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Archive for the ‘Ficção’ Category

A parada

março 27, 2011 11:56 pm Deixe um comentário

Know when you see him / Nothing can free him / Step aside, open wide / It’s the loner

The loner, de Neil Young

 

A três passos da faixa de pedestres, ele é tocado com o indicador por uma mulher alta, cabelo escuro, olhos esbugalhados. A apreensão do primeiro contato dá lugar a um pequeno instante de encantamento: aqueles olhos enormes e verdes na verdade estavam mais para suplicantes. Ela tomara condução para o lugar errado e pedia para aquele homem instruções de como chegar ao ponto de ônibus mais próximo.

Vacilante, oprimido por aquele par de tochas impenetráveis, chamou-a com um aceno brusco com o queixo. A parada era a 300 metros do semáforo. Atravessaram a faixa. Ela, devagar, atrapalhada pela luz fraca que mal iluminava as calçadas daquela quadra. Ele, apressado, como que envergonhado por não conseguir encará-la novamente. Ela, prevendo que a mudez inicial se estendesse por mais metros — ou segundos –, arriscou algumas palavras: “Nossa, que burrice a minha! Eram dois ônibus iguais. Acabei entrando no errado sem querer…”. Ele nem mesmo murmurou uma resposta.

No ponto, atenciosa, agradeceu, com um leve afago no ombro esquerdo daquele altruísta mas excêntrico homem. Ele por pouco não recuou, e, por fim, devolveu o carinho com uma frase inaudível. E arrancou rápido para o outro lado da parada. Ela deu uma última olhada na direção dele, mas deparou com colegas que apareciam com as mãos levantadas, bolsas chamativas e cumprimentos gritantes.

Ele não suportava encontros. E desencontros.

Manhã de domingo

fevereiro 21, 2011 12:19 am Deixe um comentário

No peito, o aperto desesperado da noite anterior deu lugar a um calor suave. O formigamento que lhe tomara braços e pernas e terminara num arrepio aterrorizante atrás da nuca parou; e cedeu espaço para um estremecimento de felicidade e espasmos musculares insuportáveis. O incômodo estomacal que provocara reclamações e xingamentos foi extirpado. Agora, sentia-se saudável e com um apetite imenso. O suor que deixara a testa encharcada evaporara. As mãos, antes atônitas, uma atacando a outra, fuçando unha por unha e atacando os cantos dos dedos, estavam emparelhadas, pacíficas, como irmãs que finalmente resolveram suas diferenças.

Na noite de sábado, estava louco. Uma paixão caótica. Na manhã de domingo, acordou calmo. Uma paixão esperançosa.

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