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Mostra São Paulo – Dia 3/3

Meu terceiro, derradeiro e mais frutífero dia (quarta-feira) de Mostra começou com a pirotecnia hipster de Xavier Dolan em Laurence anyways — acredite, o melhor filme dele — e terminou com o mal estar leste europeu em Além das montanhas, do Palma de Ouro Cristian Mungiu. Entre os dois, vi um mexicano meio desconhecido — e bem fraquinho –, Não quero dormir sozinha, me encantei com o Kiarostami afetuoso e inclassificável de Like someone in love, meu preferido do festival, e admirei os pequenos feitos de O gebo e a sombra, do imortal Manoel de Oliveira. Às últimas:

Um alguém apaixonado (Like someone in love, Japão/França, 2012, 109 min). De Abbas Kiarostami. 4/5

Estou tentado a dizer que é quase tão bom e destemido quanto Cópia fiel. Exagero à parte, é um Kiarostami novamente brincando com identidades confusas, num título belamente organizado por meio de pontos de vista refletidos, espelhados e sobrepostos — a sequência inicial, feita de dois planos fixos, a viagem de carro pelas ruas iluminadas de Tóquio, os interiores revelados sem manipulações na montagem.

A trama, ou o fiapo de trama, segue as andanças de uma jovem acompanhante japonesa, que despreza a vinda da avó para Tóquio — possivelmente desconfiada a respeito do que a neta anda fazendo para sobreviver –, está noiva mas não quer casar, faz faculdade mas não parece gostar de ler. Agora, ela está em contato com um novo cliente, um velhinho intelectual, ex-professor universitário e tradutor que mora a uma hora do centro.

O tempo de Like someone in love é puramente real. Os planos têm de durar o quanto tiverem de durar. O diretor, além de adiar os cortes sempre que possível, filma esperas, minutos vazios, segundos fugazes. Há um apuro visual espantoso, mas o poder está nos (1) diálogos, (2) na voz de Ella Fitzgerald saindo da vitrola do velho que se assume como avô dela, (3) nos murmúrios de aprovação ou reprovação, (4) no velhinho cantando Que sera, sera para a acompanhante/pretensa neta/amiga.

Não acontece nada. E acontece tudo. A vida é assim. Aqui, o cinema é assim. “O que tiver de ser, será”, diz o sujeito. É um anticlímax encerrado com um final abrupto e brusco e violento de propósito — com um clímax, ora, porque a vida é desse jeito, 99% de anticlímax, de coisas ordinárias, de papos que esquecemos, de pessoas que conhecemos, e 1% de clímax, de imprevisibilidade, de surpresa, de graça — de amor, de paixão. Whatever will be, will be.

Além das montanhas (Dupa dealuri, Romênia/França/Bélgica, 2012, 150 min). De Cristian Mungiu. 3.5/5

Mungiu endereça uma crítica frontal ao cristianismo, aos ortodoxos, ao confinamento judaico-cristão. As armas? Lesbianismo refreado pela Bíblia, distúrbio psicológico tratado — amordaçado, amarrado, acorrentado, melhor dizendo — como possessão demoníaca e uma coletânea de perversidades ocorridas num convento fincado nas montanhas, onde uma jovem freira recebe a visita da amiga que a acompanhou, a protegeu e a amou durante os tempos de orfanato.

Num surto — Mungiu atento aos olhares, aos movimentos duros, à santidade dos ambientes –, a forasteira invade a comunhão, grita e esperneia, xinga e blasfema. Ela quer levar a amiga para a Alemanha, de onde saiu. Ela quer ficar com a amiga o tempo todo — no café, no jantar, na hora de dormir, na hora da reza, na hora da confissão. Ela é obcecada por atenção. E Mungiu, obcecado em filmar suas convulsões e a comoção gerada pelas convulsões — tivesse 30 minutos a menos, Além das montanhas seria um filme melhor.

Apesar da delonga, o diretor conclui seu terror-de-convento — é o haunted house da Europa Oriental — num veículo da polícia, na realidade da justiça e da lei alcançando o topo da montanha — a ortodoxia até então intocada, escondida. (Spoiler a caminho). Os policiais apontam culpados — o padre, a madre, as enfermeiras que amordaçaram, amarraram e acorrentaram a moça de braços abertos, como o corpo de Cristo. O carro chega à cidade. Crianças atravessam a faixa de pedestre. Um mini-travelling sai do fundo, do xilindró móvel, leva o interesse da cena para o papo trivial do policial que dirige e do carona, registra o cotidiano, o dia comum. O cristianismo superado pela lógica da rotina.

O gebo e a sombra (Gebo et l’ombre, Portugal/França, 2012, 95 min). De Manoel de Oliveira. 3/5

“Ou se é honesto ou se enriquece” e “rotina é felicidade” são algumas das máximas ouvidas ao longo da projeção do novo do velho Manoel. É um filme teatralizado no sentido mais generoso da expressão: reduzido a pouquíssimos planos, o cineasta português enquadra a tristeza tediosa de pai, esposa e nora, que lamentam o sumiço do filho e marido. É potência dramática extraída do mínimo, é precariedade como recurso para emoldurar a angústia, a avareza e a injustiça.

A vida para, estaca enquanto se está preso ao combinado de dois cômodos, à composição de cena com frutas à mesa, atas preenchidas de números e móveis que se confundem com o negrume das paredes. As trevas estão — ou  sempre estiveram, como aponta a ambientação atemporal e passadista — na sala de estar.

Laurence anyways (Canadá/França, 2012, 159 min). De Xavier Dolan. 2.5/5

Dolan sai de cena — na verdade, ele faz um cameo quase imperceptível numa festa, não digno de nota — e, com um personagem em metamorfose, roda seu filme mais consistente. Ou: seu filme menos afetado, apesar do toró de roupas em cãmera lenta, da borboleta saindo da boca de Laurence — o simbolismo óbvio para a “saída do casulo” –, o homem que, ano a ano (de 1987 ao raiar do novo milênio), se reafirma como mulher, e do aguaceiro que ensopa a sala de estar da sua amante, esposa e melhor amiga, Fred.

É uma queer love story achegada à dimensão dos melodramas históricos, desajeitada do meio para o fim e marcada por gracejos fantasistas e um vaivém cíclico de términos e voltas, de idas e vindas, de choros e risos. De positivo, fica: o panorama das mudanças comportamentais em torno dos transexuais, concentrado nas mudanças na vida de Laurence — antes: marginalizado pelas escolhas, depois: legimitado pela arte. O final derrama-lágrimas é o momento máximo do cinema hipster em 2012.

Não quero dormir sozinha (No quiero dormir sola, México, 2012, 85 min). De Natalia Beristain. 2/5

É um longa de estreia irregular, mas com algo de promissor em suas representações — e viradas dramáticas — de rusgas familiares. Uma jovem vive na casa do pai — ator famoso, sem tempo, estressado, ausente — e cuida da avó doente — que foi uma atriz famosa, hoje bebe demais e tem Alzheimer. Ela é incapaz de dormir sozinha — o que, por sinal, tira o sono da neta.

Nada demais nisso, mas há uma torção incomum no roteiro, pouco coerente — talvez manipuladora: os últimos 15 minutos dão a impressão de que a neta, resignada com o isolamento da vó — e, por consequência, com o seu próprio isolamento –, se torna naturalmente um espelho (e um receptáculo) das crises que ela tanto observou nos últimos tempos. Tão frágil quanto a solução final de Perder a razão, que comentei aqui ontem.

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  1. janeiro 1, 2013 2:36 pm às 14:36

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