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Need for Speed

outubro 13, 2014 12:15 am Deixe um comentário

Queria ter retomado o blog com uma THINK PIECE de 8 mil toques sobre o melhor (empatado com Like Someone in Love) filme da década de 2010, The Immigrant.

Instead, catei uns stills lindos de Need for Speed — isso mesmo. Pois: 1) é a obra vulgar mais subestimada do ano; 2) é a adaptação cinematográfica de videogame mais satisfatória desde Silent Hill (2006) — houve alguma outra que prestou?; 3) não, não é um car porn à Fast & Furious, mas uma crônica (imberbe e convincente a ponto de empolgar) do culto a motores, chassis e pistas rápidas. (Tirei esse terceiro argumento do texto mui esperto do Ignatiy Vishnevetsky.)

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2013 em: filmes

janeiro 1, 2014 2:42 pm Deixe um comentário

O critério para a seguinte lista é um e somente um: enumero aqui filmes recentes com cotação mínima 4/5 (quatro estrelas em cinco) que vi em 2013 — entre lançamentos no cinema e nos torrents.

Portanto, coisas assistidas em anos anteriores (Era uma vez na Anatólia, O som ao Redor, Tabu e A visitante francesa) e exibidas nos cinemas brasileiros em 2013 não entram na seleção.

Após meu TOP DEZESSETE, faço também um apanhado dos melhores exemplares de vulgar auteurism da dúzia de meses que se passou.

Obs: vou seguir o bom exemplo de outras listas e, em vez de escrever bobagens apressadas, deixo links das minhas leituras favoritas.

Vai:

17 O voo (Flight, EUA). De Robert Zemeckis

Escrevi sobre o filme mais spielberguiano de 2013 aqui. E recomendo essa entrevista (antiga) do Zemeckis para o Dave Kehr.

flight

16 A cidade é uma só? (Brasil). De Adirley Queirós

A leitura dessa crítica entusiasmada escrita por Daniel Dalpizzolo, quando da exibição do filme em Tiradentes 2012, é obrigatória.

a cidade é uma só

15 Amor profundo (The deep blue sea, EUA/Inglaterra). De Terence Davies

Leia o que a Dana Stevens escreveu sobre.

deep blue sea

14 O mestre (The master, EUA). De Paul Thomas Anderson

Eis um texto do Ignatiy Vishnevetsky e outro do amigo Virgílio.

the master

13 Searching for Sugar Man (Suécia/Inglaterra). De Malik Bendjelloul

Deixo a (falsa) modéstia de lado e divulgo o melhor texto que escrevi em 2013.

sugar man

12 Passion (Alemanha/França). De Brian De Palma

Se você também achou o último De Palma subestimado à beça, leia: essa entrevista na Film Comment e esse texto bastante preciso do Vadim Rizov.

passion

11 Círculo de fogo (Pacific Rim, EUA). De Guillermo del Toro

O Tiago Lopes escreveu um artigo mui interessante sobre a diferença da violência mostrada aqui daquela mascarada em todos os outros blockbusters de 2013.

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10 The world’s end (Inglaterra). De Edgar Wright

Recomendo fortemente: as várias impressões do Calum Marsh.

The World's End

9 Amor bandido (Mud, EUA). De Jeff Nichols

A.O. Scott escreveu um curto, mas preciso texto sobre a aura folk e aventureira do filme.

mud 2012

8 Antes da meia-noite (Before midnight, EUA). De Richard Linklater

Um breve artigo de Will Leitch sobre como o último capítulo da trilogia Before é sombrio, pesado e difícil de ser visto.

before midnight

7 O ato de matar (The act of killing, Dinamarca/Noruega/Inglaterra/Finlândia). De Joshua Oppenheimer

O documentário do ano. Eis um baita texto sobre, na Film Comment.

act of killing

6 A hora mais escura (Zero dark thirty, EUA). De Kathryn Bigelow

Sou #TeamBigelow, então escrevi brevemente sobre na minha prévia do Oscar, mas recomendo mesmo é essa reflexão do Vishnevetsky.

Scene from movie 'Zero Dark Thirty'

5 Killer Joe – Matador de aluguel (Killer Joe, EUA). De William Friedkin

Esse texto do Marcelo Hessel, no Omelete.

killer joe

4 Um toque de pecado (Tian zhu ding, China). De Jia Zhangke

Entrevista em duas partes (aqui e aqui) do diretor ao blog Sinosphere, do The New York Times.

a touch of sin

3 Norte, o Fim da História (Norte, hangganan ng kasaysayan, Filipinas). De Lav Diaz

Dois belos artigos: a apreciação/entrevista do Daniel Kasman e as impressões do Filipe Furtado, na Cinética. Ah, e também escrevi umas coisas.

norte the end of history

2 Drug war (Du zhan, China/Hong Kong). De Johnnie To

Mais lindo filme de ação desde Heat. Leia: meu poeminha dedicado ao filme e os elogios de Filipe Furtado, Sean Gilman e Peter Labuza.

drug war

1 Bastardos (Les salauds, França/Alemanha). De Claire Denis

Entrevistas apaixonantes da Claire na Cinética e na Cléo + apreciação/conversa com Daniel Kasman e a crítica de Juliano Gomes na Cinética.

les salauds

Os vulgares (e subestimados) — em ordem aleatória

Man of tai chi (EUA/China/Hong Kong). De Keanu Reeves

Mais um do Vishnevetsky, agora sobre o actor-auteur do ano.

man of tai chi

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As bem-armadas (The heat, EUA). De Paul Feig

Essa crítica mui divertida do Peter Labuza.

the heat

The canyons (EUA). De Paul Schrader

Leia o texto sensacional do Vadim Rizov.

the canyons

Riddick 3 (Riddick, EUA/Inglaterra). De David Twohy

Sobre o filme mais hawksiano de 2013, leia: o tuíte-expectativa do amigo Guilherme Gaspar + o texto do Emmet.

riddick 3

Parker (EUA). De Taylor Hackford

Matt Singer, sobre a melhor cena da carreira de Jason Statham.

parker

Depois da terra (After earth, EUA). De M. Night Shyamalan

Eis uma roundtable deliciosa, no blog The Vulgar Cinema.

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Sobrenatural: capítulo 2 (Insidious: chapter 2, EUA). De James Wan

O plano mais ousado do cinema comercial americano em 2013 está aqui — aquele longo travelling após o prólogo, que começa na abertura de uma porta vermelha e termina no rosto de Rose Byrne. Coisa linda.

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Europa report (EUA). De Sebastián Cordero

Uma espécie de The Abyss para a era do found footage.

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Velozes & furiosos 6 (Furious 6, EUA). De Justin Lin

A sério: o melhor da franquia, seguido de perto pelo 5. E a coisa só deve melhorar no sétimo, com direção do James Wan.

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2013 em: discos

dezembro 31, 2013 5:33 pm Deixe um comentário

A preguiça me impede de escrever qualquer coisa ~profunda~ sobre o que ouvi durante o ano — mas ainda há algum ânimo nesse restinho de 2013 para listar aqui versos (ou ainda, verdades que falam à alma e ao coração) que justificam as escolhas (com exceção dos discos de instrumental hip hop/future garage/drone, obviamente).

Ei-la, a lista:

20 Oddisee – The beauty in all (Mello Music Group)

Ouça Lonely planet

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19 Unknown Mortal Orchestra – II (Jagjaguwar)

Maybe one day we’ll find we have

No need for a leader”

(No need for a leader)

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18 Tyler, the Creator – Wolf (Odd Future/RED/Sony)

“You’re good at being perfect

We’re good at being troubled”

(IFHY)

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17 Charles Bradley – Victim of love (Daptone/Dunham)

“This heart of mine

You wrote your name on it

With such style

I couldn’t look away from it

Two thousand miles

I wouldn’t stay away from it”

(You put the flame on it)

victim of love

16 Arcade Fire – Reflektor (Merge)

“Is anything as strange as a normal person?

Is anyone as cruel as a normal person?

Waiting after school for you

They want to know if you

If you’re normal too

Well, are you?

Are you?”

(Normal person)

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15 James Blake – Overgrown (ATLAS/A&M/Polydor)

“We’re going to the last

You and I”

(To the last)

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14 Justin Timberlake – The 20/20 experience (RCA)

“Just like the movie shoot, I’m zooming in on you

Everything extra in the background, just fades into the set

As we ride off into the sun”

(Tunnel vision)

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13 Destroyer – Five spanish songs (Merge/Dead Oceans)

“María de las Nieves se encerró en mi habitación

Tiene los pies fríos y un puñal siniestro sobre el camisón

María de las Nieves, se me rompe el corazón”

(María de las Nieves)

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12 Janelle Monáe – The electric lady (Wondaland Arts Society/Bad Boy)

“When people put you down, yeah way down and you feel

Like you’re alone

Let love be your guide”

(Ghetto woman)

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11 Tim Hecker – Virgins (Kranky/Paper Bag Records)

Ouça Virginal I

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10 Julia Holter – Loud city song (Domino)

“See the young – so old so fast

See the young – in love so fast

I don’t understand falling leaves

A tree is a tree”

(This is a true heart)

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9 Drake – Nothing was the same (OVO Sound/Young Money/Cash Money/Republic)

“Most people in my position get complacent

Wanna come places with star girls, end up on them front pages

I’m quiet with it, I just ride with it

Moment I stop having fun with it, I’ll be done with it”

(Too much)

drake

8 Eleanor Friedberger – Personal record (Merge)

“I want you all around me

Envelop me in sound

Smother me, pummel me

Cover me, humble me

The silence with noise

With a song in your voice”

(Echo or encore)

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7 Kurt Vile – Wakin on a pretty daze (Matador)

“Every time that I look out my window

All my emotions they are spreading

Zip thru winding highways in my head

Pick up momentum then I’m coastin

Only to turn around abrupt

Come back for my love”

(Pure pain)

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6 Run the Jewels – Run the Jewels (Fool’s Gold)

“Move like Frank you will die like a hassa

Move like Jesus die like a martyr”

(36″ chain)

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5 Kanye West – Yeezus (Roc-A-Fella/Def Jam)

“Close your eyes and let the word paint a thousand pictures

One good girl is worth a thousand bitches”

(Bound 2)

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4 Wavves – Afraid of heights (Mom & Pop)

“I think I’’m dying

Maybe I’’m thirsty

I think I must be drunk

Woke up and found Jesus

I think I must be drunk”

(Afraid of heights)

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3 Laura Marling – Once I was an eagle (Virgin)

“And where you’re from I long to know

And you will speak and it shall be so

I cannot love, I want to be alone

Pray, pray for me”

(Pray for me)

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2 Burial – Rival dealer (Hyperdub)

Ouça Come down to us

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1 The National – Trouble will find me (4AD)

“I can’t fight it anymore

I’m going through an awkward phase

I am secretly in love with

Everyone that I grew up with”

(Demons)

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2013 em: livros

dezembro 26, 2013 11:22 pm Deixe um comentário

Uma lista de livros breve para um ano em que li bem menos do que gostaria.

Em comum, os quatro lançamentos e a reedição da autobiografia de Ingmar Bergman trazem em suas páginas narrativas sobre heranças memoriais — e suas consequências para a vida presente dos personagens e/ou narradores.

Por isso, deixo com eles, os autores, a palavra:

5 Lalanterna-magicanterna mágica. De Ingmar Bergman. Cosac Naify, 320 páginas

“Em algumas ocasiões, ser diretor de cinema traz uma felicidade especial. Uma expressão que não foi ensaiada nasce naquele momento, e a câmera a registra. Justamente isso aconteceu hoje. Sem preparo nem ensaio, Alexander se torna muito pálido, uma dor pura se desenha em seu rosto. A câmera registra o instante. A dor, difícil de apreender, esteve ali por alguns segundos e nunca mais vai voltar; ela não estava lá antes, mas na fita ficou gravado o momento. Então, acredito que os dias e os meses de disciplina e previsibilidade valeram a pena. Talvez eu viva para esses instantes. Como um caçador de pérolas.”

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do que a gente fala quando fala de anne frank4 Do que a gente fala quando fala de Anne Frank. De Nathan Englander. Companhia das Letras, 208 páginas

“51. A mulher que amo, a bósnia, não é judia. Para minha família, todos anos em que estou com ela, é como se ela não existisse. Cada vez melhor, a minha família, para esse tipo de coisa. Tão hábil, essa minha família. Não é só o passado que pode ser modificado e esquecido perdido para o mundo. É em tempo real agora. É o que está acontecendo agora. Também o presente pode ser desfeito.

52. E eu ainda gosto dela. Eu te amo, Bean (E mesmo agora, não consigo dizer isso direito. Deixem-me tentar outra vez: Eu te amo, Bean. Pronto.) E coloco isso no meio de um conto em meio a nossas vidas modernas com YouTube, iTunes, conectadas. Posso muito bem dizer isso a ela aqui. Ninguém está olhando; ninguém está escutando. Não há nenhum lugar melhor para se esconder em plena vista.”

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esquilos de pavlov3 Esquilos de Pavlov. De Laura Erber. Alfaguara, 176 páginas

“Tentei continuar a explicar as coisas naquele estilo que eu mesmo detestava na fala de outros artistas, dizendo que o que eu fazia eram deslocamentos, rearranjos, trocas de lugar, mas nunca roubo, eu não era um Rom, eu redistribuía, eu remanejava, sem tirar nem pôr, criando novas vizinhanças e novas distâncias, por exemplo entre

os livros que começam com uma pergunta

os livros que terminam onde começam

os livros que terminam sem terminar

os livros que são maus mas poderiam não ser, ou seja, não deveriam ter sido escritos pelos autores que os escreveram

os livros deprimentes de autores felizes

os livros alegres de autores deprimidos

os livros que foram renegados por seus autores

os livros que causaram arrependimento nos seus autores

os livros em que o herói troca de nome toda vez que abre a geladeira”

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maçã2 A maçã envenenada. De Michel Laub. Companhia das Letras, 120 páginas

“59. É preciso alguma coragem para se machucar de propósito. Algumas pessoas passam a vida toda sem conseguir aplicar uma injeção a si mesmas. Não é qualquer um que tira um espinho usando a ponta de um canivete. É mais fácil pensar em tomar um frasco inteiro de remédios e dormir para sempre sem sentir nada do que bater uma porta no dedo indicador. Em abstrato é possível decidir qualquer coisa, a bala que rasga a carne, a corda que aperta o pescoço, o estômago queimando por causa do veneno, os ossos esmagados quando se pula da janela. O problema é quando se está numa cama depois de um acidente com um carro de bombeiros e durante boa parte do dia se pensa como seria decidir ir até o fim. Que método seria mais rápido, mais seguro. Quantos dias depois de receber a notícia sobre a cadeira de rodas. Faria diferença esperar mais uma semana, durante a qual eu faria exatamente o quê? Comer algo que tivesse vontade? Escrever um bilhete como Kurt Cobain?”

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jesus1 A infância de Jesus. De J.M. Coetzee. Companhia das Letras, 304 páginas.

“‘Eu acho que as estrelas são números. Acho que aquela é o Número 11’ — ele espeta um dedo no céu — ‘e aquela o Número 50 e aquela o número 33 333.’

‘Ah, você quer saber se podemos dar um número para cada estrela? Isso seria, com certeza, um jeito de identificar as estrelas, mas um jeito muito chato, pouco inspirado. Acho melhor elas terem nomes próprios como Ursa, Vésper, Gêmeos.’

‘Não, bobo, eu disse que cada estrela é um número.’

Ele sacode a cabeça. ‘Cada estrela não é um número. Estrelas são como números sob alguns aspectos, mas sob a maioria dos aspectos são bem diferentes deles. Por exemplo, as estrelas estão espalhadas por todo o céu caoticamente, enquanto os números são como uma frota de navios navegando em ordem, cada um sabendo o seu lugar.’

‘Elas podem morrer. Os números podem morrer. O que acontecem com eles quando morrem?’

‘Números não morrem. Estrelas não morrem. Estrelas são imortais.’

‘Os números podem morrer. Podem cair do céu.’

‘Isso não é verdade. Estrelas não caem do céu. As que parecem cair, as estrelas cadentes, não são estrelas de verdade. Quanto aos números, se um número caísse para fora da série, então haveria uma rachadura, uma quebra, e não é assim que os números funcionam. Não existe nunca uma rachadura entre números. Nunca um número fica faltando.'”

Mostra São Paulo – Dia 4/5

outubro 29, 2013 10:15 am Deixe um comentário

Tive uma segunda-feira de filmes sofridos, úmidos e esfomeados. Em comum, famílias estilhaçadas por crises econômicas de seus países. Cães errantes (Taiwan), o drama de planos de 8-a-12-min de Tsai Ming-liang, o fraco Caméra d’Or desse ano em Cannes, Ilo Ilo (Cingapura), e o raivoso documentário Tempos de Lobo (Grécia).

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Cães errantes (Jiao you, França/Taiwan, 2013). De Tsai Ming-liang. 3/5.

Chove quase todo dia e as únicas pessoas que vemos nas ruas e calçadas de Taipei são estátuas humanas segurando anúncios de venda de imóveis caros. Um deles é um pai que cuida de dois filhos, não tem onde morar e abriga sua família como pode — em prédios abandonados, mofados, mas minimamente seguros. De dia, enquanto o pai levanta a placa por horas a frio, sob chuva e frio, seus dois filhos, um garoto e uma garota, andam por supermercados em busca de amostras de comida.

Ming-liang observa cada ato cotidiano dessa família, do semáforo fechado em mais um dia de trabalho a uma desesperada (e rara) refeição, em sua inteireza. Do começo ao fim, em planos estáticos e enervantes — o pai de família despedaçando uma coxa de frango, esse mesmo pai tentando mover um barco pesado à beira de um rio, cantando (e chorando) na chuva e seduzindo, mordendo e pranteando sobre o repolho que sua filha tem como principal brinquedo.

Argumentada a imobilidade social — a família não está determinada a buscar redenção ou superação; apenas vive como pode –, Ming-liang então transforma, na segunda metade de filme, esses escombros num drama doméstico, provocado pela chegada de uma mulher que traz consigo lembranças dolorosas. As ruas, pântanos e vielas dão lugar a interiores de paredes escuras e descascadas e as tais cenas longas de contenção/explosão dramática tornam-se agora intermináveis enquadramentos silenciosos. Existem dois filmes distintos sobre a precariedade da vida contemporânea nos 138 minutos de Cães errantes — um cru e outro barroco. Fico com o primeiro.

 

Ilo Ilo (Cingapura, 2013). De Anthony Chen. 2.5/5.

Mais uma prova de que o Caméra d’Or, o prêmio de Cannes para filmes de estreia, adquiriu, nos últimos anos, a relevância de um Oscar (mal dado). Isto é: pouca ou nenhuma. Ambientado no final dos anos 1990, época de recessão econômica em Cingapura, Ilo Ilo justifica, aliás, a sua pré-indicação à estatueta de produção estrangeira em cada cena doce e tragicômica sobre as crises de uma família de classe média (pai atrapalhado, mãe grávida e trabalhadora, filho hiperativo) em contato com uma doméstica (a ótima Angela Bayani, que também atua em Norte, o Fim da História) vinda da província filipina que empresta título ao filme.

Com uma câmera que delimita as posições de cada personagem em cena — membros da família separados, a estrangeira como elo –, Chen conduz um dramedy paternalista, pouco interessado nas questões de xenofobia e exclusão sugeridas no início, mas, claro, muitíssimo preocupado em banhar a relação de pequeno patrão (o tal garoto-problema) e empregada de sentimentalismo.

 

Tempos de lobo (Sto lyko, Grécia/França/Inglaterra, 2013). De Aran Hughes e Christina Koutsospyrou. 2/5.

Imagens de pouca definição registram vidas deformadas pela crise econômica num vilarejo grego habitado por donas de casa e pastores do campo. São homens reclamões e beberrões e mulheres resistentes. Todos se protegem do frio com cigarros e lamentos constantes sobre os políticos corruptos e os banqueiros devoradores de dinheiro. Entendo o ressentimento, mas há um fatalismo mórbido e cômico que — pelo menos para mim — soou como autodepreciação ensaiada — por vezes digna de um mockumentary — e propositalmente corrosiva.

Mostra São Paulo – Dia 3/5

outubro 28, 2013 10:46 am 2 comentários

Abaixo, em sentenças curtas e grossas, falo do que vi no domingo antes de ficar chateado à beça com o cancelamento de Um toque de pecado — e de ensaiar (mentalmente) um PROTESTO SEM VIOLÊNCIA na cabine de projeção da sala 1 do Reserva Cultural. Bora lá:

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Cortinas fechadas (Pardé, Irã, 2013). De Jafar Panahi e Kambuzia Partovi. 3.5/5.

This is not a film 2: closed curtain. O motivo: Panahi apresenta, aqui, mais um relato angustiante sobre a impossibilidade de fazer cinema. Quando o próprio diretor invade sem cerimônia o filme que está passando há uns bons 40, 50 minutos — trama: casa de um escritor confinado com seu cão é invadida por dois fugitivos, uma suicida e seu irmão — , e começa a fechar cortinas e passar em revista a mobília, simplesmente ignorando os personagens que ali estão — escritor e intrusa –, parece se estabelecer entre cineasta e obra uma espécie de rompimento forçado — afinal, existe algo mais incômodo para um diretor do que ser forçado a interromper, abortar — matar — seu próprio filme?

Panahi está proibido de filmar. Portanto, em casa, a câmera o acompanha num dia comum, de vida ordinária e doméstica, enquanto, nos outros cômodos, os personagens do filme cancelado agem como almas condenadas ao esquecimento, vagando invisíveis pela casa. Ao cineasta preso, restam vestígios: ele encontra um iPhone no modo REC apontado para o mar, destino final da invasora, que, antes de deixar o celular na varanda, pediu a Panahi (via câmera, obviamente) que a seguisse, como um ato final de liberdade — ele até consente, caminha até o mar, mas, arrependido, interfere na cena dando um rewind — mais uma interrupção.

Em outro momento igualmente triste, com o mesmo iPhone na mão, o diretor vê o vídeo que seu personagem-escritor fez durante uma cena do filme, na qual tenta descrever a invasão. No registro, aparece a equipe de filmagem — operador de câmera, iluminador e ele, Panahi, conduzindo o microfone. O único filme possível no isolamento, no maior dos impasses criativos — o de não poder trabalhar –, é este: feito com aparato, autor e seus fantasmas.

The deep (Djúpið, Islândia, 2012). De Baltasar Kormákur. 3/5.

Survival movie baseado em fatos (de 1984) mui competente, cuja principal cena (à la Gravidade) evidencia a desigual luta entre natureza invencível e humanidade frágil num país de gelo e fogo como a Islândia. O único sobrevivente de um barco pesqueiro nada nas águas congelantes do Atlântico Norte enquanto a câmera se afasta do sujeito, escancarando na tela um mar infinito, desbotado e revolto. O filme perde muito de sua força — física mesmo, pois esse Ólafur Darri Ólafsson tem atuação digna dum URSO — na meia hora final, quando Kormákur dedica um tempo excessivo ao pós-milagre, aos sentimentos de culpa desse homem — “o que há de heroísmo nisso de salvar a própria pele?”, ele parece se questionar — e até aos seus dias de cobaia de pesquisa em Londres.

Sobreviver — dádiva e maldição.

(Da série “culpo o astigmatismo ou a cópia digital?”: quero acreditar que houve algum problema na calibragem de cor nessa sessão (no Reserva Cultural), pois os brancos me pareceram especialmente brilhosos e estourados.)

3x3D (França/Portugal, 2013). De Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard. 2/5.

Em termos simples, pedras para os dois primeiros e uma tentativa de entender o último:

Just in time, de Greenaway: Arca Russa meets Wikipédia — em 3D. Só faltou Comic Sans nas escolhas tipográficas.

Cinesapiens, de Edgar Pêra: tratado filosófico-sentimental sobre cinefilia com a profundidade de um episódio (ruim) de O Mundo de Beakman.

The three disasters, de Jean-Luc Godard: compilação de fotos de cineastas, filmes bons e ruins, de arte e blockbusters, e cenas de bastidores acompanhada de uma narração que coloca em pauta questionamentos graves sobre a crise (ou mesmo o fracasso) do cinema, como o empobrecimento das metáforas em prol de histórias e o poder alienante da palavra — aquela que sempre aparece para apontar o que não existe, o que não está lá.

Dark blood (EUA/Inglaterra/Holanda, 2012). De George Sluizer. 2/5.

Concluído vinte anos depois da morte de River Phoenix, Dark blood só pode ser encarado como um filme incompleto — e, por isso, bastante problemático. O próprio diretor avisa, no prólogo, que o produto final é muito mais uma tentativa de preencher lacunas do que propriamente uma obra finalizada. Leituras de roteiro e cenas improvisadas, sem o resto do elenco, tentam dar cobertura aos trechos inexistentes.

Enxertos à parte, acho que não seria um bom filme mesmo se tivesse sido lançado na época em que foi rodado. River Phoenix faz um solitário excêntrico e místico, que acredita no fim do mundo — o deserto em que vive foi cenário de testes –, enlouquece de tesão por uma atriz de Hollywood e ameaça seu marido, também ator, frustrado por não poder seguir viagem após o motor de seu carro falhar.

Com todo respeito a River, mas o filme todo — aliás, todo não, partes dele — me pareceu assim uma pornochanchada apocalíptica falada em inglês. Ou um western sexploitation. Para usar uma expressão tão vazia quanto essas definições, digo que “a rigor seria isso”.

Mostra São Paulo – Dia 2/5

outubro 27, 2013 11:37 am Deixe um comentário

Pois bem, ontem tirei folga da Mostra por algumas horas e fui ao Pacaembu ver meu time somente empatar com o São Caetano — mas garantir, com um futebol GALANTE, o retorno à tal elite do futebol brasileiro. Fechei o dia, portanto, com duas sessões: o bom O homem das multidões, filme-retrato-em-3×4 de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, e o insosso Vida que se desfaz, para o qual pouparei caracteres. Ao que interessa:

o homem das multidões

O homem das multidões (Brasil, 2013). De Cao Guimarães e Marcelo Gomes. 3/5.

Pretendido para ser solitário até no aspecto de tela — em 3×4, como num retrato careta, cara-de-crachá, de uma pessoa cuja biografia é: funcionário –, este drama urbano de Cao e Marcelo consegue visualizar a solidão sem penalizar o personagem ou torná-lo deprimido a ponto de o público suplicar por um happy ending. Numa narrativa tão apegada a rotinas e repetições — exercício matinal, expediente, noite na companhia de rádio, limpeza da casa, monólogos sem sentido — e ao automatismo da vida num grande centro urbano, o anonimato soa mais cômico do que melancólico.

Para dois personagens tão encerrados em seus mundos — Juvenal, homem de meia idade que conduz trens e, em casa, usa uma camisa na qual se lê Carnaval dos Metroviários; Margô, chefe de estação viciada em experiências (lunares, sexuais e emocionais) mediadas pela internet –, a solidão é um estado de coisas permanente. A única possibilidade de trânsito é, aliás: o encontro entre os dois a cada horário de almoço, a cada resposta monossilábica de Juvenal às perguntas ou afirmações de Margô, a cada visita estranha de Margô ao apartamento singularmente mobiliado e decorado de Juvenal, seu futuro padrinho de casamento com um sujeito que ela conheceu via bate-papo.

O isolamento aqui, é filmado com uma classe à la Kiarostami — dezenas de planos refletidos em portas transparentes, janelas, vitrines e até na superfície metálica que reveste os vagões do metrô. No quadro, cabe apenas uma pessoa (ou um cômodo, um rosto, um perfil, um corpo), e até a montagem explicita o que é estar só o tempo inteiro quando Juvenal, fazendo o que tem de fazer, isto é, apertando a cada dez segundos o homem-morto, dispositivo de segurança anti-sono dos condutores, é visto de costas num plano e, segundos após o trem atravessar a escuridão de um túnel, emoldurado de frente, no plano-contraplano mais solitário do filme.

Não há jeito de dizer se se escolhe ou não se escolhe ser assim — solitário. Se é ou não é — simplesmente.