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Searching for Sugar Man

searching for sugar man

Quanto maior a distância do documentário para o jornalismo, tanto melhor. Searching for Sugar Man cita um artigo (Looking for Jesus) e o jornalista autor desse mesmo artigo em seu emaranhado de depoimentos e pistas e vestígios na procura por um fantasma, um profeta, um tal de Rodriguez que vivia em Detroit (desde sempre, nos loucos anos 1970 ou na crise econômica que massacrou a região, uma cidade-fantasma) em fins de 1960/começo de 1970, gravou um par de discos clássicos que ninguém nunca ouviu, e fez sua despedida como mais um gênio suicida da contracultura, ateando fogo ao próprio corpo no meio de uma apresentação, como detalha um fã logo no começo do filme, ou apontando uma arma para a têmpora e, bam, adeus, fama que nunca veio, adeus, mundo demente.

O doc menciona artigo e jornalista autor desse mesmo artigo apenas para fins referenciais, e lá perto da metade de projeção, mas passa longe de adotar os mesmos procedimentos de apuração seguidos pelo repórter — que, diz ele, orgulhoso da pesquisa, “seguiu a trilha do dinheiro” para encontrar Sugar Man. O filme começa como uma história de mistério, conduzindo e manipulando o olhar de quem vê exatamente como uma ficção de mistério — quer dizer, as informações são liberadas e explanadas com reserva e deslumbramento, a montagem selecionando apenas aquilo que interessa para os momentos iniciais, deixando o espectador (supostamente) tão ciente quanto os personagens.

Isto é: sombras, fotos desfocadas de um sujeito com pinta de Neil Young e lábios grossos, ar algo entre indígena e latino, um compositor de letras dylanescas, capas de discos (Cold fact, uma beleza de álbum, e Coming from reality, uma espécie de Harvest + Bryter layter) estampadas por um risonho de óculos escuros, que andava pelas calçadas e ruas de Detroit como uma alma penada e costumava tocar num bar ocultado por luzes foscas e enevoadas. Uma não-carreira (a melhor definição dada por um dos entrevistados) interrompida por um ato incendiário ou uma bala na cabeça ou pelo autoexílio. Ou por nenhuma das alternativas.

O trovador perfilado pelas pessoas que o conheceram/viram/ouviram quatro décadas atrás não parece ir além disso: um indivíduo impossível de ser achado ou descrito com alguma segurança, tanto que o doc, inicialmente como solução de roteiro, se contenta em reproduzir canções (e animações minimalistas) para criar uma atmosfera tristonha de beco sem saída e estabelecer uma relação platônica do espectador com o sujeito — um cantor-compositor folk apaixonante, que estourou na África do Sul graças à pirataria, deu voz aos jovens dum país então massacrado por um regime baseado na separação e do ódio ao outro, mas do qual, infelizmente, nada se sabe/saberemos.

E então, de maneira sutil — e já nem tão inesperada, pois o filme é o registro de uma ressurreição anunciada — , Sixto Rodriguez aparece — pela primeira vez atestando que está vivo — abrindo a janela de casa, num gesto convidativo do homem simples que é, absolutamente anticelebridade, que vive recluso, sozinho, fazendo o trabalho descrito pela caçula como algo que “ninguém quer fazer”, derrubando casas velhas e abandonadas, alicerçando outras, pondo abaixo e erguendo a mesma Detroit que se impregnou em seus versos, acolheu suas noites em claro e fez dele um anônimo que não se ressente do anonimato.

Searching for Sugar Man, à maneira de seu antiprotagonista, acaba por revelar também um mecanismo envolvente de demolição e reconstrução de dados, promovido pelo diretor-produtor-montador Malik Bendjelloul — Sugar Man morreu, Sugar Man não morreu. O maior acerto é este: fornecer às imagens — ou à progressão das imagens — a sensação de constante descoberta, como quando criamos um interesse inexplicável por algo/alguém que acabamos de conhecer.

Searching for Sugar Man (Suécia/Reino Unido, 2012, 86 min). De Malik Bendjelloul). 4/5.

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  1. janeiro 1, 2014 2:43 pm às 14:43

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