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Mostra São Paulo – Dia 4/5

outubro 29, 2013 10:15 am Deixe um comentário Go to comments

Tive uma segunda-feira de filmes sofridos, úmidos e esfomeados. Em comum, famílias estilhaçadas por crises econômicas de seus países. Cães errantes (Taiwan), o drama de planos de 8-a-12-min de Tsai Ming-liang, o fraco Caméra d’Or desse ano em Cannes, Ilo Ilo (Cingapura), e o raivoso documentário Tempos de Lobo (Grécia).

stray dogs

Cães errantes (Jiao you, França/Taiwan, 2013). De Tsai Ming-liang. 3/5.

Chove quase todo dia e as únicas pessoas que vemos nas ruas e calçadas de Taipei são estátuas humanas segurando anúncios de venda de imóveis caros. Um deles é um pai que cuida de dois filhos, não tem onde morar e abriga sua família como pode — em prédios abandonados, mofados, mas minimamente seguros. De dia, enquanto o pai levanta a placa por horas a frio, sob chuva e frio, seus dois filhos, um garoto e uma garota, andam por supermercados em busca de amostras de comida.

Ming-liang observa cada ato cotidiano dessa família, do semáforo fechado em mais um dia de trabalho a uma desesperada (e rara) refeição, em sua inteireza. Do começo ao fim, em planos estáticos e enervantes — o pai de família despedaçando uma coxa de frango, esse mesmo pai tentando mover um barco pesado à beira de um rio, cantando (e chorando) na chuva e seduzindo, mordendo e pranteando sobre o repolho que sua filha tem como principal brinquedo.

Argumentada a imobilidade social — a família não está determinada a buscar redenção ou superação; apenas vive como pode –, Ming-liang então transforma, na segunda metade de filme, esses escombros num drama doméstico, provocado pela chegada de uma mulher que traz consigo lembranças dolorosas. As ruas, pântanos e vielas dão lugar a interiores de paredes escuras e descascadas e as tais cenas longas de contenção/explosão dramática tornam-se agora intermináveis enquadramentos silenciosos. Existem dois filmes distintos sobre a precariedade da vida contemporânea nos 138 minutos de Cães errantes — um cru e outro barroco. Fico com o primeiro.

 

Ilo Ilo (Cingapura, 2013). De Anthony Chen. 2.5/5.

Mais uma prova de que o Caméra d’Or, o prêmio de Cannes para filmes de estreia, adquiriu, nos últimos anos, a relevância de um Oscar (mal dado). Isto é: pouca ou nenhuma. Ambientado no final dos anos 1990, época de recessão econômica em Cingapura, Ilo Ilo justifica, aliás, a sua pré-indicação à estatueta de produção estrangeira em cada cena doce e tragicômica sobre as crises de uma família de classe média (pai atrapalhado, mãe grávida e trabalhadora, filho hiperativo) em contato com uma doméstica (a ótima Angela Bayani, que também atua em Norte, o Fim da História) vinda da província filipina que empresta título ao filme.

Com uma câmera que delimita as posições de cada personagem em cena — membros da família separados, a estrangeira como elo –, Chen conduz um dramedy paternalista, pouco interessado nas questões de xenofobia e exclusão sugeridas no início, mas, claro, muitíssimo preocupado em banhar a relação de pequeno patrão (o tal garoto-problema) e empregada de sentimentalismo.

 

Tempos de lobo (Sto lyko, Grécia/França/Inglaterra, 2013). De Aran Hughes e Christina Koutsospyrou. 2/5.

Imagens de pouca definição registram vidas deformadas pela crise econômica num vilarejo grego habitado por donas de casa e pastores do campo. São homens reclamões e beberrões e mulheres resistentes. Todos se protegem do frio com cigarros e lamentos constantes sobre os políticos corruptos e os banqueiros devoradores de dinheiro. Entendo o ressentimento, mas há um fatalismo mórbido e cômico que — pelo menos para mim — soou como autodepreciação ensaiada — por vezes digna de um mockumentary — e propositalmente corrosiva.

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