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Mostra São Paulo – Dia 1/5

Acho que escolhi o momento certo — e o filme certo — para conhecer o cinema de Lav Diaz. Isso mesmo, pelo curta (!) de 250 minutos Norte, o Fim da História. Filmão — em todos os sentidos. Mas a terceira Mostra São Paulo da minha vida começou mesmo num clima à la Festival de Brasília — calma, explico no pé desse post –, com o chileno O verão dos peixes voadores. À noite, entrei num programa de curtas que valeu pelo último de Miguel Gomes, Redemption, e vi adolescentes sofrerem à beça em La jaula de oro. Bora lá — que, hoje, Palmeiras vai jogar, eu vou:

norte

Norte, o Fim da História (Norte, hangganan ng kasaysayan, Filipinas, 2013). De Lav Diaz. 4/5.

Ruminar o tempo é para poucos. E Lav Diaz sabe o que faz quando destina 250 minutos de duração a uma história que, de fato, precisava de 250 minutos para ser contada. Por isso, acho bem possível definir Norte como um filme enxuto. Quando vai preso o pobre homem falsamente acusado de assassinar a mulher a quem todos devem algum dinheiro e sua filha, Diaz deixa a câmera repousar à frente da esposa, seus dois filhos e uma ajudante. Dezenas de segundos depois, lágrimas banham o rosto da mulher. Quando não vai preso o homem intelectual (e verdadeiro assassino da ricaça) que largou a faculdade de direito e hoje acredita em soluções radicais para solucionar a pobreza e a violência — matar todos os criminosos daria jeito, segundo ele –, a câmera não o deixa dormir. Ele acorda sobressaltado de madrugada — um retângulo de luz projetado pela janela ilumina seus olhos perturbados.

Não se trata apenas de observar vidas em desajuste (e, por consequência, um país em desajuste) por meio de planos longos — uma atribulada porque livre e atormentada pela culpa, a outra massacrada pela injustiça e ainda assim benévola aos seus pares no cárcere. O Crime e Castigo de Lav Diaz, tal como o sufocante romance russo, é um filme para ser também um pouco vivido. As crises deflagradas por Diaz dão conta tanto de uma elite pensante de moralidade discutível — que comete atos impulsivos de violência e sai impune — quanto de um proletariado achatado pela imobilidade social. Em 250 minutos, constata-se: o presente, violento e incontrolável, é a antítese silenciosa da história.

 

Programa Loznitsa (Carta, Pismo, Rússia, 2013), Miguel Gomes (Redemption, Itália/Alemanha/França/Portugal, 2013) e Jeanne Dosse (Do outro lado da cozinha, Brasil, 2013).

Da trinca de curtas, falo apenas do que gostei. Redemption (3.5/5) evidencia, mais uma vez, a esperteza do português Miguel Gomes ao tratar a narração em off como um recurso irônico e afetuoso de memória cinematográfica. Ele coleta e compila imagens em Super 8, 16mm e em preto e branco para representar quatro histórias. Cada uma delas é narrada em uma língua — português, italiano, francês e alemão. Por fim, ele arremata os contos com cartelas explicativas, dando outros significados aos monólogos — é quando surgem os nomes de Berlusconi, Sarkozy, Merkel, e, acho eu, de um político português tão afamado quanto esses três. Interpretações à parte, o curta de Gomes serve como um exercício inquietante de colagem visual — afinal, o que é dito deve parecer tão importante quanto o que é mostrado? –, ressignificado a cada instante pelo poder (invisível) da fala.

 

La jaula de oro (México, 2013). De Diego Quemada-Díez. 3/5.

Quatro adolescentes enfrentam perigos, trocam ofensas aqui e ali e sofrem um bocado numa demorada viagem rumo aos EUA. Nem road movie existencial. Nem Conta comigo.

Um dos garotos é, na verdade, uma garota que, lá no começo, diante de um espelho, cortou o cabelo e cobriu os seios para viajar com mais segurança. Noutro extremo minoritário, está um índio mexicano que não sabe espanhol — e se vê mais próximo da garota-menino que dos outros dois. O trajeto via México, a bordo de trens e sobre trilhos, desvela um singelo e melancólico filme sobre descoberta sexual e identidade, fatores humanos sempre permeados por uma itinerância agressiva e imprevisível. Há road movies, uns acreditam, que melhoram o homem. Mas a estrada, só a estrada, nua e crua, essa que leva para uma terra prometida ilusória, pode simplesmente demolir o homem.

 

O verão dos peixes voadores (El verano de los peces voladores, Chile/França, 2013). De Marcela Said. 2/5.

Terminei o Festival de Brasília com um filme (Exilados do vulcão) fotografado por Inti Briones. Comecei a Mostra São Paulo com um filme fotografado por Inti Briones.

Em busca de uma catarse que nunca chega, o filme de Quemada-Díez explicita diferenças de classe por meio de uma adolescente riquinha durante as férias de verão, que, nesta ordem, 1) tem seu coração partido por um garoto que fica com uma de suas amigas, 2) conhece a realidade precária e esquecida dos Mapuche, povo indígena que disputa terreno com seu pai, 3) claro, fica caidinha por um jovem e cantante Mapuche. O verão, aqui, é amazonicamente úmido, composto de verdes impactantes, e tão nebuloso quanto a atmosfera alva e onírica de Exilados. Mais um caso, portanto, de filme bonito, bem-sucedido enquanto tradução visual de estados de espírito, porém farto de arestas — acredite, seus 88 minutos demoram mais a passar que os 250 de Norte, o Fim da História.

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  1. janeiro 1, 2014 2:44 pm às 14:44

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