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Mostra São Paulo – Dia 2/5

outubro 27, 2013 11:37 am Deixe um comentário Go to comments

Pois bem, ontem tirei folga da Mostra por algumas horas e fui ao Pacaembu ver meu time somente empatar com o São Caetano — mas garantir, com um futebol GALANTE, o retorno à tal elite do futebol brasileiro. Fechei o dia, portanto, com duas sessões: o bom O homem das multidões, filme-retrato-em-3×4 de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, e o insosso Vida que se desfaz, para o qual pouparei caracteres. Ao que interessa:

o homem das multidões

O homem das multidões (Brasil, 2013). De Cao Guimarães e Marcelo Gomes. 3/5.

Pretendido para ser solitário até no aspecto de tela — em 3×4, como num retrato careta, cara-de-crachá, de uma pessoa cuja biografia é: funcionário –, este drama urbano de Cao e Marcelo consegue visualizar a solidão sem penalizar o personagem ou torná-lo deprimido a ponto de o público suplicar por um happy ending. Numa narrativa tão apegada a rotinas e repetições — exercício matinal, expediente, noite na companhia de rádio, limpeza da casa, monólogos sem sentido — e ao automatismo da vida num grande centro urbano, o anonimato soa mais cômico do que melancólico.

Para dois personagens tão encerrados em seus mundos — Juvenal, homem de meia idade que conduz trens e, em casa, usa uma camisa na qual se lê Carnaval dos Metroviários; Margô, chefe de estação viciada em experiências (lunares, sexuais e emocionais) mediadas pela internet –, a solidão é um estado de coisas permanente. A única possibilidade de trânsito é, aliás: o encontro entre os dois a cada horário de almoço, a cada resposta monossilábica de Juvenal às perguntas ou afirmações de Margô, a cada visita estranha de Margô ao apartamento singularmente mobiliado e decorado de Juvenal, seu futuro padrinho de casamento com um sujeito que ela conheceu via bate-papo.

O isolamento aqui, é filmado com uma classe à la Kiarostami — dezenas de planos refletidos em portas transparentes, janelas, vitrines e até na superfície metálica que reveste os vagões do metrô. No quadro, cabe apenas uma pessoa (ou um cômodo, um rosto, um perfil, um corpo), e até a montagem explicita o que é estar só o tempo inteiro quando Juvenal, fazendo o que tem de fazer, isto é, apertando a cada dez segundos o homem-morto, dispositivo de segurança anti-sono dos condutores, é visto de costas num plano e, segundos após o trem atravessar a escuridão de um túnel, emoldurado de frente, no plano-contraplano mais solitário do filme.

Não há jeito de dizer se se escolhe ou não se escolhe ser assim — solitário. Se é ou não é — simplesmente.

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