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Biff – antepenúltimo/primeiro dia

Antepenúltimo-primeiro? Sim. Mas eu explico. Saí do cotidiano diário do jornalismo impresso, migrei para uma revista e, portanto, desacostumei à pilha de cobertura diária, do afã de falar sobre muito com pouco espaço, entre outras ânsias. E, claro, desde o dia 13 — data da abertura da segunda edição do Biff, o Festival Internacional de Cinema de Brasília — se tornou impossível fazer outra coisa senão ler/ver a profusão de relatos/artigos/tweets/compartilhamentos dos protestos que inflamaram o país.

Então, meu Biff 2013 será magrinho. Abri os trabalhos com o chinês Voando com a garça, um filme mediano com criancinhas graciosas e velhinhos sorridentes (todos parentes do diretor) que só serve para confirmar quão grande é As coisas simples da vida; e fechei a conta com as dores de uma adolescente autodestrutiva em Como se fosse amor, algo como um Depois de Lúcia reforçado nas cenas de sexo e filmado com a mesma estética vérité-de-iluminação-fraca quanto outras dúzias de indies americanos.

Bora lá:

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Voando com a garça (Gaosu tamen, wo cheng baihe qu le), de Rui Jun Li. 2.5/5

Primeiro e último plano são impressionantes, porque esboçam sínteses dos relacionamentos entre vida e morte — ou entre vida e o post-mortem — que o filme preguiçosamente elabora em seus 99 minutos de duração. Um vovô de 73 anos é levado para a casa dos três filhos, ao que parece, parar esperar a morte, ser cremado em outra cidade e, assim, dar descanso definitivo às crias — adultos impacientes com o pai e os filhos que eles próprios tiveram.

O ancião foi um pintor de caixões — isso mesmo — senil e dorminhoco. Hoje, seu ofício envelheceu mal — a cremação virou bandeira do governo, a demanda por caixões minguou. Ocioso e longe do carteado com seus amigos, conta histórias aos netos — relatos sobre garças brancas que só ele vê e que segundo ele aparecem todo fim de tarde para beber água à beira do lago. Parece um drama familiar pueril, bonitinho, desses que provocam frequentes “ohhh…” no público pagante — parece e é –, mas o que de fato interessa é a defesa inconteste e teimosa de um conto franco e nada mórbido sobre simplesmente morrer em paz.

O vovô quer ser enterrado e os únicos que o entendem e, tal como seus pais na tarefa de conduzi-lo ao crematório, levam a sério o dever de organizar o funeral do morto são seus netos. Só há inocentes — o velho que pretende morrer dormindo e, no caso específico de quem empunhou a pá, o garoto que vê o enterro como uma versão perene (e ainda divertida) da brincadeira de cobrir amiguinhos com areia e contar quantos segundos eles suportam sem respirar embaixo da terra. Uma pena, porém, que a força do filme se concentre, repito, nos planos-síntese — o primeiro, em que o velho colore seu último caixão enquanto seus netos brincam a dois metros dele; e o(s) último(s), com o vô no último sono e os dois primos contentes à beça. Luto é para quem já perdeu a inocência.

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Como se fosse amor (It felt like love), de Eliza Hittman. 2/5

Uma adolescente vítima de bullying, órfã de mãe e que vive com o pai. Os elementos de Depois de Lúcia estão todos aqui, mas a estreante em longas Eliza Hittman dá ênfase às vontades sexuais — ou aos desejos nunca concretizados — e aos caminhos perversos escolhidos pela própria protagonista. Lila ouve a melhor amiga falar sobre suas experiências, a vê com o namorado aos amassos na praia — e também fora dela — e observa até o vizinho, um menino mais novo que ela — ou somente um baixinho da mesma idade — se engraçar com uma garota do bairro. E ela: zero.

Há incontáveis narrativas coming of age tão dolorosas e precoces quanto, mas como este é um filme independente — e com não atores –, Eliza possui carta branca para enquadrar intimidades registradas em troncos, costas, ombros, braços, bundas — cabeças aparecem cortadas aqui e ali no plano, já que o que importa são corpos quentes e não as cabeças que os administram –, dar tempo de tela às carícias em meio ao verão que ilumina o Brooklyn, permitir rápidos nus frontais masculinos — numa cena terrível que poderia ter terminado num bukkake — e alinhavar todos os autoflagelos num ato final pretensioso à beça. Lila, veja você, sujeita-se a deitar ao lado do garoto que a interessa logo após ele, bêbado e sonolento, ter transado rapidamente com outra garota. Nada é consumado. Mas é como se tivesse sido. Caso de filme que mantém interesse simplesmente pelos riscos que corre e não pela qualidade da realização.

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