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[REC] 3: Gênesis

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Este prelúdio — um Festa de família (1998) com mortos-vivos — pretende dar uma guinada na franquia que começou mui bem em [REC] — até hoje lembro que não consegui respirar direito nos 15 minutos finais — e desandou na medonha proposta shoot-’em-up com câmeras da SWAT de [REC] 2: Possuídos. Aqui, a abordagem found footage é abandonada por completo em detrimento de uma trama exploitation 1) que mal explica que diabos aconteceu na Espanha antes do primeiro filme e 2) pretende ser um romance gore sobre dois pombinhos indignados com a possessão demoníaca que infestou o casório e ameaça separá-los para sempre.

Somente o prelúdio-do-prelúdio é filmado com câmeras amadoras — ou, na menos pejorativa das definições, câmeras operadas por personagens. Um adolescente segura um aparelhinho em HD com vários megapixels e se espanta ao ver um cinegrafista profissional — sósia barbudo do Nick Frost — portando uma combinação gigantesca de câmera e suporte. O cineasta-de-casamentos paga de auteur, cita Dziga Vertov e até Renoir. E o menino segue filmando — zoom nos decotes, flagras de casais ferventes e, em momento significativo, um tio mostrando a mão mordida por um cachorro que estava morto, mas vivo.

A partir daqui vale dizer que a única coisa que interessa após o tal início do fim é que os dois pontos de vista — o amador do garoto e o profissional do técnico — são dispensados sem a menor cerimônia. O aparato caro do cinegrafista é pisoteado por um personagem que não quer ser filmado e acha um absurdo que alguém queira registrar tudo e todos o tempo inteiro — atitude que nunca ninguém se presta a tomar nos found footage que vemos por aí. A cena seguinte já é um plano de cinema, movimentado por um diretor invisível. E a câmera portátil do menino serve somente para fim utilitário, quando a visão noturna se faz necessária num túnel que liga cozinha e pátio.

No momento da ruptura, surge uma tela preta com o título do filme. A sensação ambígua que eu tinha no começo — found footage metade amador, metade profissional? — se desfaz sem fade out. Um fã ardoroso — não, eu não sou, apesar de achar A bruxa de Blair, Poder sem limites e [REC] filmaços  — diria que a câmera jogada no chão, partida, inutilizada e, veja você, filmada logo em seguida como um personagem morto, a luzinha vermelha piscando como um olho humano que hesita em fechar para sempre, simboliza a falta de sentido de jogar a responsabilidade da realização de um filme nas mãos de um personagem que será ele próprio movimentado como um operador de câmera invisível a serviço de um diretor invisível.

Mas [REC] 3 não é um filme filosófico sobre a precariedade intrínseca do cinema found footage — uma obra pós-found footage, portanto –, muito menos a superação desse cinema pela destruição da única tentativa possível de profissionalizar — via cinegrafista de casamento — algo pensado para ser unicamente amador, imperfeito, feio, mal ajambrado. Neste sentido, o Super 8 de A entidade — um filme quase bom, que merece revisão — leva essa discussão a sério por mais tempo de tela.

O terceiro [REC] é desses filmes que valem por uma só sequência — a noiva em fuga com um amigo diz sentir que o noivo está vivo, escuta baixinho acordes de uma música romântica, possivelmente a música dos dois, nos alto-falantes, dá meia volta, rasga metade do vestido, apanha uma motosserra e abre caminho de volta para o salão arrancando cabeças de familiares e amigos e talvez estranhos, dividindo ao meio corpos de familiares e amigos e talvez estranhos.

Um filme talvez tão rude, tosco, divertido, exibido e descuidado (e, vá lá, sexy) quanto qualquer Resident Evil, no qual a seriedade de rodar um filme “de verdade” — e não uma gravação encontrada — produz uma encenação tão frágil quanto a de — bem, uma gravação encontrada.

[REC] 3: Gênesis (Espanha, 2012, 80 min). De Paco Plaza. Com Leticia Dolera, Diego Martín e Ismael Martínez. 2.5/5.

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