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O abismo prateado

abismo prateado

Se nos outros dois longas de Aïnouz — longas solo, portanto aqui excluo Viajo porque preciso, volto porque te amo — Hermila Guedes e Lázaro Ramos emprestam seus corpos a personagens que reagem ao sofrimento — e que, em contrapartida, sofrem por reagir –, a Alessandra Negrini de O abismo prateado, tão absorta com a separação do marido, imposta por um sms e uma mensagem de voz, parece inaugurar um novo tipo de persona no cinema do cearense.

Violeta, uma dentista que vive em Copacabana e tem um filho de 14 anos, não consegue ligar o homem que mergulhou no mar na noite passada e fez amor com ela ao estranho que no dia seguinte, enquanto ela malhava na academia, lhe mandou um sms esquisito e decidiu desaparecer, depois explicando num recado sonoro que não a ama mais (e ele reforça a negação três vezes ao longo do adeus), que se sentia sufocado, que não vai voltar nunca mais, que vai para Porto Alegre, Patagônia e talvez para um próximo destino que nem ele sabe dizer.

Ela sai do consultório, pedala, chora, é desequilibrada por um motorista imprudente, machuca o braço, cai numa construção gerenciada por uma amiga engenheira, abre pontos na cabeça, fecha os pontos com um curativo em casa, deixa filho e sobrinha sozinhos, avisa que tem sorvete, pão, presunto e queijo e diz que vai para Porto Alegre; mas na verdade ela vai mesmo é para as ruas do Rio de Janeiro, ruas que ela percorre sem rumo, acompanhada pelo mesmo trabalho de câmera íntimo e grudento que Aïnouz e Marcelo Gomes utilizaram ao longo da última década.

É um cinema realista tipicamente contemporâneo e frequentador de festivais, apegado à vida comum, à morosidade do cotidiano, do trabalho, das grandes perdas, dos pequenos ganhos, das marchas que atrasam e empurram as narrativas humanas. Em resumo, uma proposta substance over style — tão discutível, como aqui, e acertada, como em O céu de Suely, quanto qualquer produto style over substance.

O fotógrafo Mauro Pinheiro Jr. deixa Violeta focalizada em primeiro plano e engole trevas que aninham amarelos e laranjas e vermelhos da cidade e o brilho prateado de lágrimas que custam a cair. A nova personagem aïnouziana, escrita por Beatriz Bracher, não pede resgate — afinal, este, como tantos outros dramas contemporâneos, é mais um registro de situações do que uma reflexão sobre elas –, mas o cineasta quer tanto dar a ela uma sensação de recomeço — nem que seja só isso mesmo, uma sensação — que introduz vozes nômades, de um pai e sua filhinha de passagem pelo Rio, para refletir os sentimentos maternos e amorosos que ela precisa achar de novo. A solidariedade é bonita — mas o passeio dos três por um aeroporto Santos Dumont vazio de madrugada está no filme para isso, amenizar o mais longo dos dias.

Da minha parte, queria a Violeta calada, esgotada e derrotada pelo resto do dia. A solidão era bela e necessária como o silêncio da noite.

O abismo prateado (Brasil, 2011, 83 min). De Karim Aïnouz. Com Alessandra Negrini, Thiago Martins e Otto Jr. 2.5/5.

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