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O voo

fevereiro 13, 2013 12:07 am Deixe um comentário Go to comments

flight 2012

O tempo distante dos filmes com atores de carne e osso — desde Náufrago (2000) — parece ter rejuvenescido Robert Zemeckis, o contador de histórias mais spielberguiano de Hollywood — depois do próprio Spielberg, é claro; e sim, Zemeckis é o herdeiro por excelência do temperamento spielberguiano de narrar filmes à maneira de um testemunho íntimo e pessoal, uma verborragia fílmica de sentimentalismos bobos (dizem os detratores) ou simplesmente, poxa, eu admito, cativantes.

Há coisas que jogam contra O voo — a sensação de um simplório disaster movie/estudo de personagem deixada pelo trailer ou de um mero star vehicle (afinal, Denzel não fazia um filme importante desde Incontrolável, o swan song de Tony Scott). Pois bem, este é, de fato, um filme high-concept, que propõe o desenrolar de uma trama simples (um piloto excepcional pousa avião salvando dezenas, mas é punido pelo vício em drogas e bebidas), escrita pelo ator-roteirista John Gatins (autor de produtos emotivos ligeiramente agradáveis, como Hardball e Gigantes de aço).

Whip, o tal piloto que executou um milagre, é filmado por Zemeckis como um rockstar autodestrutivo (não é por acaso que Sympathy for the devil e Gimme shelter estão na trilha das porra-louquices, e que toca What’s going on antes de uma transa), como um sujeito que faz o que tem de fazer (conduzir aviões, bem como um músico enlouquece plateias, arrota hits ou arranha riffs), mas é muito mais que a soma das horas de trabalho. Por isso, o filme começa com Denzel numa cama de hotel, o rosto inchado, uma mulher bela (mostrando uma nudez quase frontal) desfilando pelo quarto enquanto Whip desfia uma conversa reticente com a ex-mulher sobre o filho.

Ele fuma um cigarro e, depois, quando a amante (aeromoça e companheira de trabalho) alerta sobre a hora do próximo voo, ele cheira uma carreira de cocaína na mesa de cabeceira com a mesma pressa de um pai de família decente que bebe uma xícara de café a goles rápidos para não se atrasar — a câmera fazendo um movimento brusco (como de sucção) para a frente, terminando com uma perda de eixo do plano. E então, vê-se um Whip marrento, andando firme ao encontro da rotina — mas feliz e aceso, algo realizado e relaxado pelos eventos da noite passada.

A partir desses primeiros planos, fica claro que Zemeckis quer, sim, encher o espectador de informações negativas sobre Whip (o constante consumo de cigarros e bebidas e pó, o relacionamento confuso com Nicole, uma maluquinha viciada que vive em Atlanta, destino do avião em queda e casa do aviador; as idas e vindas de Mays, o fornecedor interpretado por um John Goodman sempre coadjuvando e brilhando; a insistência em não aceitar os cuidados do advogado vivido por Don Cheadle; a insolência de um homem que não reconhece seus problemas e prefere viver escondido atrás de mentiras e falsos discursos de autocontrole).

Eu ia dizendo, encher de informações negativas para, então, no minuto final — e não chame o que vem a seguir de spoiler, pois o cinema comercial com assinatura, de Spielberg a Darabont, é feito disso, de 95% de sofrimento ou agonia ou derrotismo ou insolubilidade e 5% de mágica ou vitória-do-amor ou golpe) –, quando ninguém já acredita em mais nada, a redenção confortar os corações (de mentira e de verdade).

Zemeckis cria um monstro adorável, genial, cool, blasé, que salvou 96 de 102 pessoas ao manobrar a falha mecânica da aeronave com destreza manual, um herói repulsivo, mas frágil, uma besta-fera incapaz de ser um pai para o seu filho, um arrogante que se odeia (e, por isso, adora se punir e ser punido) como o The Ram de O lutador ou o policial de Vício frenético (o do Ferrara).

Ainda que Whip não queira a redenção, ela vem.

Mas é claro que vem, pois Zemeckis é o epítome do cinema feel good, o autor de problematizações que custam (mas são) resolvidas (sempre com sacrifícios, como manda a mão invisível do Deus cristão que amansa, condena e escreve roteiros e dirige filmes), o homem que custa (mas dá) Jenny a Forrest Gump, que custa (mas dá) uma vida de vencedor ao loser do McFly. O voo vem sendo lembrado pelos críticos (que gostaram e não gostaram do filme) pelos efeitos visuais impressionantes do avião se despedaçando no ar, mas eu sinceramente levo dele (spoiler a seguir) a bonita cena final entre pai e filho, o menino em visita ao “criminoso” moralmente remido na prisão, dizendo que precisa da ajuda dele para escrever uma redação sobre “a pessoa mais fascinante que eu nunca conheci”.

Bem, garoto, da minha parte, digo que já o conheço — e, apesar de tudo/por isso tudo, foi um prazer.

O voo (Flight, EUA, 2012, 138 min). De Robert Zemeckis. Com Denzel Washington, Kelly Reilly e Don Cheadle. 4/5.

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  1. Viny Negao!
    fevereiro 13, 2013 10:01 am às 10:01

    Estou com esse filme lá em casa e ainda nao tive tempo de assistir, mas depois de seu imprevisivel comentario kkkkkkk irei arranjar um tempo, só nao li o spoiler no finalzinho! Tive criticas boas e ruins e vou fazer a minha própria essa semana, e posto aqui o que achei.

    • felipelahm
      fevereiro 13, 2013 10:08 am às 10:08

      Opa, acho que você vai gostar!

      Aguardo a sua opinião depois 🙂

  1. janeiro 1, 2014 2:43 pm às 14:43

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