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E agora, aonde vamos?

novembro 18, 2012 1:19 am Deixe um comentário Go to comments

Abaixo, como é de praxe em dias/semanas preguiçosos, replico uma crítica que publiquei no Correio Braziliense. Emparelhado com as imagens que chegam do Oriente Médio, encorpadas por ataques e réplicas cada vez mais contundentes de israelenses e palestinos, E agora, aonde vamos? soa quase como um filme de fantasia, uma low fantasy mais estridente do que inteligente.

Um alívio (cômico, mas fugaz) de mísseis, tiroteios, incêndios, discursos amedrontados, discursos pela paz, discursos que parecem juras de vingança, cortejos fúnebres que parecem marchas de soldados, mães e pais que perderam um filho que não tinha nada a ver com a jihad, com o ressentimento dos palestinos, com o messianismo dos israelenses, com outros que morreram ou morrerão porque escolheram morrer por um lado, por um deus.

Vai:

De um filme árabe, disposto a reunir nas mesmas cenas cristãos e muçulmanos, espera-se, não necessariamente nesta ordem: balbúrdia, dedos em riste, olhos vermelhos, peitos inflados de argumentos contra e a favor. E, na pior das hipóteses, agressão, tiros, morte. Nadine Labaki, diretora e atriz libanesa de E agora, aonde vamos?, coloca as duas partes frente a frente num vilarejo do Líbano, ao qual só é possível chegar por uma ponte. Acredite: lá, isolados das constantes notícias de violência do centro, adoradores de Alá e Jesus Cristo vivem em paz.

Se em Caramelo (2007), seu primeiro filme como cineasta, Labaki ousava falar de vaidade e sexualidade femininas em língua árabe — para homens árabes –, aqui, a diretora transfere o poder das mulheres para um cenário mais delicado e instável. São elas as diplomatas, as pacificadoras — ou, na maior parte das vezes, as sabotadoras de possíveis conflitos. Sinais de rádio ou tevê mal chegam à vila, porque elas sempre arrumam um jeitinho de despistar as transmissões. Existe uma guerra civil explodindo lá fora, mas o melhor a fazer é ignorá-la, deixá-la a cargo de rebeldes, soldados e fanáticos.

Labaki assume o tom de uma comédia de costumes, em que o padre o e imã são os melhores aliados de mães, esposas e solteiras independentes como Amale, a dona de um café, vivida pela diretora. Ela, por sinal, a exemplo das mulheres espertas e matreiras da comunidade, procura discutir temas sérios — a intolerância religiosa, o machismo — com uma aproximação agradável, lúdica, mas quase sempre discutível.

Nas primeiras cenas, uma porção de mulheres vestidas de preto cultiva o luto numa dança coletiva. Em outros momentos cômicos, Roukoz (Ali Haidar), um garoto prestativo e atrapalhado, quebra a cruz de Cristo sem querer, numa reforma. Em revide de anônimo, cabras perambulam pela mesquita, profanando o espaço sagrado. No desespero para controlar os ânimos de cristãos e muçulmanos, Amale e cia. chegam até a contratar os serviços de uma trupe de dançarinas ucranianas, loiras e de roupas coladas e curtas.

E então, subitamente, da metade para o fim, Labaki dramatiza o que até então era motivo de risada. Impregna de emoções chorosas a fantasia realista de outrora, em que números músicais e discussões hilárias parodiavam o que existe de mais ridículo e primitivo no ódio pelo outro: a falta de razão de um e de outro.

E agora, aonde vamos? (Et maintenant on va où?, Líbano/França/Egito/Itália, 2011, 110 min). De Nadine Labaki. Com Claude Baz Moussawbaa, Leyla Hakim e Nadine Labaki. 2.5/5.

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  1. novembro 18, 2012 1:24 am às 1:24

    Um convite à lucidez através do insensato e do esquizóide. Talvez nos falte isso na fé, na ciência, na família, nas artes…

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