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Mostra São Paulo – Dia 2/3

Fui do céu ao inferno. Do clima de agitação popular de No, o entusiasmado drama político do chileno Pablo Larraín, ao inferno gélido de Antiviral, estreia do filho de David Cronenberg, o já bem perturbado (e, sim, promissor) Brandon. Antes disso tudo, comecei o dia com Perder a razão, dramalhão com boas atuações, mas de desenvolvimento crivado de escolhas discutíveis de roteiro e execução. No mais, vi o nacional Uma história de amor e fúria, rara animação brasileira em longa-metragem — ou melhor, rara e boa. Às defesas e ataques:

No (Chile/França/EUA, 2012, 118 min). De Pablo Larraín. 3.5/5

A grande vitória de Larraín, aqui, não é somente reconstruir um fato histórico com empolgação e energia — afinal, estamos falando do referendo que derrubou Pinochet, em 1988. O grande feito do chileno é restituir ao cinema latino-americano uma vontade de revisão política, de discussão da memória coletiva — e, vá lá, até de heroísmo do passado esquerdista. O longa é direcionado para o personagem de Gael García Bernal, um publicitário que comanda a campanha da esquerda no plebiscito que dirá SIM ou NÃO à permanência do caudilho no poder. Durante produção e execução dos jobs — 15 minutos diários de programa televisivo durante 27 dias –, ele tem de enfrentar empecilhos tanto políticos quanto morais e corporativos — basta dizer que seu chefe é um conservador disfarçado de centrista.

A trama é empolgante, movimentada e, o melhor, deliciosa de acompanhar — atributos que sobram em outros filmes que observam a política via estruturas midiátias, como o clássico Todos os homens do presidente (1976). Ou seja: um crowd-pleaser no sentido menos diabólico da expressão. Visualmente, o cineasta recorre a uma fotografia de época, borrada e sem muita nitidez, como era típico dos videoteipes e da tevê nos anos 1980. Larraín consegue, além de uma incrível granulação de imagem, tornar o próprio filme uma espécie de peça publicitária sobre um certo orgulho nacionalista — ou, se preferir, um orgulho agarrado à liberdade da expressão e à conquista da democracia pelo povo, sem violência. No é um brado, é um urro — e, mais do que isso, é o sentimento de um povo.

Uma história de amor e fúria (Brasil, 2012, 75 min). De Luiz Bolognesi. 3/5

É a aula de história com a qual sempre sonhamos: um desenho violento, sedutor e pulp, com um protagonista de mais de 600 anos de idade e várias encarnações ao longo dos séculos. No Brasil Colônia, o metade homem/metade pássaro mítico lutou contra os portugueses. No Império, apoiou a causa antiescravagista. Nos tempos da ditadura militar, pegou em armas e virou preso político. E agora, em 2096, num cenário absurdo mas plausível, em que a água é o principal commodity de traficantes e empresários e um pastor responde pela presidência do Brasil, nosso herói continua engrossando revoluções em busca de um mundo melhor — enquanto, em mais uma vida, se apaixona pela nova versão de Janaína, seu grande amor há séculos.

Bolognesi não tem medo de ser didático e pedagógico — ele é e ponto final, o que abre caminho para uma narrativa de anseios épicos, às vezes rasteira e apressada, mas sempre empolgante. O trabalho de animação investe em tons clichês para os períodos históricos — a ditadura em sépia, o Rio sci-fi à Minority Report/Blade Runner –, num design que parece o das produções da Disney de duas décadas atrás. Mas o que importa são as ousadias de revisionismo histórico e as particularidades familiares de uma fantasia ambientada em solo nacional — eu prefiro mil vezes rever Uma história de amor e fúria a ter de dar mais uma chance a Abraham Lincoln: Caçador de vampiros, por exemplo. O filme é uma raridade simplesmente por ser o que é — uma animação brasileira adulta em longa-metragem. Que venham mais, pois.

Antiviral (Canadá/EUA, 2012, 108 min). De Brandon Cronenberg. 2.5/5

Ouvi muita gente dizendo que “este é um retorno ao velho Cronenberg”. Não é para tanto. O debute do “novo” Cronenberg, de fato, traz de volta a sanguinolência de títulos como Shivers (1975) e Scanners (1981) — e, com ela, alegorias sociais. Eis o problema: Brandon tem alguma personalidade, mas acaba, por fim, inscrevendo seu cinema na linha clean e asséptica — eu diria até vampiresca — dos filmes recentes do pai. Com uma rigidez formal que lembra Cosmópolis, Cronenberg Filho monta um sci-fi sobre a mania e a obsessão das pessoas com as celebridades.

Syd March, vivido por um Caleb Landry Jones que só falta se desintegrar na tela, trabalha numa empresa que fornece aos clientes, acredite, doenças que seus artistas favoritos já tiveram. É possível, por exemplo, adquirir a herpes que a modelo Hannah Geist contraiu há alguns anos. Ou qualquer outra enfermidade que seu bolso puder bancar. Um dispositivo de modificação genética do vírus faz com que ele afete somente a saúde do fã que o comprou. Nas ruas, açougues comercializam bifes orgânicos produzidos a partir das células de gente famosa.

Se antes a perseguição às celebridades consistia em revistas de fofoca, pedidos de autógrafo e esperas em saguões de aeroporto, hoje a ciência permite que você conecte o seu corpo ao de quem você admira. March vende gripes, vírus e outras patologias no ambiente de escritório e fora dele –os piratas agradecem –, mas mantém um console em casa — uma tela, acoplada a fios e outras engrenagens, compõe, literalmente, um rosto (deformado e manchado) para o vírus. Ele se injetou com a gripe que, supostamente, matou Hannah.

E agora, este jovem ruivo de traços raivosos — ele realmente parece ter contraído raiva e não uma simples gripe — se tornou o alvo de uma corporação rival, que intenta fabricar uma nova geração de produtos para os viciados em pragas. O diretor podia ter cortado algumas arestas: prolixo e alongado sem necessidade, o filme demora a chegar a uma solução satisfatória. Até lá, seringas, febres e võmitos de sangue colorem os brancos e os vácuos de Antiviral. Mas é um terror meramente sanitário, de aclimatação hospitalar. O Cronenberg insalubre, contaminado e contagiante ainda está adormecido.

Perder a razão (À perdre la raison, Bélgica/Luxemburgo/França/Suíça, 2012, 111 min). De Joachim Lafosse. 2.5/5

Já no prólogo, este aqui parece se denunciar como um drama familiar preso a um esquema pré-determinado, em que as situações têm de ser forçadas para, no fim, o último plano justificar (e explicar) o primeiro. Murielle (Émilie Dequenne, alma da obra-prima Rosetta), aparece no início aos prantos, perguntando ao marido, “eles serão enterrados no Marrocos?”. O homem, Mounir (Tahar Rahim), sai do quarto de hospital e, em seguida, dá um abraço apertado num velho que parece ser seu pai. Só parece, mas age como se fosse. André (Niels Arestrup) tirou Mounir da pobreza do Marrocos e o levou para a França. Lá, formado em medicina, o jovem se apaixona por Murielle. Casa-se com ela. O casal tem quatro filhos.

E André, médico da família + padrinho + pai adotivo, mora com a família. Aliás, a família mora com ele, na casa deste velho solitário, mas solícito. É nos planos domésticos, emoldurados por móveis e cantos de parede e porta desfocados, que Lafosse dramatiza as perturbações de um lar que tinha tudo para ser perfeito e feliz, mas não é. O primeiro plano já mostrava algo de alarmante, de trágico. Então, o restante do filme — uns 108 minutos — é montado como um longo massacre de Murielle, a jovem mãe cujo único desejo é pertencer: (1) ao clã da família de Mounir, que vive no Marrocos, e (2) ao microcírculo egoísta de amizade e confiança inquebrável entre o marido e André.

Lafosse, perto do fim, tem de acelerar o esgotamento nervoso da protagonista para fechar o arco que começou lá atrás, no prólogo. E, quando finalmente consegue encerrá-lo, o faz com um distanciamento incoerente — (spoiler a caminho) saindo do sufocamento, enquadrando a casa como um mero objeto imobiliário, e reiterando (num telefonema, num off dos mais bestas), o que já se sabe desde que a mãe, do andar de cima, com o caçula no quarto, chama as filhas uma por uma. Explicação para o hype? Este é um O sétimo continente (1989) para as multidões, tocante, suave e ligeiramente grave.

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