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Archive for the ‘HQ’ Category

Scott Pilgrim contra o mundo – Vol. 3

junho 3, 2011 12:29 am Deixe um comentário

O filme foi o queridinho do ano passado, sabe como é que é: passou pelos cinemas sorrateiramente, silenciosamente — aqui em Brasília, acho que ficou duas semanas em cartaz –, mas conquistou quase todo mundo que pagou ingresso; e eu, totalmente concentrado no trabalho final, não tive tempo de conferir. Mas foi melhor assim: deu para ler os dois volumes lançados no Brasil até então e, logo depois, me divertir um bocado com o cinema mais divertido dos últimos sete anos, o cinema do inglês Edgar Wright (Todo mundo quase morto e Chumbo grosso).

Editado em seis volumes na América do Norte, mas comprimido em três aqui (pela Companhia das Letras), a saga do herói sonso, meio passado, e apaixonado por uma certa Ramona, enfim chegou ao último capítulo com tradução para o português br — e como é bom diferenciar pt de br, hein. E, olha, a conclusão é demais, demais (5/5).

É sobrecarga nerd distribuída de maneira desigual em 432 páginas pixeladas, sangrentas — sim, tem muito, muito sangue –, com um Scott Pilgrim mais lerdo — e velho, 24 anos — do que nunca, agora ele bebe mais também, apesar de continuar dizendo que não bebe, um Young Neil (Pequeno Neil) ainda como um coadjuvante-figurante, aparecendo pouco, falando pouco, mas sendo muito de novo, uma Kim Pine toda falante, menos emburrada — eu amo a Kim Pine –, mais sarcástica, ela agora alfineta o Scott, provoca o Scott, uma Ramona mais chatinha, menos metida, um Wallace mais bêbado, e agora tem uma tal de memory cam, que resume o passado de alguns personagens — Scott e Gideon, o líder da Liga dos Ex-Namorados do Mal, eu acho –, e mais figurantes, que se intrometem nas passagens de luta com falas muito legais, e ex-namorados mais violentos, mais fortes, os gêmeos Katayanagi e Gideon, e finalmente sabemos que troço é esse de subespaço, a Knives enfim fez 18 anos e grita menos, isso é bom, a Sex Bob-Omb anda meio parada, isso não é bom.

Esse Vol. 3 é pra ser lido umas cinco mil vezes, de trás pra frente se enjoar da ordem dos capítulos, ou até fechando os olhos, sentindo as páginas com os dedos e abrindo o livro em qualquer ponto da história. Quando eu fizer 24 anos, quero tirar o dia de folga e ler tudo de uma vez: Bryan Lee O’Malley captura com muita precisão esse mundinho pop habitado por fãs de videogame e bandas alternativas, e perdedores e garotas intimidadoras. Com sabedoria, até.

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Retalhos

abril 17, 2011 11:25 pm 2 comentários

Terça passada viajei para o Rio de Janeiro. Fui cobrir o lançamento de Velozes e furiosos 5 – Operação Rio — que é ruim, claro. Não deu pra conhecer a cidade, o que já fiz em parte, em janeiro de 2001, na minha única visita à cidade. Mesmo assim, tenho lembranças fracas: banners enormes de Limite vertical e O sexto dia — filmes que adorei quando vi pela primeira vez — e a estrutura do Rock in Rio sendo desmontada. Fora uma caminhada forçada — já que o motorista nos largou, eu e mais dois jornalistas, a oito quadras do hotel –, não deu pra ver muita coisa. Mas isso não interessa agora.

Fui e voltei lendo Retalhos no avião, essa graphic novel insuportavelmente bela de Craig Thompson.

É um romance de formação em quadrinhos. Thompson cresceu numa família cristã (fanática), escutando sermões amedrontadores e lendo passagens bíblicas que exigiam fé irrestrita. Ele se expressava por meio do desenho, era malhado pelos colegas da escola por causa do cabelo que cobria as orelhas e dividiu a mesma cama com o irmão por um tempão.

Num acampamento religioso, veio a libertação: ele conhece Raina, por quem se apaixona de imediato. E ele a ama do seu jeito, com ideais angelicais de pureza e outras tantas ingenuidades desconcertantes de um cara de 17 anos que passou a adolescência inteira acreditando que a vida na terra é passageira, pecaminosa, enfim, é “canseira e enfado” — o que vem depois é o gozo eterno, louvores infinitos ao bom Deus que salvou Craig do pecado.

Thompson não precisa atacar o cristianismo para evidenciar seu passado. Ele é levemente irônico em algumas passagens, e fixa a narrativa numa progressão acidentada, fragmentada mesmo, desenvolvendo o temperamento do Craig adolescente e jovem enquanto investiga a infância. Retalhos tem traços simbólicos, alguns fantasmagóricos, e delicados. Thompson traduz amor, decepção e opressão com sensibilidade arrepiante. É um tratado gráfico rasgado e delicado sobre o primeiro amor.

O que vou dizer agora é um absurdo. Achei Retalhos um pouco parecido com Diário da queda, livro de Michel Laub a que dediquei um post há poucas semanas: nos dois, o protagonista é massacrado pela persistência da memória, mas sabe seguir em frente. Na HQ, assuntos mal resolvidos da infância e recordações recentes de uma ditadura do pensamento, imposta pelo protestantismo e pelos pais. No romance, a história de sofrimento dos judeus tritura e distorce o comportamento do principal.

Como é bom deixar uma marca na superfície branca. Fazer um mapa dos meu passos… mesmo que seja temporário.