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A viagem

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Acho um tanto problemático quando, de um filme como A viagem, 1) um novelão de pretensões kubrickianas dividido em seis tomos (1849, 1936, 1973, 2012, 2144, 2321), 2) um volumoso relato transcendental e filosófico e espiritual e memorial sobre almas em trânsito, 3) e, também, uma love story perene, impossível, e, por fim, é claro, possível entre Tom Hanks e Halle Berry — continuo, e o texto é empolado porque o filme é empolado, cheio de vírgulas, pontos e vírgulas, travessões aqui e ali, um punhado de colchetes, e seis pontos finais; acho um tanto problemático quando, de um filme como esse, de conteúdo tão parrudo, o que fica de realmente bom é, bem: a montagem.

Alexander Berner, o organizador dos 172 minutos de A viagem, não tem exatamente uma ficha limpa. Conterrâneo do alemão Tom Tykwer, aqui codiretor com Lana e Andy Wachowski, ele deu forma a Perfume, de Tykwer, e ordenou cenas de troços como 10.000 A.C. e algumas das vulgaridades de Paul W.S. Anderson, a exemplo do primeiro Resident Evil e Os três mosqueteiros. Não é um grande montador, portanto.

Mas é ele o responsável por alinhavar as histórias — há raccords espertos –, suavizar as elipses — o filme exibe um prólogo extenso, secionado em seis, e depois libera fôlego a cada um dos contos –, e dar algum relevo às pretensões operísticas (em seis movimentos) dos autores-regentes. Tykwer sempre foi um diretor esquemático — e, sim, que sempre escorou em montadores; Corra, Lola, corra (1998) endossa a afirmação anterior — e me parece que sua contribuição é limitada às engrenagens da estrutura multiplot, de encontros-e-desencontros, de histórias transitórias, interrompidas e continuadas, que ele desenvolveu, num grau atômico se comparada aos arranjos monumentais de A viagem, em seu Triângulo amoroso (2010).

As transições didatizam o entendimento do filme — atores repetidos, almas repetidas e, gradualmente, narrativas que repercutem entre si –, mas são incapazes de esconder o que as histórias têm de frágil: uma rebeldia de fácil digestão — afinal, é fácil odiar qualquer tipo de autoridade simplesmente malévola, e o filme é todo feito de bem e mal, de amor e ódio, ainda que sugira, sutilmente, que uma alma boa no passado pode, no futuro, tornar-se uma alma má — e um discurso antifascista que Lana/Andy já esboçaram, com muitos acertos e arestas (vá lá) perdoáveis, em Matrix (1999).

A pior história, de longe, é a que se desenrola em 2012, protagonizada por um publisher internado à força pelo irmão num hospício para livrá-lo dos comparsas de um mafioso — um Tom Hanks narigudo, italianado, que publicou um livro (ruim) pelo selo do editor. Versão sênior de Um estranho no ninho, com tiques de Antes de partir e outras aventuras de velhinhos em fuga. Nesse e nos outros cinco tomos, vê-se sempre um opressor e um oprimido, sejam eles a jornalista vs corporação (1973) ou a clone vs um sistema de castas tecnocientífico (2144), gélido, dotado do mesmo complexo de Deus, da mão invisível que cria-vida-tira-vida na Matrix.

Lana/Andy odeiam o autoritarismo, o extremismo, e todo e qualquer ismo ou aparelho de patrulha e cerceamento da liberdade (eis uma boa entrevista sobre as referências filosóficas dos irmãos, aqui), e, mais uma vez, rascunham um gigantesco libelo político disfarçado de entretenimento. A viagem seria um filme pior se o projeto fosse somente de Tykwer e, de qualquer maneira, mesmo com ambições desmedidas, para o bem e para o mal, comporta-se como um monólito (decifrável mas hipnotizante) sobre a existência, uma tentativa arriscada de forjar, plano a plano, um palimpsesto da experiência humana — das coisas que podem ser vistas, sentidas, e, sobretudo, das coisas nas quais só é possível acreditar cegamente. Uau.

CGI por CGI, sou mais Speed Racer (2008).

A viagem (Cloud Atlas, EUA/Alemanha/Hong Kong/Cingapura, 2012, 172 min). De Tom Tykwer e Lana e Andy Wachowski. Com Tom Hanks, Halle Berry e Hugh Grant. 2.5/5.

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