Início > Cinema > Biff – penúltimo/segundo dia

Biff – penúltimo/segundo dia

Sem rodeios, despejo sentenças rápidas e ríspidas sobre uma versão mexicana e sisuda de Domésticas — aham, o do Meirelles mesmo e não o doc do Gabriel Mascaro — e um irritante crowd-pleaser taiwanês que, como avaliou a amiga que viu o filme comigo, caberia num episódio de Glee. Nunca consegui sequer TERMINAR um capítulo da série na vida, mas concordei sem pestanejar.

Às pedradas:

workers 1

Workers, de José Luis Valle. 2.5/5

Um filme de estreia que se entrega como filme de estreia a todo instante: excessivo, deslumbrado com as posições sociais que põe à mesa e insistente nas dualidades que deseja escancarar. De um lado, um faxineiro duma fábrica de lâmpadas da Philips — ofício que só descobrimos com sei lá quantos minutos de projeção — com trinta anos de casa que não consegue se aposentar por causa da completa falta de humanidade do CEO. Do outro, uma governanta, uma jovem doméstica abusada na infância por um vizinho norte-americano, um motorista que dirige um Mercedes há 30 anos (e nunca pôde comprar seu próprio coche) e dois enforcers que, há anos, obedecem às ordens de uma velha rica e sua Princesa — uma cadela tratada como filha caçula.

Valle é habilidoso e paciente com a câmera, não há dúvidas disso — a precisão simbólica de alguns planos impressiona, espelhos fronteiriços entre Tijuana e EUA, faxineiro mudo de tão infeliz e governanta muda de tão infeliz, ambos pela morte de uma criança de três anos, nos anos 1960, na piscina da casa da patroa. Workers é rotineiro em seus planos a ponto de estimular, a partir do tédio, da imobilidade social, pequenos atos de vingança de um e de outro — o faxineiro quebra lâmpadas discretamente, deixa torneiras abertas, desperdiça papel higiênico e, só agora percebo, aprende a ler com um garoto que conheceu na praça só para, dez após o início das aulas particulares, ser capaz de assinar a própria demissão e deixar o emprego com alguma dignidade; e a governanta, aliada aos outros, decide matar a Princesa aos poucos, sabotando a rotina de dondoca do bicho com ruídos, mudanças de rotina, alimentação e outras pequenas crueldades que nós, enquanto público, aprovamos silenciosamente.

Eis o curioso deslize: Valle, também ele, abusa da força dessas réplicas, largando ao longo dos 120 minutos de filme uma porção de quinas, nós frouxos e banalidades. A revolta silenciosa do proletariado, aqui, é cozida em fogo baixo. Mas, no fim, também queima — e como queima.

touch of the light foto

Um toque de luz (Ni guang fei xiang), de Chang Jung-Chi. 2/5

Olha, como atacante de todo e qualquer herdeiro de Rain man ou I am Sam e suas mutações, devo dizer que este aqui, chancelado logo na primeira cartela de créditos iniciais com um discreto A WONG KAR-WAI PRESENTATION, muito me irritou. Um menino cego — de interpretação genuína, é preciso dizer –, pianista desde novinho, 1) começa a faculdade de música, 2) enfrenta toda sorte de apertos — de caminhar pelos corredores do campus a ser respeitado pelos colegas –, 3) divide o quarto com um nerd gordinho fabricado para ser um perdedor tão engraçado quanto um Jonah Hill, 4) conhece uma caixa de lanchonete que sonha em ser bailarina — e por ela é friendzonado, 5) e, se você já viu — e eu sei que já viu — O lado bom da vida ou qualquer outro filme-gracinha sobre losers que vencem concursos musicais/artísticos/de talentos que os protagonistas têm e escondem ou não têm e descobrem no ato da competição e, assim, dobram o estado de coisas, ufa, paro por aqui.

A plateia do Biff aplaudiu, saiu falando coisas como “nossa, quanta pureza”. Eu só teria urrado brados de louvor se esse plot tivesse caído nas mãos dos irmãos Farelly. Após escrever tanta bobagem, percebo que só estou irritado porque vi dois filmes rigorosamente iguais em menos de dez horas e agora não sei mais distinguir qual é qual — Um toque de luz e Universidade Monstros. Sem mais.

Anúncios
  1. João Romova
    agosto 6, 2013 12:14 am às 0:14

    Deixe este seu emprego pra mim e vá ser feliz.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: