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Mostra São Paulo – Dia 1/3

O tempo urge. Terei apenas 72 horas de Mostra São Paulo este ano — o que significa, em números (miúdos), algo entre 10 e 12 filmes, até quarta. Inaugurei minha segunda participação no festival (ontem, segunda) com o descompensado quase-doc Canção para o meu pai, do israelense Amos Gitai, fui em diante com A cara que mereces, filme de estreia do incensado Miguel Gomes (Aquele querido mês de agosto, Tabu) e encerrei o dia em clima de romance russo — deprimente, pesado, catatônico –, na sessão de Na neblina, de Sergei Loznitsa, um dos focos desta edição — ele em pessoa e todos os seus documentários + Minha felcidade estiveram dando uma voltinha por São Paulo. Ao que interessa:

Na neblina (V tumane, Alemanha/Holanda/Bielorússia/Rússia/Letônia, 2012, 127 min). De Sergei Loznitsa. 3.5/5

A Segunda Guerra vista através das histórias de três russos — um soldado, o superior deste mesmo soldado e um pobre homem acusado de traição, poupado da hora final por sorte (por azar, eu quis dizer). Loznitsa é tímido com a câmera — ela fica, para, continua devagar –, mas estica as cenas em planos longos, calmos, demorados, um personagem esperando a fala do outro, a respiração filmada sem cortes ou contraplanos. É um cinema que busca a completude dramática — literalmente, reunindo todos os elementos num quadro só, protelado até o limite –, mas não de estilismo — o propósito de Steve McQueen (Shame), quando resolve prolongar o momento da interrupção de um plano para obter resultados plásticos de uma sequência.

O tal sujeito injustiçado tentou sabotar trilhos por onde passariam vagões nazistas. A punição: ficar vivo, enquanto seus comparsas tiveram pena capital na forca. Um acordo à força, feito com os nazistas. Ele preferia ter morrido a isso. Sua mulher preferia que ele tivesse morrido a isso. Quando um oficial russo e seu ajudante deixam a guerra por alguns dias e vão atrás de Sushenya (Vladimir Svirskiy), o sobrevivente, de tão angustiado, não hesita em ir com os dois. Na mata escura — e sempre fotografada em tons esverdeados –, Burov (Vladislav Abashin) aponta o rifle para a cabeça do prisioneiro. O estalo de um galho denuncia companhia, tiros zunem, o atirador é alvejado, Sushenya não foge, em vez disso carrega seu algoz moribundo nas costas, enquanto o cabo acompanha os dois com uma arma engatilhada.

Os três estão na solidão de uma floresta fria, calada, nebulosa. Pode-se morrer em paz ali — um privilégio que quem está entrincheirado nas linhas de batalha certamente não terá. Loznitsa aproveita a introspecção geral para trazer à luz o passado dos três. É culpa dostoievskiana que não acaba mais — sobretudo para o dito traidor. O peso de carregar o seu assassino nas costas é maior que o fardo da honra ferida, da autoimagem de falso herói, da angústia de estar vivo enquanto seus amigos já se foram? Pouco interessa. Aos três, agora, só importa morrer dignamente. Na neblina exibe várias potências — entre elas, profundidade e aclimatação, digamos, de ares literários –, mas fica um degrau abaixo do último grande filme russo sobre a humanidade e seus demônios — Fausto.

A cara que mereces (Portugal, 2004, 108 min). De Miguel Gomes. 3/5

As (duas) histórias, conectadas por apenas uma moedinha dourada, são contadas num mundo real e adulto, mas recendem a fábulas infantis — a da Branca de Neve e os Sete Anões, para ser mais direto. Na primeira, Gomes filma como que um musical tragicômico no dia de aniversário de (30 anos) de Francisco, um caubói lisbonense melancólico e pessimista. É hilário: uma pantomina interpretada por gente crescida, em que as infantilidades surgem como páródia das crises da fase adulta.

A estrutura seriada, infelizmente, prossegue e termina num segundo conto alongado: versão “crescida” dos Sete Anões. Há um certo esbanjamento de esquisitices — afinal, são contos de fadas –, uma ironia incontrolável nas firulas visuais — efeitos sonoros cartunescos, a narração em off que dialoga com os personagens, os recortes de livros infantis –, e a cenografia é toda construída em cima de realismo e mágica. Não chega a ser um Wes Anderson, mas fica próximo disso (dum conceito rígido e não negociável de estilo): já em seu filme de estreia, Gomes marca terreno com uma direção de personalidade, que não parece perseguir outra coisa senão a originalidade. Falho, mas aventureiro e arriscado.

Canção para o meu pai (Lullaby to my father, França/Suíça, 2012, 82 min). De Amos Gitai. 2/5

Munio, o pai de Amos Gitai, foi arquiteto, estudou na Bauhaus, e sabemos da sua importância para Israel porque seu filho lhe dedica um documentário destemido, que pinça depoimentos, abre espaço para leitura de cartas, permite poesia e ainda arranja tempo de tela para interpretações ficcionais (mui bem filmadas) do passado, centradas sempre na mãe do diretor. Parece um impressionante esforço de recuperação de memória e legado familiar, mas este é o caso em que o conceito não se percebe muito claramente — na verdade, o conceito é melhor descrito como falta de focalização do que Gitai estava disposto a filmar.

A homenagem teria dado um belo longa ficcional. Veja algumas das cenas, já prontas, já compiladas em Canção: Gitai filma o seu próprio parto no primeiro plano; cria imagens lindas saídas de um road movie puramente pictórico, com flocos de neve e luzes de tráfego, ou com estacas de madeira e trilhos duma estrada de ferro; monta um plano sequência digno de épico numa estação do metrô. E os outros momentos? Falas cifradas, recriações teatrais de alguns desses mesmos testemunhos, fantasmagóricas passagens da câmera por locações desoladas, e meditações que fariam mais sentido num livro biográfico de Gitai — ou num livro de lembranças e impressões do pai. Lucia Murat faria melhor.

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