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A busca

a busca 2012

Se Eles voltam é uma tentativa — bem resolvida, paciente e sem enxertos emocionais — de visitar as crises da classe média brasileira por meio de uma jornada de abandono e conhecimento do outro — pais abandonam filhos, sobretudo uma filha adolescente, filha é apresentada a realidades mais pobres em sua caminhada –, A busca emoldura as mesmas questões numa trama invertida.

Aqui, um filho — desenhista de talento ignorado, desculpa visual de milhares de family dramas para justificar a rebeldia e culpar as autoridades do lar — abandona os pais numa viagem a cavalo, rumo à casa do avô, deixando rastros pelo caminho, pistas reproduzidas e contadas pelas pessoas com quem topou, e o pai vai em sua busca, atravessando dois estados para resgatar o filho que abandonou a vida inteira, conversando com os mesmos desconhecidos que viram o menino, que ajudaram o menino, que apontam qual a direção tomada pelo menino.

A busca é uma análise esquálida da família (rica) brasileira, filmada por Luciano Moura com uma câmera que focaliza um sem-número de locações para nada, que narra encontros fortuitos (uma vila onde somente um velhinho com marca-passo possui telefone) e cômicos (o sujeito que dirige um trator, veste a camisa do garoto e acha que o pai é um fiscal da prefeitura) e dramáticos (o parto à beira do rio, em Mimoso, num festival de música) para depois fornecer uma catarse risível — avô, pai e filho reunidos, a mãe em casa com o pés na água da piscina que tanto relutou a reformar (dando a entender que voltou/vai voltar com o marido?) –, que desperdiça tempo registrando diálogos do tipo “ele tá bem, tá vivo, estou chegando perto dele”, diz o ex-marido, “traz ele pra mim”, diz a ex-mulher.

(Noutro breve comparativo com Eles voltam, vale também lembrar que a família da menina mal aparece no filme; os reflexos da redoma são sugeridos no comportamento da personagem, enquanto A busca, apesar de seguir sentido contrário — o pai é quem deve ser transformado –, é apressado e óbvio, mostrando as crises já nos primeiros planos e, novamente, como em tantos family dramas, resumindo duas gerações de filhos problemáticos por meio de um objeto patriarcal — outra desculpa visual — que traz dores à tona, mas serve como bálsamo para essas mesmas dores — uma cadeira.)

E, finalmente, o que me incomoda mais: A busca não funciona nem como simples filme de gênero — drama familiar, road movie ou thriller sobre fuga e/ou desaparecimento –, pois é preguiçoso e insosso nas mínimas coisas — a montagem apoiada em telas pretas intermitentes e batidas graves na trilha sonora, a encenação escorada nas feições e metamorfoses de um corpo conhecido (Wagner Moura). Dispensável.

A busca (Brasil, 2012, 96 min). De Luciano Moura. Com Wagner Moura, Mariana Lima e Brás Antunes. 2/5.

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  1. clebereldridge2013
    abril 5, 2013 11:07 pm às 23:07

    Os comentários ao redor do filme são desanimadores, eu assisto ao filme quando chegar em DVD sem muita pressa.

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