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2012 em: livros

dezembro 30, 2012 3:17 pm Deixe um comentário Go to comments

Não sei se li tanto quanto deveria em 2012. Faltou-me tempo, eu acho, ou passei muito tempo em salas de cinema ou na sala de estar, diante de .avis e .mkvs obtidos nos torrents da vida.

Várias das melhores leituras que tive vieram das coberturas de que participei — da Flip, a minha primeira, na qual ouvi a ladainha do Franzen, encontrei em Enrique Vila-Matas um pensador sobre um assunto que muito me interessa (o fracasso) e ganhei um autógrafo do Ian McEwan; e da (1ª) Bienal Brasil do Livro e da Leitura, esforçada, mas no geral insatisfatória.

Ei-la — a lista, sem distinção de nacional ou estrangeiro, ficção ou não ficção:

9 raymundo10 Raymundo Curupyra, o caypora. De Glauco Mattoso. Tordesilhas, 256 páginas.

Redigido em um mês, preservando uma ortografia anterior à do acordo de 1943, o libelo político/romance lyrico do poeta inscreve seus personagens pervertidos e insidiosos num épico da decadência urbana. É a Cracolândia vista pela arte (antiquada mas presente, graças ao auctor) do soneto — de 200 deles, aliás –, da narrativa clássica/heroica em diálogo com as crueldades do mundo contemporâneo, pela arte que escancara esgotos, abre bocas sujas, joga luz em vielas e atravessa uma cidade feita de sofrimento, esperteza e narrativas escondidas por uns e outros — e renarradas por Glauco.

 

10 visita cruel do tempo9 A visita cruel do tempo (A visit from the Goon Squad). De Jennifer Egan. Tradução: Fernanda Abreu. Intrinseca, 336 páginas. (Copio aqui trechos do que já disse aqui.)

Ler Jen é como ler um Franzen menos barroco. Ela ambienta seus personagens num período equivalente ao de Franzen. Todos cresceram mais ou menos na mesma época e lugar, a San Francisco do final dos anos 1970 — numa narrativa que pressente um futuro próximo sinistro e plausível, em que até bebês empunham seus gadgets. Jen firma arcos narrativos concisos: a estrutura é multifocal, secionada em linhas do tempo e em vozes de uma porção de gente — em primeira ou terceira pessoa, em slides do Power Point (o melhor do romance), em esqueleto de artigo jornalístico; os estilos são tão variados quanto a variedade de episódios.

 

8 passaros8 Pássaros na boca (Pájaros en la boca). De Samantha Schweblin. Tradução: Joce Reiners Terron. Benvirá, 224 páginas.

Estreia da escritora argentina no mercado editorial brasileiro, com uma seleção de 18 contos de terror. A formação de cineasta de Samantha inspira alguns dos parágrafos — ou cenas ou sequências — mais assustadores e imprevisíveis lidos por mim em 2012: o sobrenatural e o absurdo invadem histórias comuns sobre gente comum, como a da garotinha que engole passarinhos e passa seus dias simplesmente esperando pela próxima refeição. Narrativa de cortes secos e guinadas impensáveis, encerradas quase sempre em tom de anticlímax.

 

7 beatles7 A batalha pela alma dos Beatles (You never give me your money: the battle for the soul of The Beatles). De Peter Doggett. Tradução: Ivan Justen Santana. Nossa Cultura, 512 páginas.

Estudioso da contracultura e beatlemaníaco — um fã/pesquisador/crítico de música –, o jornalista visita os bastidores das disputas judiciais, das rusgas interpessoais e das crises das vidas públicas e privadas de John, Paul, George e Richard (o Ringo, ora). Leitura compulsiva de um tema compulsivo, o livro é tanto crônica sobre um fenômeno perene quanto análise (via jornalismo) dos destemperos, dos arrependimentos e das atitudes do quarteto que inventou uma geração e, depois, porque feito de simples seres humanos, sofreu para aceitar o próprio legado.

 

6 stieg larsson6 Stieg Larsson — A verdadeira história do criador da trilogia Millennium (Stieg). De Jan-Erik Pettersson. Tradução: Maria Luiza Newlands. Companhia das Letras, 296 páginas.

Mais do que simples objeto de desejo dos fãs, o relato de Pettersson, escrito sem vernizes sensacionalistas, divide-se em 1) resgate histórico dos radicalismos e extremismos fascistas na Europa pós-Segunda Guerra e 2) ensaio que reúne e conecta, ao mesmo tempo, histórico pessoal do best-seller/jornalista engajado e seus interesses incansáveis na investigação dos aparatos usados por antissemitas, racistas e demais reacionários. É biografia, mas fala intimamente sobre os paradoxos sociais e ideológicos de todo um continente.

 

5 paris5 Paris, a festa continuou — a vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-4 (And the show went on). De Alan Riding. Tradução: Rejane Rubino e Celso Nogueira. Companhia das Letras, 464 páginas.

A alusão ao memorial de Hemingway não é gratuita: combinando reflexão crítica com pesquisa histórica, Riding ilumina as contradições de uma cidade artística e cultural que sobreviveu a Hitler, abrigou resistentes, indiferentes e colaboracionistas, e manteve-se de pé. O autor flagra o conforto de amistosos ao nazismo, a angústia de uma resistência mais simbólica do que pragmática e as posições voláteis da intelligentsia vigente (Camus, Picasso, Sartre e seus pares pensantes da poesia, do cinema, da dança, da música e de outras artes).

 

4 philip k dick4 Realidades adaptadas. De Philip K. Dick. Tradução: Ludimila Hashimoto. Aleph, 304 páginas.

A seleção dos contos de Dick adaptados ao cinema — entre eles, Minority report e O vingador do futuro — serve para revelar as facetas mais ágeis, econômicas e breves do amalucado e lisérgico autor de sci-fi — e também para denunciar a fragilidade das transposições para a telona. Fato curioso é que as duas histórias mais interessantes geraram as duas versões cinematográficas menos prestigiadas (com razão), O pagamento e O vidente. Escrita relaxada, apressada — e, por isso, de intuições geniais.

 

3 cercas3 Anatomia de um instante (Anatomía de un instante). De Javier Cercas. Tradução: Ari Roitman e Maria Alzira Brum. Biblioteca Azul/Globo, 432 páginas.

Exame filosófico do golpe de estado de 23 de fevereiro de 1981, tornado irreal e real pelos registros televisivos feitos do episódio. Cercas não escreve nem romance histórico, nem ensaio político: ao dissecar o real por meio da imagem — e das lembranças coletivas e pessoais e imaginadas criadas a partir dela, da imagem –, ele propõe uma espécie de estudo de caso não somente sobre o fato, mas sobre os vetores midiáticos e os discursos anteriores e posteriores ao golpe. Objeto editorial estranho, anômalo e original.

 

2 serena2 Serena (Sweet tooth). De Ian McEwan. Tradução: Caetano W. Galindo. Companhia das Letras, 384 páginas.

Terminada a coletiva de imprensa na Flip, ele recebeu a minha prova antecipada do seu novo livro nas mãos, perguntou meu nome e rabiscou “to Felipe, best wishes, Ian McEwan”. Mas não, não é por isso que considero Serena uma das melhores coisas que devorei em 2012, acredite. É que Sir McEwan, um ficcionista de narrativas sobre o desejo, replica seus experimentos de romance-dentro-do-romance e falso narrador num plot inebriante de espionagem — cuja estrutura encorpa em suas páginas maquinações e mistérios duma espécie de investigação literária, arquitetada e manipulada pelo espião-escritor.

 

1 imperador1 O imperador de todos os males — Uma biografia do câncer (The emperor of all maladies). De Siddhartha Mukherjee. Tradução: Berilo Vargas. Companhia das Letras, 648 páginas.

Um livro de oncologia e história da medicina pensado, escrito e refletido com propriedade científica, literária e humana. Um monumento. Sem mais. Com a palavra, o autor do melhor livro do ano:

Kenneth Armor, 62 anos, câncer de estômago. Em seus últimos dias, tudo o que queria era tirar férias com a mulher e ter tempo para brincar com seus gatos.

Oscar Fisher, 38 anos, tinha câncer de pulmão de pequenas células. Deficiente cognitivo desde que nasceu, era o filho predileto da mãe. Quando morreu, ela enfiava rosários entre seus dedos.

Aquela noite fico sentado sozinho com minha lista, lembrando nomes e rostos até tarde. Como é que se presta homenagem fúnebre a um paciente? Esses homens e mulheres foram meus amigos, meus interlocutores, meus mestres — uma família substituta. Levanto-me junto à minha escrivaninha, como se estivesse num funeral, as orelhas quentes de emoção, os olhos rasos de lágrimas. Passo os olhos pelo quarto, pelas escrivaninhas vazias, e me dou conta da rapidez com que os últimos dois anos mudaram todos nós. Eric, arrogante, ambicioso e inteligente, está mais humilde e introspectivo. Edwin, de uma alegria e um otimismo sobrenaturais em seu primeiro mês, fala abertamente de resignação e dor. Rick, químico orgânico de formação, tornou-se tão apaixonado pela medicina clínica que já não sabe se voltará para o laboratório. Lauren, cautelosa e madura, tempera suas astutas avaliações com piadas sobre oncologia. Nosso encontro com o câncer nos arredondou, alisou e poliu como pedras na corrente.

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