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Blackfish

Blackfish-2013-4

Este documentário sobre orcas assassinas — em especial, Tilikum, responsável por três mortes em diferentes datas (1991, 1999, 2010) — interessa muito mais pelo desconforto que causa do que propriamente por suas (moderadas) qualidades cinematográficas. Blackfish inscreve-se num tipo muito específico de documentário — nature horror documentary, ou algo do tipo, popularizado há quatro anos pelo sanguinolento The Cove.

É tanto denúncia — à maneira dum thriller corporativo –, já que reúne entrevistas com cientistas e ex-treinadores e informa, numa das cartelas que antecedem os créditos finais, que a outra parte interessada, o parque SeaWorld, não quis participar do filme; quanto um filme de terror, pois boa fatia do título é dedicada à compreensão desses mamíferos carinhosos, apegados à família, inteligentes, comunicativos, mas sujeitos a comportamentos imprevisíveis, arredios e violentos quando mantidos em piscinas apertadas, com comida racionada e na companhia de orcas desconhecidas.

Tilikum, a orca macho capturada em 1983, surge desde o começo quase como um objeto biográfico — aliás, não seria exagero se o doc se chamasse Tilikum — Portrait of a serial killer. Seus ataques são ora recuperados pela memória de testemunhas — pessoas, aliás, que sequer foram entrevistadas pela polícia no ataque de 1991, no pequeno parque Sealand — ou via registros assustadores em vídeo, associados a depoimentos igualmente pesados. Se este fosse um filme do Herzog, certamente teríamos uma reflexão à la O Homem Urso sobre o ato egoico de filmar a si mesmo em situações periclitantes frente a predadores.

Mas a preocupação de Gabriela é em reforçar — talvez de modo excessivo, acoplando uma trilha sonora suspensiva e emotiva às falas e ruídos — um argumento que as várias vozes e as imagens fortes já fornecem a cada plano: tirar esses animais de seus habitats para mostrá-los ao público (sobretudo às crianças) como brinquedinhos engraçados e fofinhos de parque de diversões não é nada bonito e envolve uma arquitetura marqueteira agressiva de meias verdades e falsa ciência.

Não, as orcas não vivem mais em cativeiro. Não, o tempo de vida desses animais não é estimado somente em 30 ou 40 anos como dizem guias, funcionários e “especialistas” do SeaWorld, mas 60, 70 ou mais, tal qual nós, humanos. Não, os ataques não têm relação com possíveis falhas ou deslizes ou escorregões dos treinadores e a causa mortis de nenhuma das mortes foi afogamento, como apontam notícias e notas de imprensa divulgadas pelo SeaWorld.

Como toda boa denúncia, Blackfish, este Free Willy recomendado para maiores de 12/14 anos, deixa ainda outras informações enervantes no ar. Uma determinação judicial agora não permite que orcas e treinadores tenham contato direto nas piscinas utilizadas para as apresentações, mas 1) Tilikum continua na ativa, 2) praticamente todas as orcas adultas e jovens nasceram com os genes estressados e feridos e traumatizados de Tilikum — Blackfish 2: Mayhem promete, portanto –, 3) e, até hoje, diz um especialista, não há registro de ataque de orcas a humanos no mundo natural.

Tire suas conclusões.

Blackfish (EUA, 2013, 83 min). De Gabriela Cowperthwaite. 3/5.

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