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Em nome de Deus

Antes de ser o que é — uma encenação do sequestro (Dos Palmas) de muçulmanos e cristãos por extremistas da/do jihad, nas Filipinas, no ano de 2001, num período que coleta fatos pré e pós 11 de setembro –, Captive precisa ser visto como um filme de ficção de Brillante Mendoza. Um produto mais naturalista do que realista, em que a tensão das cenas, os movimentos de zoom in e zoom out e a câmera trêmula e ansiosa servem a um propósito primário — porque primitivo –, de metamorfose de uma coisa na outra, de vida e morte, de simulacro da natureza (humana e selvagem).

Thérèse (Isabelle Huppert) e mais uma dúzia de pessoas que trabalham nas Filipinas são feitas reféns por terroristas. Eles fazem um trajeto de barco. Depois, caminham por vias urbanas — os sequestradores trocando tiros com militares, os sequestrados aos gritos. Mendoza não dá a mínima para sequer um arremedo de trama. Então, não dá para saber quem é quem, quem faz o quê, quem vem de qual país — todos falam suas línguas nativas e o inglês, e Huppert (uma assistente social, cargo que salta dos diálogos mais à frente) fala mais inglês que francês –, e quais são as motivações dos algozes. Um flagrante não jornalístico, “não cinematográfico”, seria exatamente assim: confuso, alarmante, intenso, impressões, suspiros, diálogos, pulsações entrecortados.

Quando o grupo se refugia num hospital, o tiroteio persiste. Os “vilões” precisam de refúgio. Enquanto acenam para seus companheiros, indicando onde se esconder, para qual direção atirar, um parto é realizado — todos estão num hospital, ora. Um parto tão real quanto as atividades domésticas, o furúnculo ou a ereção de um jovem em Serviço (2008), do mesmo cineasta. Duas pessoas abandonam a sessão.

Captive começa mesmo no momento em que jihadistas e não jihadistas alcançam a floresta. Aqui, apesar da óbvia diferença de língua e causa de uns e outros, a natureza assume o papel de estado e nações (até então indiferentes) — ela governa, ela abriga, ela protege, ela pune, ela dá vida, ela mata.

A caminhada é uma vida. Passam-se mais de 365 dias — mais de um ano. E Mendoza não quer filmar tudo isso, é claro. Ele escolhe alguns dias. Dia 17, dia cento e alguma coisa, dia 377, dia x, dia y. E, em cada um deles, expõe como as relações (ou as não relações) entre sequestradores e sequestrados é modificada pelo tempo e pela presença (democratizadora e autoritária) da natureza.

Veja você: uma enfermeira muçulmana e um terrorista muçulmano juntam os trapinhos numa clareira; as testemunhas são os camaradas dele e os pobres colegas de cativeiro dela. De forma muito ligeira, ficamos sabendo quem é quem. Thérèse trabalhava com Soledad, uma velha senhora, nas Filipinas. Alguns reféns caem mortos pelos ataques dos militares, que ainda acossam os extremistas. E, pouco a pouco, uns são postos em liberdade.

Soledad, bem, morre assim: num dos raros planos não urgentes, Mendoza desce a câmera da copa das árvores, mas não mira os sequestrados cansados ou os sequestrados falantes; mira folhas secas e formigas. No plano seguinte, enquadra Soledad morta — sim, de causas naturais, com um punhado de formigas caminhando sobre seu casaco.

Num dos saltos temporais, Mendoza mostra dois sequestradores ouvindo o rádio, escutando notícias sobre seus companheiros que explodiram dois aviões nas Torres Gêmeas, e eles comemoram o feito, brandem as armas para o alto, e Thérèse e outros ocidentais ficam estupefatos — no World Trade Center? houve feridos? estão atacando os Estados Unidos?

(Houve um casamento. E, esqueci de dizer, um estupro: um dos líderes faz sexo à força com uma mulher casada. Uma pessoa abandona a sessão.)

É na violência — simbólica ou física — que o diretor volta a separar os dois lados. Mas, quando todos estão simplesmente caminhando pela natureza — ainda que uns com armas e outros não –, ele equilibra os polos. Thérèse faz um curativo no pé baleado de um jihadista adolescente — mastigando uma folha, coisa que um terrorista-mateiro fez há dias e que uma enfermeira, severa, reprovou.

A comitiva chega a uma escola — ocidentais ensinam inglês às crianças, como se estivessem ali em nome de um projeto social. O jovem extremista se isola. Thérèse quer saber qual é o problema. Thérèse e o extremista estão deitados sob as árvores, ela aprende a atirar, ele conhece o afeto de um beijinho no rosto.

No final desta mesma cena, ela vai dizer os nomes dos três filhos. Hesita. Corte seco. Ela perdeu três e ganhou um — rebelde. Depois, ela caminha — lembrando o Jim Caviezel de Além da linha vermelha (1998) –, caminha mas não foge, e o amigo (?), o filho, a manda voltar, aponta o rifle, dá comandos como um desconhecido.

Captive é um survival movie político raro — menos original que Essential killing (2010), talvez mais honesto que qualquer Greengrass –, pois ilumina os aspectos mais básicos, mais ordinários, mais rudimentares e menos ideológicos do terrorismo, que, no jornalismo ou no cinema que procura ser jornalismo, sempre aparece como um relatório informal mas burocrático, de textos enormes, de tramas que emulam fatos. Mendoza é apenas fato e humanidade.

Em nome de Deus (Captive, Filipinas/França/Alemanha/Inglaterra, 2012, 120 min). De Brillante Mendoza. Com Isabelle Huppert, Katherine Mulville e Marc Zanetta. 3/5.

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