them front pages

I’m quiet with it, I just ride with it

Moment I stop having fun with it, I’ll be done with it”

(Too much)

drake

8 Eleanor Friedberger – Personal record (Merge)

“I want you all around me

Envelop me in sound

Smother me, pummel me

Cover me, humble me

The silence with noise

With a song in your voice”

(Echo or encore)

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7 Kurt Vile – Wakin on a pretty daze (Matador)

“Every time that I look out my window

All my emotions they are spreading

Zip thru winding highways in my head

Pick up momentum then I’m coastin

Only to turn around abrupt

Come back for my love”

(Pure pain)

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6 Run the Jewels – Run the Jewels (Fool’s Gold)

“Move like Frank you will die like a hassa

Move like Jesus die like a martyr”

(36″ chain)

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5 Kanye West – Yeezus (Roc-A-Fella/Def Jam)

“Close your eyes and let the word paint a thousand pictures

One good girl is worth a thousand bitches”

(Bound 2)

kanye west

4 Wavves – Afraid of heights (Mom & Pop)

“I think I’’m dying

Maybe I’’m thirsty

I think I must be drunk

Woke up and found Jesus

I think I must be drunk”

(Afraid of heights)

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3 Laura Marling – Once I was an eagle (Virgin)

“And where you’re from I long to know

And you will speak and it shall be so

I cannot love, I want to be alone

Pray, pray for me”

(Pray for me)

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2 Burial – Rival dealer (Hyperdub)

Ouça Come down to us

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1 The National – Trouble will find me (4AD)

“I can’t fight it anymore

I’m going through an awkward phase

I am secretly in love with

Everyone that I grew up with”

(Demons)

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Carax/Baumbach via Bowie

agosto 14, 2013 10:51 pm Deixe um comentário

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2012 em: discos

dezembro 31, 2012 6:52 pm Deixe um comentário

Listas, de fato, não servem para absolutamente nada, nadinha mesmo. São equivocadas, arrogantes, quando não aborrecidas, imprestáveis — coisas que se aplicam ao meu apanhado de 2012. Autodepreciação e falsa modéstia à parte, enumero abaixo as audições mais agradáveis e destemidas do ano — e, mais abaixo, uma relação das mais irritantes e preguiçosas.

20 Melody’s Echo Chamber – Melody’s Echo Chamber (Fat Possum)

19 Swans – The seer (Young God)

18 Hot Chip – In our heads (Domino)

17 John Talabot – ƒIN (Permanent Vacation)

16 Cat Power – Sun (Matador)

15 Bat for Lashes – The haunted man (Parlophone)

14 Grizzly Bear – Shields (Warp)

13 Lee Fields – Faithful man (Truth & Soul)

12 The Tallest Man on Earth – There’s no leaving now (Dead Oceans)

11 Burial – Kindred EP (Hyperdub)

10 Fiona Apple – The idler wheel is wiser than the driver of the screw and whipping cords will serve you more than ropes will ever do (Epic)

10 fiona appleEla realmente voltou: com um polvo na cabeça e a delicadeza de uma voz que sussurra, imita cantos celestiais, lamenta as dores terrenas, esboça malícia e docilidade, e sempre soa tão estranha e aconchegante quanto as músicas entoadas. Acho que ela tem discos melhores — When the pawn… ou mesmo a versão subterrânea do Extraordinary machine produzida pelo Jon Brion. De qualquer modo, o disco é belo e esquisito de um jeito todo Fiona.

Top 3: Every single night, Left alone e Werewolf.

 

9 Dirty Projectors – Swing lo magellan (Domino)

9 dirtyNão tenho problemas com o Bitte orca, mas a sequência agrada por seguir exatamente em sentido contrário ao tomado pelo anterior: saem as firulas enfeitiçantes e entram grooves inesperados (algo à Fleetwood Mac) e modulações vocais que não se ouvem com frequência em discos indie roqueiros por aí. Os nova-iorquinos abrem o estúdio para orquestrações e timbres de soul — e, veja você, parecem, a um só tempo, relaxados e aventureiros.

Top 3About to dieDance for you e See what she seeing.

 

8 Jessie Ware – Devotion (Island/PMR)

8 jessieA revelação do ano — e autora do melhor álbum pop do ano — surge como resposta perfeita à (já esfriada) febre Adele: é responsável nos agudos, é radiofônica sem ceder a melodias bregas e guarda algum mistério nos seus arpejos de música eletrônica, nas suas ambientações de lounge, nas slow jams mui suaves (olha o pleonasmo) e nas zonas cavernosas trazidas da experiência no dubstep. Pronto: isso, sim, é sophisti-pop.

Top 3: Wildest moments, No to love e 110%.

 

7 Death Grips – The money store (Epic)

7 death gripsÉ o resultado de uma colisão violenta de hip hop, punk e proselitismo de MC, com uma barulheira eletrônica digna de Aphex Twin e uma gritaria rapper das mais briguentas e agressivas. É um álbum, de fato, estressante — e estressado –, quase extenuante de tão perverso, e, talvez por isso, inquieto, pontiagudo, de emplastros sonoros que ferem e agradam os ouvidos. O recado está dado na última faixa, Hacker: I’M IN YOUR AREA.

Top 3: Get gotBitch please e Hacker.

 

6 Suíte Super Luxo – Entre a piscina e o trampolim (independente)

6 suiteNem parece a mesma banda que, há sete anos, lançou o El toro, uma estreia pulsante e revoltada. E não, a metamorfose não significou “maturidade artística” ou bobagens do tipo: a (demorada) continuação é de baladas roqueiras brincalhonas, ensolaradas, praianas — ou piscineiras, que seja — e ironias sobre a porção de concreto em que moram (Brasília, precisamente descrita em Fotografia verborrágica quilométrica). Só consigo definir essa belezura como algo entre a fanfarronice dos Pixies e o romantismo do Best Coast. É por aí.

Top 3: FavasJasmim e Cabeleiras do mar.

 

5 Tame Impala – Lonerism (Modular)

A4 tame impalah, os vocais lennonescos — lennonianos, whatever –, ah, os rasgos de psicodelia sessentista e, bem, pop sessentista! É uma colagem grudenta da genialidade lampejante de Lennon com o vanguardismo de resultados de McCartney. Mas nem só de Beatles vivem Kevin Parker e seus amigos: Lonerism é um alucinógeno infinitamente menos empolado e mais esperto que qualquer coisa de Animal Collective, MGMT, of Montreal et al.

Top 3Mind mischiefFeels like we only go backwards e Why won’t they talk to me?.

 

4 Kendrick Lamar – good kid, m.A.A.d city (Interscope/Aftermath)

4 kendrickA narrativa errática, os contos urbanos de sobrevivência, o espírito imberbe, o diálogo com o passado (o gangsta, a participação e os pitacos de Dr. Dre) e a atualidade (o swag, a ótima contribuição de Drake) do rap. Não são poucos os elementos que fazem do segundo trabalho de estúdio de Lamar uma das preciosidades de 2012 — e a melhor coisa do hip hop confessional desde My beautiful dark twisted fantasy.

Top 3: Money treesPoetic justice e Compton.

 

3 Sharon Van Etten – Tramp (Jagjaguwar)

3 sharonÉ a crônica de uma cantora sem-teto, desamparada, largada, esquecida, autocomiserativa, traída, feita de letras que dizem, na ordem da mais cortante para a menos cortante, 1) você que cave sua própria cova (Kevin’s), 2) bem, bem, estou mal (Leonard), 3) quando você estava do meu lado, o mundo era uma merda (In line) e outras mágoas. Sim, como já deu pra perceber: um disco deprê, aham, fúnebre, ok, mas que enterra abandono para desenterrar afeto.

Top 3: Give outIn line e All I can.

 

2 Beach House – Bloom (Sub Pop)

2 beach houseMeu favorito do duo ousa soar menos cerebral e mais assobiável do que de costume — do que o Teen dream, por exemplo –, numa coleção hipnotizante de músicas movidas por beats parecidas, timbres parecidos, mas que exibem, na verdade, uma expansão sonora drástica e transmitem um alívio necessário — ou uma catarse necessária — após os louvores ao álbum predecessor. (Mais aqui.)

Top 3: WildLazuli e Wishes.

 

1 Frank Ocean – Channel orange (Def Jam)

1 frank oceanExplico a primeira posição com uma declaração que vi na página do disco no Rate Your Music, uma rede social viciante, rouba-tempo, meu-Deus-já-é-madrugada-e-eu-ainda-estou-aqui-dando-estrelinha-a-torto-e-a-direito, em que é possível votar nos álbuns que você ouviu, nos filmes que você viu e ler coisas assim: about five songs into this record I said to myself, “I should have sex with my wife.”

Top 3: Sweet lifeSuper rich kids e Pyramids.

 

E os detestáveis…

10 of Montreal – Paralytic stalks (Polyvinyl)

9 Mumford & Sons – Babel (Island)

8 Howler – America give up (Rough Trade)

7 The Vaccines – Come of age (Columbia)

Xiu Xiu – Always (Bella Union)

5 Die Antwoord – TEN$ION (Zef)

4 Amanda Mair – Amanda Mair (Labrador)

3 Alanis Morissette – Havoc and bright lights (Collective Sounds)

2 Kid Rock – Rebel soul (Atlantic)

1 Maroon 5 – Overexposed (A&M/Octone)

Quando vi e ouvi Bob Dylan

abril 18, 2012 1:46 am 2 comentários

(Brasília, terça-feira 17 de abril, ginásio Nilson Nelson)

Pois então, Don’t think twice, it’s all right começou e eu nem percebi. A hard rain’s a-gonna fall, só fui identificar no refrão. É verdade o que dizem: os novos arranjos que o Dylan orquestra no palco — por necessidade, por hoje ser mais um blueseiro esmerado do que um trovador revolucionário — deixam o sing along bem mais difícil — bater palmas no ritmo que ele imprime também não é assim tão simples. Pouco importa. Mesmo. Sério.

Não paguei R$ 250 esperando ver, com as mãos trêmulas, suadas — ou petrificadas, frias, tanto faz –, o Dylan de 1965 ou 75 ou 85 ou 95 — isso, daquele Unplugged dispensável de 1995, isso mesmo, até esse. Nem cheguei cedo — uma hora antes — e fiquei na grade — com duas amigas e um amigo e uma estranha à minha esquerda que, imitando meus pedidos (ingênuos) urrados com as mãos levantadas, queria escutar Make you feel my love, e eu penso agora que devia ter perguntado o nome dela mas, caramba, mas que coisa, mas que cara mais comfortably numb eu sou; vida que segue –, a dez metros dos instrumentos, aguardando um Dylan verborrágico, falando um “boa noite” falso para o público ou executando um setlist absurdamente inesperado — se bem que o bis, com Rainy day women ♯ 12 & 35, foi meio que um escândalo.

Fui para vê-lo. Só queria vê-lo. O resto — a arte que estremece e enternece, o músico que ainda arranha solos cativantes, que sorri com o canto da boca, que inclina os joelhos e ataca as cordas da guitarra como um roqueiro que nunca quis ser chamado de salvador do folk ou voz de geração nenhuma, que abocanha a gaita com gana, que coça a cabeça e faz charminho com os dedos –; o resto é detalhe. O resto são: discos, filmes, docs, bootlegs tão bons quanto/melhores que os discos, singles tipo Positively 4th street (minha favorita). Pouco importa. Mesmo. Sério.

Fui para ouvi-lo dizer felt an emptiness inside to which he just could not relate e o mantra tangled up in blue uma dúzia de vezes.

Só pra isso. E saí da grade — a desconhecida evaporou, correu, saiu sem dar boa noite que nem o Zimmerman — uns 50 e poucos anos mais velho, querendo chegar em casa e ficar na minha cama por toda a eternidade com o notebook (um HP com a tela de LED baqueada, que estraguei neste dia lindo) no colo, escrevendo e escrevendo mais um pouco e novamente, sem parar, apagando tudo depois e escrevendo lembrança em cima de lembrança, imagem sobre imagem sobre o dia em que vi e ouvi Dylan.

Bloom

março 29, 2012 8:29 pm Deixe um comentário

Como vazou rápido esse novo do Beach House, hein? Tanto que fui pego de surpresa. Há uns dez dias, um amigo me passou o precioso link para download do disco por DM, no Twitter. Horas depois, em casa, coloquei pra tocar. E lembrei, logo de cara, da faixa de abertura, Myth, que o duo tinha liberado para audição no site da banda. Uma canção, coisa curiosa (e inédita), dum dream pop bem acessível. Felizmente, as progressões “simples” — entre aspas porque com o Beach House as coisas nunca são tão simples e comuns assim — que abrem o disco imantam todo o quarto trabalho de estúdio.

Bloom (4/5) é uma sequência inesperada do ótimo Teen dream, presença obrigatória nas listas de melhores de 2010: menos experimental que o anterior — na novidade, quase dá para demarcar timbres de vozes, percussão e arranjos eletrônicos –, num arco de canções assobiáveis, redondinhas e, olha só, até grudentas. Soou nos meus ouvidos como um encontro das marchas fúnebres e ruidosas do Halcyon digest, o melhor (e, caramba, também quarto álbum) do Deerhunter — outro negócio indispensável de 2010 — com as baladas do debut do Cults.

Mas, vá lá, se você não acredita no que eu disse, reproduzo a seguir um trecho do mini-release que encontrei (depois de escrever os parágrafos acima, claro) na página da Sub Pop. Toma: “Bloom is meant to be experienced as an ALBUM, a singular, unified vision of the world. Though not stripped down, the many layers of Bloom are uncomplicated and meticulously constructed to ensure there is no waste”. Sacou?

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House of tolerance

fevereiro 6, 2012 3:14 pm Deixe um comentário

Este é um texto que já deveria ter sido escrito e postado — demorei não por preguiça, mas por cuidado mesmo. Afinal, trata-se do primeiro disco de uma banda (a Cambriana) que eu venho acompanhando há vários meses, desde que o amigo Wanderson Meireles começou a me enviar samples de algumas faixas daquele seria o House of tolerance, o bom debut (3.5/5) do conjunto goiano. O Wanderson é o único aqui da terrinha, Brasília; Luis Calil, líder do grupo e principal compositor, e companhia são de Goiânia.

Mas a formação da Cambriana, coloquemos desta maneira, não tem nada de arcaica. O indie rock que eles apresentam — cantado em inglês e, sim, com bons versos — talvez tenha algo de ingênuo — não é difícil rastrear as influências –, mas exibe um frescor que eu, ouvinte precário que sou de rock alternativo brasileiro, não vejo com tanta frequência nas bandas que pintaram no cenário nacional nos últimos tempos.

Ao menos pode-se dizer, com certeza, que Los Hermanos e The Strokes, as óbvias inspirações de muita gente, não são as referências da Cambriana. House of tolerance — nada a ver com o horror porn do Bonello, acho eu — é uma estreia à In rainbows. Calma. Não é uma comparação. Digo isso apenas para elogiar as texturas sonoras de uma banda iniciante que, em vários momentos, lembra a leveza rítmica e melódica do grande LP-quer-pagar-quanto-? do Radiohead — e, por consequência, os desdobramentos do Ir no breve The king of limbs. Dá para notar também que há muito de Grizzly Bear (e talvez de Department of Eagles) e um pouco do ótimo Twin Shadow e seu Forget (produzido pelo Grizzly Chris Taylor, o CANT), que eu achei um dos melhores de 2010.

Vamos então ao álbum de facto.

A abertura, Vegas, lembra muito o George Lewis Jr. e suas levadas catatônicas, banhadas em chiaroscuro (“A wonderful morning light / Is inviting me / To come again”), do Forget. A seguinte, Astray, segue na mesma toada, quase uma continuação da inicial: percussão mais célere, e os vocais (Calil canta, Wanderson e Israel Santiago fazem o backing), sutilmente, começam a despontar.

Acho que as canções do miolo perdem um pouco de força — apesar dos versos misteriosos de Safe rock (“And everything you say will turn me on / There’s nothing like falling for a ghost in summer clothes”) e do climão meio Arcade Fire de Face to face. Mas o fôlego é retomado no inspirado quarteto de canções que encerra a audição.

O que vem a seguir é um par de hits em potencial, Big fish e The sad facts. Se a estrutura musical sinaliza um certo carinho pelo In rainbows, as letras (especialmente Sad facts) elevam esse apreço à categoria de devoção: exibem paixões viscerais e ranhuras de amores passados em metáforas pesadas, carregadas de imagens um tanto perturbadoras (“As I am on the first step / Of looking up the sad facts / You’ve been leaving bodies everywhere you go” ou ainda “Should’ve heard your sighs, the cracking of the earth”).

Swell, minha favorita e penúltima, é estranhamente antiquada: faixa menos indie do cancioneiro, soa como um revival dos grudentos e revigorantes primeiros acordes do britpop dos anos 1990, em especial aquele Oasis do Definitely maybe. Logo em seguida, já que falei tanto da presença abençoadora do In rainbows aqui, vem a Videotape do House of tolerance. Num ambicioso crescendo de post-rock, Calil, Wanderson e cia terminam Invicto da mesma maneira como a começaram: reproduzem a mesma linha de acordes que engendra toda a música, mas com timbres macios de um velho violão.

Promissor, muito promissor.

2011 em: discos

dezembro 30, 2011 11:39 am Deixe um comentário

Eu deveria fechar o bico e não reclamar de nadinha, nadinha mesmo de 2011. Comecei o ano empregado — e terminei o ano empregado, o que é raro no querido, porém sofrido segmento jornalístico. Minha vó esteve doente à beça no segundo semestre. Mas encerra a temporada com saúde. No meio do ano, saí de casa: doeu, mas nem tanto.

E aqui estou na casa da minha mãe alimentando uma gostosa preguiça diante da combinação recesso + férias de janeiro, depois de ter acordado às 7h30, lutando contra essa própria preguiça — e contra pensamentos ruins, que esse ano foi “superestimado”, que “não teve nada lá” etc. Então, para mudar completamente de assunto, mas entrando no assunto de fato, vamos aos discos.

Hors concours

The Beach Boys – The smile sessions (Capitol)

 

20 The Caretaker – An empty bliss beyond this world (History Always Favours the Winners)

19 Wild Beasts – Smother (Domino)

18 The Pains of Being Pure at Heart – Belong (Slumberland Records)

17 Girls – Father, son, holy ghost (True Panther Sounds)

16 Youth Lagoon – The year of hibernation (Fat Possum)

15 Cults – Cults (In the Name Of/Columbia)

14 Real Estate – Days (Domino)

13 Jay-Z & Kanye West – Watch the throne (Roc-A-Fella/Roc Nation/Def Jam)

12 Plato Divorak – Plato Divorak & Os Exciters (Independente)

11 St. Vincent – Strange mercy (4AD)

10 Laura Marling – A creature I don’t know (Virgin)

Num ano de tantas garotas sofridas, indies (Annie Clark, Meg Baird, Eleanor Friedberger e outras mais) e do mainstream (Adele, talvez Florence), Laurinha ecoa, na linha do St. Vincent, uma docilidade meio ferida, meio hostil: se Annie é herdeira da PJ Harvey de Rid of me, Laura segue a linhagem folk de Joni Mitchell (Blue) e Joan Baez (e suas versões de All my trials e Girl of  constant sorrow). Ela tem 21 anos — mas antecipa a amargura dos 30 (eu antecipei aos 22) em seu obstinado e maduro terceiro disco.

 

9 Drake – Take care (Universal Republic)

Aquele rapper inseguro do debute de estúdio (Thank me later), que se escondia atrás de bons samples, desapareceu por completo. Aqui, o canadense está confiante o bastante para falar sobre uma porção de assuntos particulares — amores perdidos, rusgas familiares, paixões virulentas, flagelos da fama –, e deixar a voz circular entre o argumento de um rapper hostil (um tipo Lil Wayne, seu amigo) e o lamento de um incurável soulman (Marvin, ou Stevie, um dos mentores criativos do Take care).

 

8 Julianna Barwick – The magic place (Asthmatic Kitty Records)

O folk eletrônico pastoral de Julianna está espraiado nas nove canções de música ambiente mais oníricas do ano. Vocais entrelaçados, sintetizadores atravessados de breves inserções de baixo e piano, e uma ambientação que, em seus loops espantosamente hipnóticos, ora lembra o quarteto Mountain Man do belo Made the harbor, um dos álbuns mais calminhos do ano passado, ora traz à tona uma espécie de cruzamento entre Sigur Rós e um coral gospel a cappella. Serviu para abrandar meus dias agitados.

 

7 The Antlers – Burst apart (Frenchkiss Records)

Na primeira audição, lembro que fiquei decepcionado: queria algo tão angustiante e mórbido quanto o Hospice. Eis que o trio do Brooklyn entrega um disco que tem lá a sua inquebrável melancolia (No widowsHounds), mas que exibe um pouco de leveza: o Hospice é o Ok computer deles; o Burst apart, o In rainbows. A sonoridade, de fato, lembra o Radiohead dos tempos recentes, mas, por outro lado, guarda um dream pop (raramente) autêntico, em que instrumentos, sintetizadores e vocais não brigam pela atenção do ouvinte.

 

6 Radiohead – The king of limbs (XL Recordings)

Momento “sim, trabalho com cota de Radiohead”. E, como todos os anteriores, este aqui me acompanha o tempo inteiro — foi ao som dele que escrevi uma amalucada e, sim, mui precipitada declaração de amor, lá em março. Veja bem: escrevi e enviei. Pois bem, ao que interessa: King of limbs não deveria ser tão breve (queria muito que The daily mail e Staircase, as melhores coisas da banda no ano, tivessem ficado prontas a tempo), nem deveria soar tão óbvio — uma continuação do In rainbows, com suas reminiscências do Hail to the thief. Ainda assim — e como é reducionista dizer isso –, adorei.

 

5 James Blake – James Blake (Universal Republic)

O inglês estreante de um dos melhores álbuns e do melhor EP (Enough thunder) de 2011 parece estar sempre solitário: “my brother and my sister don’t speak to me, but I don’t blame them”, ele canta em I never learnt to share. Mas só parece. Sua estreia brilhante — clima de dubstep minimalista com indie eletrônico, vocais de blue-eyed soul — tem covers de Feist (Limit to your love) e do próprio pai (The Wilhelm Scream) — sorry, Blake, mas Where to turn, a original do teu velho, é superior. E, bem, notei isso só para reforçar que, mesmo quando está acompanhado, JB é um cara sozinho: só consigo vê-lo entre quatro paredes, de olhos cerrados, com microfone e sintetizador.

 

4 The Weeknd – House of balloons (Independente)

Ele não é o primeiro da minha lista, mas foi o sujeito mais importante da música independente em 2011. A insone trilogia de mixtapes, completada por Thursday e Echoes of silence, apresenta um r&b de versos movidos a cocaína, garotas que vêm e vão, rodadas de drinques e noites intermináveis. Não dá para dizer com certeza se Abel Tesfaye, o cantor do Weeknd — produtores completam o time –, faz autobiografia ou uma ficção livremente inspirada na realidade. Tudo soa verdadeiro — e, ao mesmo tempo, perturbador demais para ser verdade.

 

3 Fleet Foxes – Helplessness blues (Sub Pop)

Os barbudinhos amadureceram. O adorável primeiro disco, lotado de hits, parecia uma homenagem de novatos às bases da música folk — CSNY, em especial, talvez The Band. No segundo trabalho, sai a ansiedade, e entra a sabedoria de músicos experientes: Helplessness é um disco paciente, que permite uma certa experimentação narrativa — com duas belas suítes — e um cuidado maior com as letras das canções. “After all is said and done I feel the same / All that I hoped would change within me stayed”, diz a breve Someone you’d admire. Difícil dizer se prefiro a ingenuidade do homônimo ou a velhice precoce deste. Melhor não eleger nenhum.

 

2 Destroyer – Kaputt (Merge)

Depois do King of limbs — é óbvio –, Kaputt foi o meu disco mais ouvido do ano. Os timbres oitentistas de Dan Bejar — texturas eletrônicas que parecem imersas numa nuvem de luzes neon, perfumes fortes e sufocantes colunas de fumaça, metais lindamente antiquados, backing vocals também antiquados — derramam uma melancolia que quase dá para pegar com as mãos. É impressionante o resultado sonoro de uma mistura tão improvável: voz folk, poesia quase sem sentido — afinal, “I”, no caso ele, “write poetry for myself” — e acordes tão luxuosos. Fino.

 

1 Bon Iver – Bon Iver, Bon Iver (Jagjaguwar)

Curioso. Só agorinha mesmo percebi que o primeiro da lista, o unânime Bon Iver ao quadrado, também é um disco perdido dos anos 1980 que por acaso foi lançado em 2011. Aquele Justin Vernon meio selvagemente tristonho do For Emma, forever ago continua presente, mas o que se nota (se escuta) aqui é uma enorme abertura sonora — estranho o folk dele ser tão sombrio, e o art-pop ser tão terno — e uma narrativa sentimental mais enigmática — às vezes, me parece irônica, o que só torna a audição ainda mais interessante. Estou meio cansado dessa lista e, para falar a verdade, passo a palavra pra ele. “Hair, old, long along /Your neck onto your shoulder blades / Always keep that message taped / Cross your breasts you won’t erase / I was only for your very space” (Calgary).